Homenagem póstuma a um malandro carioca

Pauta: malandros cariocas ainda vivos. Hum. Para quando? Você tem uma semana. Mas procure um daqueles malandros mesmo, chapéu panamá, sapato bicolor. História de sambas, brigas, essas coisas. Vá lá nos morros, peça bênção, dê corda. E tome ruela, beco, quadra de escola de samba, sobe morro, desce morro, entra em vila, pergunta em boteco. Três dias de peregrinação. A senhora conhece? Conheço não. Só de nome. Sabe onde mora? Já ouvi falar? Procura por ali, ó! E o senhor, conhece? Ah, tenho disco e tudo. “Tire seu sorriso do camiiiiiinho…. ‘queu quero passar com minha dor…” E então? Se mudou ‘pra mais de ano. Mora onde agora? Sei não. Vê com aquela véia ali, ó. Mora na Mangueira desde quando a árvore era só semente. Ah, se mudou para Bonsucesso? Motorista, toca para Bonsucesso. E tinha muito mais naquela sala de apartamento em Bonsucesso – separadas do chão por 54 degraus e outras metáforas – do que coube entre os travessões do jornal. O malandro, um ano depois, cismou de morrer. E ainda bem que eu cismei de gravar…

(…)
A fala mansa é interrompida por longas pausas. O poeta traga seu cigarro, enquanto as histórias ganham tempo para decantar dentro de quem ouve.

– Agora eu tenho vida de malandro, acordo tarde e não faço mais nada – conta o compositor Guilherme de Brito, olhando o centro de Bonsucesso da janela do seu apartamento.

Certamente nenhum dos camelôs lá de baixo tem os seus discos para vender. E nem o reconheceriam. Guilherme não liga para a fama. Nem mesmo se importa de ter sido, durante muito tempo, conhecido apenas como o parceiro de Nelson Cavaquinho.

– Nas composições em parceria, ele fazia as músicas, mas era eu quem fazia as letras – revela.

Aos 83 anos, com um museu em Conservatória contando sua história e muitas homenagens recebidas, Guilherme contabiliza mais de 300 músicas inéditas e um sem-número de esculturas e quadros inacabados. Isso porque, além de compor, ainda pinta e faz esculturas, que já expôs até no Japão.

– Comecei ainda menino, desenhando com carvão nas calçadas de Vila Isabel. Gosto de pintar instrumentos musicais e fazer referências a São Francisco de Assis.

Em casa, a coleção de imagens do santo trazidas por amigos de vários lugares do mundo ultrapassam os limites da sala, invadem banheiros, cozinha, quarto e se encerrram num quartinho que dona Nena, a fiel companheira, reservou às obras de arte. A paixão pela música também começou cedo, ainda na infância.

– Tanto fiz que meus pais me deram um cavaquinho, aos 8 anos. Nunca tive quem me ensinasse. Ficava tentando, sozinho, e aprendi.

Aos 14 anos, Guilherme arrumou um emprego, mas continuou treinando o seu instrumento. A primeira composição nasceu com a primeira humilhação.

– Era muito pobre, não tinha roupa para trabalhar. Minha mãe arrumou uma camisa com um parente, uma calça com um primo. E os colegas no trabalho começaram a caçoar, me chamando de calça-balão, porque a calça ficava dançando no meu corpo. Mas do lamento fiz um samba, Calça Balão. É uma pena que não me lembre nem mesmo de um verso.

Neste momento, Dona Nena, mulher de Guilherme há 62 anos, interrompe para lembrar que também foi por falta de roupa que Noel Rosa compôs Com Que Roupa?, um dos seus clássicos.

– Dizem que ele não sabia que roupa vestir para ir ao samba enquanto seus amigos o apressavam. Então começou a cantarolar: “Com que roupa, com que roupa, eu vou…”

Era com o próprio Noel que Guilherme pegava carona para ir trabalhar, no mesmo emprego da “calça-balão” , nas Casas Edison, o único que teve em toda a vida. O ofício era curioso: mecânico de calculadora.

O compositor conta que a maior inspiração para seus versos passava longe dos números, apesar de ser também uma companheira constante: a tristeza.

– A tristeza toca mais as pessoas. A flor e o espinho eu compus em homenagem ao sorriso largo de uma atriz de teatro que estava sempre ali na Praça Tiradentes, onde ficávamos nós, pobres malandros. O verso “Tire seu sorriso do caminho / que eu quero passar com minha dor” foi para ela – relembra, esperando a desaprovação de Dona Nena.

A tristeza, herança da infância sofrida, faz o poeta chorar bastante até hoje.

– Pareço uma manteiga derretida. No dia em que o caminhão saiu de casa levando todas as minhas coisas para o museu em Conservatória, chorei como uma criança.

Para lá, foram originais de letras, o primeiro cachê que ganhou como músico, na Rádio Vera Cruz (“não tive coragem de gastar”), a primeira carta que recebeu de uma fã (“quis conhecê-la, mas era de Belo Horizonte”), o primeiro quadro, o primeiro cavaquinho, presente da mãe, e as inúmeras distinções recebidas como compositor e artista plástico. Até a calculadora mecânica usada no primeiro ofício lá repousa. Várias casas na cidade reproduzem trechos de canções suas em placas colocadas ao lado dos números, uma tradição local.

– Nasci em Vila Isabel, mas quero morrer em Conservatória, a capital mundial da seresta.

Da célebre parceria que o fez conhecido, com Nelson Cavaquinho, Guilherme lembra-se com saudade:

– Garça foi nossa primeira composição. Nos conhecemos num bar em Ramos. Eu me apaixonei por ele, e ele por mim, mas Nelson me exigia fidelidade. Eu gostaria muito de ter sido parceiro de Cartola em algumas canções, por exemplo. Mas ele podia, pulou várias vezes a cerca.Sem a fama do parceiro, o compositor garante não guardar ressentimentos.- Nunca deram o valor que o Guilherme merecia – queixa-se dona Nena.

Dessa vez, ela é quem recebe um olhar de reprovação. O marido lembra com ironia as dificuldades do início da carreira:

– Hoje, com um casal de filhos, cinco netos e dois bisnetos, não posso me queixar da vida, mas sofri muito no começo. Era corrido da Rádio Nacional, e hoje me convidam, fazem homenagens.

Quando dona Nena se afasta e ele levanta o braço para pedir um favor – “Faz um café pra gente?” – deixa mais um segredo escapar: uma tatuagem no antebraço esquerdo, um índio com cocar.

– Ah, minha filha, caí na asneira de fazer, lá no morro do Tuiuti. Tive que trabalhar e cantar a vida toda de manga comprida por causa do índio. Disseram para eu passar castanha de caju, mas não adiantou. Hoje eu acho graça – e vem, finalmente, uma gargalhada.

3 Comments so far

  1. Nuno Virgílio (unregistered) on July 23rd, 2006 @ 4:34 am

    Maravilhoso, Mariana.


  2. milla (unregistered) on July 25th, 2006 @ 3:52 pm

    Que máximo!

    Ai ai eu devia ter vivido nesse tempo….


  3. Leo Lichote (unregistered) on July 25th, 2006 @ 5:43 pm

    Não sabia dessa tatuagem. Vc sabe pq um índio?



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