A Turma do Baixo-Orelhão

ou Todo suburbano é peculiar

Descobri mais uma máfia, a máfia da Concha Azul. Ter que recorrer a um telefone público talvez não seja prática comum entre os leitores deste blog, mas saibam vocês que pessoas e muitas FREQÜENTAM orelhões do centro do Rio de Janeiro à noite. Eu poderia relatar a vizinhança de Sanja (São João de Meriti), que se encaixa animada nos telefones de rua assim que a Telemar os brinda com mais um exemplar blue de seus domínios. E o normal é usar pra passar trote, expressar-se artisticamente (pichar), mandar recados como “Kelly, eu ti amu”, marcar território C.V na chapa, ou até realizar ligações internacionais, nos casos mais sérios de um desgarrado que tenha escapado da vida pacata pra lavar prato em Miami. Tinha um vizinho meu, ex-técnico da extinta Telerj, que era o rei dos macetes de orelhão. Ele descobria códigos e reprogramava chamadas na calada da noite. Chegou a conseguir fazer com que o telefone funcionasse normalmente o dia todo a noite toda a vida toda a 1 impulso pra celular, localidades próximas ou até pra Chechênia se fosse necessário. E o caos foi que pessoas de outros bairros vinham fazer chamadas no que ficou conhecido como O Telefone do Engenheiro. Filas enormes, por pouco eu via alguém chegar vendendo doce, como porta de cinema. O que era uma atração pra pessoas que no máximo assistiam a passagem dos carros no portão. O “Engenheiro” foi descoberto, obviamente, porque sempre têm um filho da puta pra cumprir as leis, e só não está preso até hoje, porque os técnicos da Baixada Fluminense faziam o mesmo nos seus respectivos bairros para puro deleite da comunidade. Sempre achei brilhante esse roubo, até porque nessa época pouquíssimas pessoas tinham telefone em casa. Graham Bell faria Supletivo com o Engenheiro, tenho certeza.

Então podemos concluir que a Máfia da Concha Azul tem uma subsecretaria, que inclui as pessoas que utilizam os telefones públicos à noite no centro do Rrio de Janeiro que mencionei inicialmente e das quais falarei agora. É claro que a subscretaria não tem acesso aos grandes cambalachos da gerência (onde o meu vizinho e amigos se incluem), e sequer tem notícias dos avanços da arte da discagem direta 0800 totalmente free, ela somente USA e ABUSA dos serviços como se ali fosse confortavelmente uma extensão da sua mesinha de cabeceira. Eles tomam nota e notícia da saúde de todos os familiares espalhados pelo Brasil afora. Eu já presenciei três casos, mas o de hoje foi o mais interessante. Os dois casos anteriores eram Um ambulante que obviamente saía do “expediente”, e resolveu parar pra bater uma linha pruns parentes. Ele estacionou seu isopor conversível com rodinhas e faróis de guaravita entre as pernas e sacou uma agenda que era mezzo carteira de trabalho (não me pergunte pra quê) e mezzo agenda de telefones. Dali vi pular cobras e lagartos entre os garranchos que escorriam entre uma Maria e um Jaci. Ele abriu na página procurada, tascou o dedão na botonagem com tanta força que eu podia imaginar que as pontas daquele dedo doíam e BERROU a Mariazinha, como tão as coisa por aí? E antes que ela respondesse a pergunta que aquela altura também era minha, o ônibus chegou, deixando-me retornar sem saber novas de Mariazinha, como tem passado e seus perrengues mais tristes. Afeiçoei-me.

Caso dois uma senhora dessas que parecem que são servidoras dos pombos. Sabe aquelas velhas extremamente agasalhadas, com pencas de bolsas, sujas e extremamente maquiadas? Essas mesmas, de olhar mórbido e uma vida que você imagina bem triste e abandonada num cortiço da Glória com muitas plantas mortas em latas de óleo, cachorros e uma cama forrada e macia do mais recente jornal da cidade. Senhoras que eu sempre suponho viúvas ou solteironas, mas nunca com filhos, que quando resolvem te encarar empurram pra dentro de você um olhar de madastra querendo saber que cagada você acabou de fazer ou simplesmente jogam um sorriso de maluca deslumbrada que você se vê obrigado a rir também da alegria secreta que você tem certeza absoluta que nem ela sente, foi só uma piscadela da insanidade. Afinal, As Servidoras dos Pombos da Glória também socializam, e essa falava, sei lá, com a Família Adams. Eu não entendia absolutamente nada do que ela falava, porque ela se comprimia na sombra estranha e curta que só um orelhão pode oferecer e eu só conseguia perceber os finais de frase, rosnadas emocionadas. A essa altura, eu já estava na fila de um orelhão na metade da Rio Branco às 10 da noite só pra saber se o Tio Chico tava bem ou se a Mortiça havia se recuperado da gripe. A loucura, no final, era só minha.

Até que hoje o insuperável caso três: uma nordestina e duas netas…

Perfil: nordestina sessentona, bastante arrumada, saia estampada roçando nos joelhos, sapato de senhora, coque, rouge carregado, brincos enormes, blusa listrada e uma bolsa marrom que eu até curti. Penduradas nela dois monstros horríveis, uma atendia por Paulinha e a outra por Jéssica, a menor. Paulinha beirava seus 11 e obviamente começava a se sentir adulta, nada mais natural que ela não só fosse a ajudante oficial da avó mas como tivesse a responsabilidade de ser a guardiã da Jéssica. Paulinha já trajava roupas de mocinha, sandália alta, blusa decotadinha, bolsa de vinil a tiracolo, cabelos presos, batom e muita vontade de ajudar. O estilo neta secretária, que além de muito prestativa, é também eficiente, aquele tipo detestável de primo que alguém pode ter. A concorrência dentro de uma família fica pesada quando você é um neto que pasma, se diverte sozinho, não ajuda seus avós e tampouco participa das interessantíssimas atividades que um aposentado possa ter. O neto distraído, que não sabe que os telefones da avó estão na agenda azul na terceira gaveta da estante da sala. Esse mesmo neto é o que também nem sonha onde a avó guarda as economias, já o neto secretária se aproveita de tanta confiança depositada e não só sabe dos esconderijos como bebe do que aquela fonte possa oferecer em níqueis ou notas.

Esse neto que sai na desvantagem em partes era eu, e no todo, a Jéssica, a neta alheia. Também pode ser porque Jéssica era mais novinha, fui notar depois no máximo três, e curiosamente era conduzida dentro de um carrinho de bebê. É uma visão chocante você notar uma criança que até então você julgava bebê, se levantar do carrinho. Assim como um aleijado sair da cadeira de rodas pra abrir a porta pra você. E a espertinha saía e voltava do carrinho como se tivesse aprendido isso ontem. Nas vezes que levantava, fazia uma coreografia de uma música que ela cantava em silêncio, caras e bocas, erotismo, o protótipo da go-go girl. Depois se jogava no carrinho, a meu ver para descansar, e jogava os bracinhos pra trás em posição de boa vida. Isso se repetiu umas três vezes com coreografias diferentes, até que eu passei a achar comum aquela insana ali na minha frente que tanto me assustou com sua brincadeira de to morta to viva enquanto meu atrasado nada de chegar e a senhora na linha já estava na quarta ligação.

A avó não berrava, ela esbravejava. Eu tinha a impressão que aquela mulher se achava num palanque ou num louvor a Jesus Cristo. Estávamos em plena Carioca, não, o meu encontro não era com um michê, e uma mulher maluca enraizada fazendo chamada até pro além. Paulinha, ereta, sustentava a enorme agenda azul da avó estrategicamente na altura dos dedos pra que ela pudesse apenas respirar e não perder tempo entre um Como vai Zefinha? e um Dá um abraço na Zuleika. Ela queria saber Como vai a mãe? E as criança? E o Pai, recuperado? E enquanto ela se ocupava da vida de um casebre no furúnculo do mundo, Paulinha se ocupava da desobediência de Jéssica, eu me ocupava do meu relógio e da vida delas e alguém provavelmente se ocupava de nós. A vó batia o fone no gancho e passava as informações pra Jéssica, que acreditem, ainda ouvia atenta, porque agora já estamos na sexta ligação. Elas tinham por hábito fazer esse “programa”, acredito eu. Notava-se na cara daquelas crianças que falar ao telefone ainda era um acontecimento, e dos mais animados. Paulinha finalizava o terceiro show pra mim que fingia que não via, Jéssica, meu deus, ainda não havia mudado de posição. Lamentei pelo seu salto e pelo seu futuro problema de coluna, mas em cima dos meus tênis velhos e do meu compromisso ralo abaixo eu me divertia como nunca.

Pléque. “Chega, vamosimbora”. Paulinha sorriu aliviada, mas não menos empolgada em ajudar se ainda fosse preciso. Jéssica empurrou seu corpo mais uma vez sobre o carrinho e numa outra posição que também significa de bem com a vida, ou “de boresta”, como dizia meu avô, esperou pela resolução da mais velha. Ela queria saber qualé, assim como eu. A avó puxou de dentro da bolsa marrom que eu curti um saco de dentro de outro saco de dentro de outro saco de dentro de outro saco e dentro dele umas balas de leite. “Uma para cada uma. Chega.” Jéssica entristeceu o sorriso maroto de bailarina de puteiro e Paulinha, a PÉLA-SACA, agradeceu tão agradecida que eu perguntei pras minhas dúvidas de onde aquela criatura tinha aprendido tão bem as regras da humildade. O rumo dali não sei, mas passaram por mim assuntando. Paulinha empurrando Jéssica (porque a avó, pude ver, mancava, e atrás dos óculos engarrafados, orientava um olho pra cada hemisfério, vesga de dar tontura) numa terceira posição que indica de bem com a passarela. A menor só faltava acenar pros transeuntes, tão eufórica era sua satisfação em estar ali, passeando pelo centro sem fazer nenhum esforço. Ela de voyer da multidão sem entender nada e achando tudo grande demais, sendo empurrada pra dentro da gosmenta massa humana que com um bico a cuspiria longe. Concordei com a máxima de como as crianças são felizes e não sabem. Jéssica sabia andar, mas preferia ser conduzida, e eu não sei em que campo isso pode refletir amanhã, mas fingi mais uma vez que não via, já tinha feito julgamentos demais.

10 Comments so far

  1. Nuno Virgílio (unregistered) on July 20th, 2006 @ 1:13 pm

    Cacete… SENSACIONAL ESTE POST.


  2. Leo Lichote (unregistered) on July 20th, 2006 @ 1:49 pm

    “O nome dela é Jéssica”, ouvi o Bebeto cantar no Jô anteontem.

    Mas queria falar de orelhão. Me lembro da sensação maravilhosa de descobrir um desses orelhões “diretos” – era assim que a gente chamava os teefones com gambiarra, que não precisavam de ficha. Segredo divulgado para poucos, para evitar filas grandes demais. Prazer da coisa errada. Vingança contra os filhos da puta da Telerj. Autocelebração “sou malandro”.

    Orelhão direto é coisa nossa. Patrimônio carioca, como a janela de ônibus do post do Nuno.


  3. Marcelo (unregistered) on July 20th, 2006 @ 2:17 pm

    … e talvez o telefone, público, fixo e celular, seria mais barato se mais filhos da puta cumprissem a lei…


  4. Nuno Virgílio (unregistered) on July 20th, 2006 @ 2:30 pm

    Hahahaha… É isso aí, Lichote: orelhão direto é coisa nossa!

    Na minha tenra infância, quando os orelhões ainda funcionavam com fichas (lembram?) rolava um papo de que se você mijasse na ficha o tempo das ligações era estendido.

    A explicação que me deram na época: a urina (condutora de energia elétrica) reproduzia o contato originalmente feito pela ficha, prolongando-o, e assim o usuário conseguia vários pulsos.

    Não sei se qualquer urina, ou só de cachaceiro.

    Não sei se cagando na ficha rolava um DDI.

    Não sei. Tem alguém aí do Cefet que possa dar mais esclarecimentos?


  5. Leo Lichote (unregistered) on July 20th, 2006 @ 2:38 pm

    Conheço vários mitos para ligar de graça (alguns já da fase do cartão). Mas o mito-mijo pra mim é novo!!!! A sofisticação da explicação científica é o fino!!!

    Ah, a sabedoria popular… Pedão pelo ufanismo, mas ninguém fala merda com tanta poesia como o povo brasileiro.


  6. letícia (unregistered) on July 20th, 2006 @ 2:45 pm

    bruna, bruna, muito bom.


  7. LP (unregistered) on July 20th, 2006 @ 6:09 pm

    ah, moleeeeque! cara, o causo três é algo!!! dava um curta metragem. só não sei onde encontrar atores adequados… a jéssica poderia ser interpretada por um daqueles anões de circo. a paulinha pela regina duarte e a avó nordestina eu não sei. quem faria a avó nordestina?


  8. (unregistered) on July 20th, 2006 @ 8:08 pm

    O Ariano Suassuna.


  9. (unregistered) on July 21st, 2006 @ 11:43 am

    A cara do Rio e do carioca: quem cumpre lei é o filho da puta. O roubo que favorece o cidadão é o roubo brilhante.


  10. Isis (unregistered) on August 1st, 2006 @ 11:28 pm

    REalmente muito bom! Adorei! Parabéns!



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