Cartografia carioca

Antes de ser sentimental, minha relação com o Rio é cartográfica. Nasci e vivi nesta cidade até os sete anos de idade. Daí até os 17, morei em Teresópolis, e nesse tempo perdi muitos dos meus laços e da minha vivência por aqui. O Rio da minha adolescência era um espaço de memória, desejo e assombro. Menino do mato, acompanhava de longe o cotidiano da cidade, no relato dos primos, nas histórias do jornal e através de todo o imaginário que ela sempre inspirou com fartura.
Voltar pro Rio foi cair em outro planeta, um lugar de ruas que eu não conhecia, uma geografia que eu não compreendia, uma língua materna que eu não falava mais.

Cidades são línguas, e é fácil nos divertirmos com elas e seus fonemas belos e estranhos enquanto somos turistas, mas pedir-lhes a água e o pão de cada dia sem errar a pronúncia é foda, irmão.
Foi pra não morrer de fome que cometi um crime: roubei o Guia Rex do meu próprio pai, olha que marginal, e passei a lê-lo como cartilha. Diferente dos mapas de turista, que só vão do Centro ao Leblon, os do Guia Rex tinham de tudo, até as ruas que não existiam (as “projetadas”, que ganham nomes provisórios como “Rua A” e “Avenida G” até serem batizadas com o nome de um político ladrão ou general assassino – todos, ainda bem, já mortos).
Mais que uma relação utilitária, passei a ter com o mapa do Rio uma espécie de fetiche verbal e visual. A cidade que se gravou na minha cabeça era o contorno das fronteiras cartográficas entre os bairros, o sentido oculto de seus nomes, as artérias e veias das ruas e avenidas que percorriam seus acidentes geográficos.
Nessa época eu morava em Jacarepaguá, e costuma-se dizer que Jacarepaguá (ou “Jacarepralá”) é o ponto mais distante de qualquer ponto, de maneira que pra existir enquanto carioca (e eu nunca gostei da idéia de viver confinado no meu bairro) foi preciso reunir horas e horas de cara na janela do ônibus e sapato no chão.
Mais tarde, que ironia (e durante quase cinco tenebrosos anos da minha vida), eu trabalhei como vendedor para umas fábricas de saco plástico e de lixo. Sem carro, só na base da condução, irmão.
Meu dia era sair de casa com uma pastinha embaixo do braço e rodar a cidade toda, de uma ponta à outra, às vezes. Pra me organizar foi preciso que eu decorasse o velho mapa, com suas linhas de ônibus, suas rotas de fuga e passagens subterrâneas.
Tatuei o mapa na retina, como diz o verso de uma música que eu acho que já ouvi, que eu acho que é um samba, e se eu estiver achando errado não tem problema: o verso tá feito agora.
No ano passado, conheci uma paulistana que me pediu ajuda pra entender minha cidade. Segundo a lógica de que toda cidade é uma língua, por algumas horas virei professor desse idioma chamado Rio de Janeiro.
Mas como uma língua só se aprende na base da humilhação e do erro, como diz uma amiga querida, dei à paulistana uns dois ou três verbos, uma dúzia de bons substantivos, uma interjeição pra casos de emergência e orgasmo (uma só pros dois casos) e mandei que comprasse um mapa, numas de “Ó só, mina: isso aqui é a guerra, tá ligada?”:

Irmã, compre um mapa (2005)

Vê essa cidade, como corre
pro sumidouro
de suas pedras e águas e curvas?

Parece a palavra que dizemos no vento,
sob a chuva,
a frase picada do cartaz mal lido.

É bem do Rio esse capricho de esconder-se.

Às vezes penso que o tenho nos braços,
entre as mãos, preso nos dedos,
mas não é minha nem de ninguém essa cidade.

O farol está lá pra que a cidade não fuja
na madrugada, em silêncio
tropeçando em si mesma
nas suas zonas
de gueto em gueto
no escuro em que vai se trancando a cadeado
codificada e sem chave –
até que vire um ruído no quarto ao lado,
mas nunca palavra
palavra inteira
de dicionário
(dessas que eu digo).

Te explicaria essa cidade se eu pudesse,
mas agora só sei falar de boatos
e a cartografia sai assim, capenga e insegura,
feita à lápis
de turista cego
que ignora a língua.

Te explicaria essa cidade se eu soubesse,
mas tudo que posso fazer é repeti-la
e esperar que do eco
infinitamente rebatido
tudo se agrupe de novo
de norte a sul
de leste a oeste
e ela possa nos fazer algum sentido.

É isso, irmão: nasci mais ou menos desse parto.

2 Comments so far

  1. letícia (unregistered) on June 30th, 2006 @ 10:57 pm

    bonito, irmão.


  2. Marcelo (unregistered) on June 30th, 2006 @ 11:55 pm

    Acho que o Guia Rex ta merecendo esse prefácio…



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