La Belle de Nuit

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Essa vida é uma pândega e assim como no futebol, também é uma caixinha de surpresas. Há algum tempo atrás tive um encontro um tanto surpreendente e elucidativo. Não que o fato em si tenha sido lá qualquer coisa de mais nessa vida em que nada mais nos surpreende, mas vivê-lo, sem dúvida, foi. Era um daqueles dias em que baixa em mim um certo espírito de Indiana Jones, não sei porque, mas o caso é que saí por aí, iniciando um solitário périplo etílico, que começou no Boteco Taco no Humaitá, seguiu para o Caroline no Jardim Botânico, de lá foi para o Jobi, no Leblon, e acabou por desaguar finalmente num daqueles botecos da Prado Junior, no Leme. Não me entendam mal. Às vezes eu vou pra lá por puro e ingênuo voyeurismo artístico. Ademais minha analista uma vez aplacou minha culpa, afirmando que sou artista e por isso preciso olhar para o feminino. Assim sendo sigo seus conselhos e sempre que posso olho para o feminino. Aquele frenesi das meninas nas ruas de Copacabana realmente faz muito bem ao meu espírito meio irrequieto e de vez em quando dou as caras por lá a fim de sossegar o facho. Não que vez por outra, em um passado mais distante, o benefício tenha se restringido apenas ao prazer do espírito, mas essa noite eu só queria era espairecer mesmo. Bom, acontece que eu estava sentado em um daqueles botecos, próximos aos inferninhos, calmamente bebendo o vigésimo sétimo chope, e eis que adentra ao recinto uma linda menina, elegantemente vestida de preto, cabelos ruivos batendo nos ombros, pele muito clara e sardenta, de rosto redondo angelical, olhos negros, aparentando aí uns vinte anos, talvez. Ela era muito bonita e interessante mesmo. Pois bem, a moça dá uma olhada geral no ambiente, caminha em direção à minha mesa, me diz oi e pergunta suavemente se eu não gostaria de lhe pagar um drink. Claro, como sou cavalheiro, concordei, e então fiquei sabendo que ela se chamava Andréa, tinha 21 anos, era gaúcha e estava completando o segundo ano do curso de psicologia da PUC. Segundo ano da PUC. A princípio pensei que fosse aquela velha cascata, já entendi, fazendo um tipo de acordo com o freguês. Mas então ela me disse que era de “ascendência ítalo-germânica” usando estas exatas palavras e logo apresentou seu breve currículo familiar. Isto esclarecido passou a discorrer sobre o futuro incerto do governo do PT, pois ela sempre fora petista e, como tal, estava preocupada com os rumos da política brasileira, bem como se afligia com a situação caótica no oriente médio, um absurdo! Quando me disse que estava lendo Deleuze e Foucault, fiquei com vontade de casar com ela ali na hora, sobretudo quando soube que estava comprando um belo apartamento em Ipanema, já que o de Copacabana era um pouco antigo e barulhento.

A conversa ia animada e eu cheguei a pensar em perguntar o que uma menina tão linda, culta e inteligente estava fazendo ali num buraco sujo como aquele, mas nem deu tempo, ela suspirou, repousou sua perna comprida na minha e me mostrou a sua nova tatuagem, um ursinho coala em estilo hiper-realista na panturrilha esquerda, feita em São Paulo, coisa de uns 2.000 reais a tatoo. Era uma belíssima tatuagem, vista assim daquele ângulo artístico e eu comentava qualquer bobagem sobre o desenho quando ela abrevia o papo, me olha nos olhos, sorri e pergunta se eu não estava a fim de ver sua outra tatuagem, em outro local mais aconchegante e apropriado, é claro, e que viria a ser uma pimentinha malagueta desenhada na virilha. Isto pela bagatela de 200 dólares, incluso nisto outros serviços, além da olhadela na pimenta, naturalmente. Como todos sabem muito bem a pimenta malagueta é rica em vitaminas, possui propriedades analgésicas, tem ação antioxidante, favorece a redução de coágulos no sangue, é vasodilatadora e estimula a produção de endorfina, de modo que a proposta dela era muito tentadora. Mas disse que não, obrigado, que não costumava andar com dólares na carteira, em função dos assaltos principalmente, e afinal, eu estava ali só de passagem mesmo. Deixei o dinheiro pra conta, dei-lhe um beijinho e me despedi com a certeza absoluta de que, se uma olhadinha na pimenta tá saindo à duzentas doletas, bem, nesse caso, ou a pimenta está muito cara ou eu estou precisando refazer rapidamente a tabela de preço dos meus trabalhos.

3 Comments so far

  1. Marcelo (unregistered) on July 20th, 2006 @ 10:13 pm

    F e l o m e n a l


  2. Cesar Cardoso (unregistered) on July 21st, 2006 @ 12:37 am

    Sensacional!


  3. letícia (unregistered) on July 21st, 2006 @ 1:44 am

    uh lá lá

    mas cá entre nós, todas elas tem 21 aninhos, até quanto têm 32.



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