Archive for June, 2006

Inverno carioca

15° no termômetro
22° nas mãos
18° nos pés
43° no coração

Não à toa, fico gripada.

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Cartografia carioca

Antes de ser sentimental, minha relação com o Rio é cartográfica. Nasci e vivi nesta cidade até os sete anos de idade. Daí até os 17, morei em Teresópolis, e nesse tempo perdi muitos dos meus laços e da minha vivência por aqui. O Rio da minha adolescência era um espaço de memória, desejo e assombro. Menino do mato, acompanhava de longe o cotidiano da cidade, no relato dos primos, nas histórias do jornal e através de todo o imaginário que ela sempre inspirou com fartura.
Voltar pro Rio foi cair em outro planeta, um lugar de ruas que eu não conhecia, uma geografia que eu não compreendia, uma língua materna que eu não falava mais.
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Cagaço virtual

É raro encontrar cariocas que não sejam supersticiosos. O Rio de Janeiro funde o real e o imaginário como poucas cidades no mundo. Perde para Salvador, é claro.

Sou carioca, mas não me considero supersticioso. Durante a Copa do Mundo, no entanto, o bicho pega. Me cerco de rotinas e comportamentos que tenho certeza que levarão o Brasil à final e ao caneco.

A primeira, e mais importante das tarefas, é usar a mesma camisa da Seleção que visto desde a Copa de 1994. Está lá, velha, com o 6 desbotado (sim, eu gostava do Roberto Carlos), e de um modelo antiquado em coparação aos dryfits de hoje. Mas é nela que eu assisto às partidas, normalmente em pé, e encostado em algum lugar.

Sou um gamer assumido, mas durante a Copa não me atrevo a jogar meu querido Winning Eleven no PlayStation 2 assumindo a Seleção. Não sei, a sensação é de estar controlando algo maior, prevendo o futuro, definindo algo que não poderá ser modificado no campo.

Mas hoje cedo rompi essa rotina. Vesti a amarelinha virtual, o Parreira digital e escalei meu time igualzinho ao que tem jogado. Do outro lado, a França de Zidane, Vieira e de Barthez, meu odiado Barthez. No meu personal Alzirão, silêncio, interrompido apenas pelos FDPs dos pombos que insistem em pousar na minha janela.

Venci a primeira partida, 1 x 0. “Beleza”, pensei. “Melhor de três”.
Na segunda, dancei: 0 x 3. Na terceira, dancei: 0 x 1. Raciocínio rápido: “Melhor de cinco”.
Na quarta, me vinguei: 1 x 0.

E não continuei. Medrei. Cagaço virtual.

Em qualquer lugar

Gosto demais dessas músicas que cravam paisagens locais, que listam ruas de cidade. Genial a de Recife, “Pelas ruas que andei”, do Alceu Valença: “Na Madalena, revi teu nome/ Na Boa Vista, quis te encontrar/ Rua do Sol, da Boa Hora/ Rua da Aurora, vou caminhar (…)/ O homem fica em Boa Viagem/ Na Piedade tanta dor”.

Ou a São Paulo de Tom Zé: “Augusta, graças a Deus/ Graças a Deus/ Entre você e a Angélica/ Eu encontrei a Consolação/ Quando eu vi/ Que o Largo dos Aflitos/ Não era bastante largo/ Pra caber minha aflição/ Eu fui morar na Estação da Luz/ Porque estava tudo escuro/ Dentro do meu coração”.

Mas como o assunto é Rio, abro minhas participações aqui com a saudação de Claudinho e Buchecha à cidade que extrapola as fronteiras do mapa distribuído aos turistas: “Na Praça da Playboy, ou em Niterói/ Na Fazenda, Chumbada ou no Coez/ Quitungo, Guaporé, nos locais do Jacaré/ Taquara, Furna e Faz-quem-quer/ Barata, Cidade de Deus, Borel e a Gambá/ Marechal, Urucânia, Irajá/ Mosmorama, Guadalupe, Sangue-areia e Pombal/ Vigário Geral, Rocinha e Vidigal/ Coronel, Mutuapira, Itaguaí e Sacy/ Andaraí , Iriri, Salgueiro, Catiri/ Engenho Novo, Gramacho, Méier, Inhaúma, Arará/ Vila Aliança, Mineira, Mangueira e a Vintém/ Na Posse e Madureira, Nilópolis, Xerém/ Ou em qualquer lugar, eu vou te admirar”.

Não é por acaso que, em todas as música, tem sempre uma mulher se misturando aos cenários locais. Cidades são femininas – tá bom, Brasília é meio macho, traveco talvez. Já o Rio é uma mulher de seus 30 e poucos, linda e difícil. Mas a gente tenta.

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Abrimos um desses mapas de turista na mesa do Lamas, na fatídica reunião. Ele apresentava a cidade sem a Barra e a única referência à Zona Norte era o Maracanã perdido no meio de um descampado. Vem cá: como entender o Rio ignorando a Barra e o subúrbio?!

Argentina é o Flamengo

Há uma coisa em comum entre a Argentina e o Flamengo: a torcida contra. No Rio de Janeiro quem não é flamenguista é anti-flamenguista. E quem é brasileiro é anti-argentino – dentro do limite das quatro linhas, espero…
Nesta Copa do Mundo é possível constatar isso mais claramente. Quando escuto as cornetas soarem das janelas é porque ou foi gol do Brasil ou foi gol contra a Argentina. Na partida de hoje entre Alemanha e Argentina pelas quartas-de-final, a euforia foi enorme quando a equipe germânica empatou no segundo tempo. Ouvi até um gaiato gritar da janela a plenos pulmões: “DEUTSCHLAND”, com sotaque carioca, óbvio.
A rivalidade com os argentinos talvez se deva à proximidade entre os dois países. É assim no mundo inteiro. Portugueses cismam com espanhóis, franceses zombam dos ingleses, bolivianos implicam com chilenos etc. Fronteiras geram tensões. Preferiria um mundo sem essas linhas imaginárias que dividem os povos.
Em tempo: sou tricolor e gosto da Argentina. Por sinal, torci por ela hoje.

Rio é uma festa

“Los cariocas son muy sociables!”, dizia o meu amigo chileno dentro do carro enquanto nos dirigíamos ao Lamas para a primeira reunião do Metroblog. Ele estava encantado com a facilidade com que se fazem novas amizades por aqui. As pessoas puxam papo em qualquer lugar: na fila do banco, durante uma corrida de ônibus ou mesmo dentro de um elevador. Também se espantou com a animação do povo no último jogo do Brasil: a partida foi ao meio-dia mas as pessoas ficaram nas ruas comemorando até de madrugada.
Chegamos no Lamas. Fui apresentado aos outros metrobloggers. A discussão sobre o conceito durou dez ou quinze minutos, sem muitas divergências, para, logo em seguida, começarmos a debater calorosamente sobre como seria a FESTA de lançamento. Meu amigo chileno riu, ao constatar mais uma vez o que sentira desde o primeiro dia que pisou no Rio de férias, há duas semanas. “Rio és una fiesta”.

Sinal Aberto

Acho incrível voltar pra casa de madrugada e pegar todos os sinais verdes. É raro, mas acontece. Talvez porque minha mente seja muito metafórica e isso me remeta à pensamentos super positivos do tipo: “Vai dar tudo certo“. É extremamente bobo, quase infantil. Mas lá vou eu, no Palio da minha progenitora, sem som (roubado em 2003), cantarolando alguma música idiota (nunca cantarolo músicas fodonas; por exemplo: nunca me percebi cantando alguma música do Deftones, que eu amo), a 90km/h, 50km/h, 120km/h. O sinal às vezes me engana, mas quando estou quase chegando, ele fica verde. Pra mim. Paro de cantarolar e dou sorrisinho besta pensando: “Que foda, que foda!” Chego em casa e sonho que estou boiando numa piscina muito funda e que meus pés e as minhas mãos são verdes.

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Centro da cidade. Domingo. Vazio. Maravilha.
Downtown. Sunday. Empty. Wonderful.

Lamas

O Rio Metblog nasceu no Lamas, bar/restaurante que fica no Flamengo. Nunca fui muito com sua cara, para o desespero de amigos, conhecidos e outros. Ele parece ser uma unanimidade, por ser um lugar bacana, com comida e bebida boas e aberto até altas horas.

Mas ontem, enquanto nos reuníamos e imaginávamos as possibilidades deste blog carioca, observei o Lamas diferente.

Há os bares que privilegiam a bebida acima da conversa. Música alta aliada ao espaço limitado são ingredientes perfeitos para a boa e velha azaração e o papo quebrado em duas ou três frases ao pé do ouvido.

O Lamas não. Tem cara de restaurante, mas para mim é um bar. E mesmo com suas paredes forradas de espelhos – que costumavam me incomodar muito -, consegue abraçar os clientes, num clima que pede a conversa. Olho para os lados e vejo músicas, prédios, livros, reportagens saindo dos diálogos. E a língua com salada russa é uma delícia.

Já agora, o Lamas tem 133 anos e fica na Marquês de Abrantes 18. O manual diz que fica aberto até às 3hs, mas isso pode ser negociado.

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