Safari

Morei em Copacabana por mais de 10 anos. Sempre gostei muito do bairro, mas uma coisa que logo me agradou foi a profusão de cinemas. Morava ali na Tonelero, atrás (ou à frente) do Bairro Peixoto, e estava cercado das grandes telas.

Tinha uma a uns 50 passos de casa, na esquina da Figueiredo com a Barata Ribeiro. Grande, imponente – Condor Copacabana, se não me engano. Descendo mais um pouco e para a direita, estava o Copacabana, na Nossa Senhora. Grandão também, mas tinha sofria com um problema crônico de som. Dando a volta no quarteirão, também na Barata, havia outro, menor e charmoso.

Todos acabaram. Deram espaço a uma loja de departamentos, academia de ginástica, sapataria e até a uma loja de discos. Por sorte não há uma igreja evangélica na lista, já que elas fizeram a rapa em cinemas cariocas nos últimos anos.

Meu xodó, Novo Jóia, parece persistir na Nossa Senhora de Copacabana. Ali assisti filmes “de arte” e os arrasa-quarteirão que já estavam quase saindo de cartaz e que caíam na salinha. Sim, ela era bem pequena e tinha a impressão que o mesmo senhor da bilheteria era o pipoqueiro e também o projetista. A tela e as cópias não eram das melhores e ouvia-se a descarga do banheiro de dentro da sala. Mas era o cinema que eu frequentava de chinelo, com a primeira roupa que caçava no armário depois de perceber, cinco minutos antes, que estava com vontade de ir ao cinema.

Ontem deu vontade e como a maioria dos cariocas encarei um shopping. A bola da vez foi o UCI e o New York City Center – reparem na ausência do português no título. Fica na Barra da Tijuca, que tem uma relação problemática com a língua no geral.

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Encarar é o verbo certo para definir a missão de assistir a um filme na telona hoje em dia. Os 40 km que separam o UCI da minha casa são vencidos em meia hora se o trânsito estiver bom, mas posso gastar o mesmo tempo para arrumar uma vaga e outros longos minutos para comprar o ingresso.

A fila para entrar na sala é um capítulo à parte. Gosto de filas – de observá-las, não de estar nelas – e percebo que as pessoas entram cada vez mais cedo na do cinema. Se fosse pré-estréia de Código da Vinci, eu até entenderia, mas o filme já está quase saindo de cartaz…

Os cinemas de shopping são bacanas sim. A tela é grande, o som vem até do chão e as poltronas são quase sempre confortáveis. Mas fazem do ato de ir ao cinema um safari, que quase sempre termina com um bando de leões esfomeados e o tanque da Land Rover vazio.

Alguns cinemas de rua resistem. O Roxy, o São Luiz, o Odeon e poucos outros. Sobrevivem ao investir em filmes diferentes ou instalações bacanas para atrair quem pensa duas vezes antes de estacionar o carro na rua, atravessar o sinal de noite e caminhar entre pedintes e pipoqueiros sem carteira assinada.

Mas sempre que vejo mais um dos cinemas de rua se travestir, penso se há alguma relação com outros “fins” – o boteco que vira franquia, a praça pública que vira Downtown.

3 Comments so far

  1. Leo Lichote (unregistered) on July 9th, 2006 @ 11:11 pm

    A merda é que as franquias, os cinemas do shopping, vieram para ficar. A boa notícia é que a padronização nunca consegue formar padrões perfeitos. Um shopping da ZN não é igual a um shopping da ZS. Um bar de franquia tem sempre diferença entre uma filial é outra. Os cinemas de shopping, idem.

    É aí, nessa diferença, o nosso espaço de resistência.

    Por um lado, é uma visão otimista e talvez ingênua. Por outro, é essa visão que impede a gente de achar que a merda tá feita e não há nada a fazer a não ser sentar no velho bar e resmungar.


  2. LP (unregistered) on July 10th, 2006 @ 2:02 am

    Nem dá mais direito pra resmungar no velho bar já que agora deu pra esses bares se multiplicarem em série, tipo 128 Belmontes, 47 Conversas Fiadas e 216 Informais…


  3. Ines (unregistered) on July 10th, 2006 @ 9:21 pm

    Pô, Marcelo, sem falar no fim dos cinemas de rua, vc tocou num ponto muito interessante: esta história de fila antecipada no cinema me intriga há muitos anos… a burrice dos seres humanos me assusta.



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