Peixe Grande no Rio de Janeth

Em agosto de 2005 eu tive uma visão.

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Semana reretrasada eu saí do trabalho mais cedo e fui com um amigo ao MAM para ver os aviões decolarem. Não era simplesmente chegar até a área limite da INFRAERO e ficar em pé atrás da cancela com o pescoço pro alto. A nossa caipirice constituía-se de entrar naquela mata média e sentar numa das pedras da baía, lá embaixo, no limite do barranco, onde só ficam os pescadores de lixo e as cobras. E é sabido que ali não tem peixe. Tênis, latinha, saco plástico. Tudo isso tem, mas peixe só tem na cabeça do pescador. Se bem que nem pescador tem, porque é uma área de risco. Tem malucos improváveis.

Chegamos, sentamos na pedra que mais confortasse a bunda e ficamos conversando horas até que o primeiro avião vem correndo a pista. E vem o primeiro avião correndo na pista e mais uns poucos passos ele decola ou ele cai na Baía de Guanabara. FFFVVVVVVUUUUM. Um dos barulhos mais emocionantes que eu já senti na pele. Uma pressão na nuca, o cabelo voa num sentido inexplicável, a força de cima rodamói os cabelos, eles se perdem na cabeça. Não tem Fórmula 1 que se compare. E nós ali embaixo, vendo as calcinhas dos aviões. Eles começaram a se multiplicar e pareciam nos levar pralgum outro lugar que não tínhamos como saber. Eu me senti tão pequena, eu não sou mais leve que o ar.

Bom, ele nunca tinha feito isso na vida, nem eu. É o tipo de coisa que eu vou contar pros meus filhos, porque não permitirei que eles morram sem sentir os aviões na nuca em uma tarde fresca do Rio de Janeiro. E chegamos à conclusão de que não é qualquer um que pode ser levado para sentir os aviões. É um programa COM PROPOSTA, que exige fantasia e a euforia das coisas simples. Se você gosta de montanha-russa, os aviões não terão graça alguma. Mas se você gosta de coisas que realmente tenham graça, vá sentir os aviões. Mas vá sentir os aviões com pessoas que entendam o seu lado Tim Burton. Caso contrário, vá sozinho.

A essa altura do texto a minha visão não tem mais a menor importância, mas vou contá-la porque afinal de contas eu vim aqui pra fazer isso. A minha visão é simples, qualquer câmera filmaria e é o Rio de Janeiro enchendo. Não sei se alguém já pensou isso, mas eu pensei naquele dia pela primeira vez e pra mim é novidade. Portanto: Rio de Janeiro enchendo. É, só sobraria o Cristo Redentor lá em cima e mais nada aparecendo. A cidade submersa. Porra, o Chico Buarque pensou nisso. Mas não com os meus detalhes. No meu Rio de Janeiro enchendo, o Cristo teria a água batendo pelo queixo, marcando o nível do mar e outros diferenciais. Observe.

Não pense em Atlantis que pode estragar a minha história. Mas é que você olhando o balneário de cima fica fácil imaginar a poça que poderia se tornar. Uma banheirona, mesmo. Sumiria tudo, exceto o Cristo. Os prédios mais altos, o aterro, as catedrais. Cartografe seu cérebro e pense na região entre o Centro e a Zona Sul, faz uma poça. É claro que o estado todo não daria, até porque o oceano só banha o canto direito. Trata-se do OVO que vai do Aeroporto até Botafogo. Depois é orla, e a orla é mais legal deixar intacta. Do Rio Sul pra lá é praia. Do Leme ao final do Leblon, um belo tapete. E só pára no Pontal. Chega a brilhar. Na minha cabeça, nenhum carro, o Rio desbrava-se de bicicleta.

E então recapitulemos o Cristo Redentor como a cereja do bolo, com os braços pro alto e os pés de molho. Embora ele não tenha cutículas, ele tem calos, e uma estátua que se preza precisa cuidar dos pés, afinal de contas, são anos em pé sem sentar. Dá varize. Cansa qualquer modelo vivo ou morto. O Cristo, no fundo, é um guarda. E o guarda com os dois braços abertos e com dois silvos longos de apito, ele pára os dois sentidos do trânsito. Se não me falha a auto-escola, ele, literalmente pára o trânsito. É, o Cristo Redentor é um PULIÇA. Um guarda de trânsito. E de seu queixo pra baixo, o aquário. Já pensou? Só os peixes sobreviveriam.

3 Comments so far

  1. letícia (unregistered) on July 8th, 2006 @ 2:37 pm

    que texto bonito, bruna.

    e eu já fui ver os aviões indo embora com umas amigas tim burtianas, algumas vezes. é mais lindo ainda no entardecer.


  2. Nuno Virgílio (unregistered) on July 8th, 2006 @ 5:04 pm

    Sensacional…

    Já pensei no Godzilla invadindo o Rio, via Baía de Guanabara, e aí, tia, o Cristo Redentor começaria a se mexer, desceria o Corcovado e SOC! PLOW! PAF! salvaria o balneário como bom protetor que é.


  3. Diogo Sinhoroto (unregistered) on July 8th, 2006 @ 10:35 pm

    Ha!!! eu nunca fui! que fueda… quero ver calcinha de avião!! Vou em breve. Acho que amanhã.
    que legal.



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