Fim de semana eletrônico

Neste sábado fui ouvir o dj alemão Paul Van Dyk, do qual sou fã até hoje, numa grande noite eletrônica nas imediações do cais do porto. Já faz um tempo que a área tem sido utilizada para eventos culturais e sempre ouço que a região vai ser enfim revitalizada (hoje se encontra abandonada, sub-utilizada e perigosa), no entanto os anos passam e os bairros portuários continuam exatamente do mesmo jeito. O mestre alemão não tem conhecimento de todos estes detalhes – e nem é seu papel sabê-los – a única coisa que ele quer é um lugar minimamente bem estruturado onde seu público consiga, pelo menos durante algumas horas, escutar boa música e quem sabe graças a ela refletir um pouco sobre o que der na telha. Com sabores house, trance, algumas vezes soando pop e outras underground; Van Dyk fez uma apresentação impecável: duas horas e meia de puro deleite. Energia e otimismo em forma de música. A multidão, que de maneira geral não ter prestado muita atenção à música, divertia-se horrores: a playboyzada compunha pelo menos uns dois terços das 3.000 pessoas ali presentes, e aproveitava o momento para exibir os corpos cuidadosamente esculpidos nas academias, encher a cara com de tudo um pouco, e é claro, acasalar (ou ao menos tentar). (…) A juventude carioca não é muito diversa, as tribos urbanas não são tão numerosas assim.

Nas camadas mais pobres da juventude – tanto a classe média que vive nos subúrbios quanto os mais pobres que vivem nas favelas (que estão em toda a cidade) – cerca de 70% são funkeiros, e os 30% restantes fãs de samba, pagode e música brasileira pop e radiofônica em geral. O funk carioca é um estilo de música eletrônica nascido do miami bass e do freestyle norte-americano, com tempeiros africanos e alemães (kraftwerk e electro). Hoje o funk carioca já está bem distante de suas origens, tendo uma personalidade própria e original. Já na Zona Sul da cidade, berço da classe média e dos mais ricos, são os playboys que dominam, representando cerca de 80% da juventude mais abastada. No entanto ser playboy não é apenas uma questão de ter dinheiro, trata-se sobretudo de um estilo de vida: aspirar o “american way of life”, gostar apenas do que está na moda (a música aí incluída), morar com os pais (e depender deles) até os 30 anos (às vezes por toda a vida) e não ter qualquer consciência social ou política, apesar do estudo em caríssimos colégios particulares. Até aproximadamente 3 anos atrás, a moda entre os playboys eram as “micaretas”, carnavais fora de época ao som de axé e adjacências. Agora a moda entre eles é a música eletrônica, sobretudo o psytrance. Enquanto os fãs mais radicais de música eletrônica ficam putos por conta disso, eu aproveito o lado bom disso tudo: graças à atual conjuntura as grandes festas e os grandes festivais eletrônicos continuam sendo negócios rentáveis, e são graças a estes grandes eventos – muitas vezes patrocinados por grandes marcas que intencionam falar às multidões – que temos de tempos em tempos grandes nomes internacionais por aqui. (…) A esta altura você deve estar se perguntando sobre os outros 30%. Não me esqueci deles: skatistas, rockeiros, góticos, forrozeiros, hippies, sambistas e é claro, manos fãs de hip-hop, como em toda grande cidade.

3 Comments so far

  1. (unregistered) on July 25th, 2006 @ 9:23 pm

    Pois é, o Cais do Porto… Há muito tempo que se fala nessa revitalização do Centro. Eu mesmo batalhei pela realização de projetos ali. Hoje, não sei como andam as coisas. Provavelmente não andam. Não sei porque, mas é complicadíssima a realização de obras públicas no Rio, sobretudo as ligadas à cultura. Tem sempre um porém, tem sempre outras prioridades. Lá em São Paulo as coisas são um pouco diferentes. Mesmo divergindo, eles são capazes de unir esforços em torno do bem comum da cidade.
    Em relação aos playboys, acho que a questão é antiga. Remonta aos barões e ao espírito altaneiro dos ibéricos. Tem sempre um filho de coronel ou de alguém importante fazendo merda. Outro dia fui vítima do playboy fashion, nova modalidade. Gorro, piercing, tatto e… pego furando fila, justificou a esperteza dizendo que não era mauricinho. No passado os playboys eram chamados de bon vivants. E o mais famoso deles, o Jorginho Guinle, figura bizarra e ímpar, que se orgulhava de nunca ter trabalhado na vida. Agora eles estão mais americanizados, mesmo, e seguem o modelito USA. Mas tudo está assim, em geral.
    Mas que dava pra fazer alguma coisa muito bacana ali no Cais, ah, isso dava. :)


  2. letícia (unregistered) on July 26th, 2006 @ 12:11 am

    cid, depois te mostro um review q fiz sobre uma rave em búzios que fui cantar (faço vocal numa banda de música eletrônica).

    medo, medo, medo.

    cais do porto, eu nem me aproximo, mesmo se a atração me interessa. eu prezo muito pelo meu bem estar, e se já antecip mentalmente que o ambiente e as pessoas não vão me agradar, nem vou.


  3. Gleidson (unregistered) on July 26th, 2006 @ 10:37 am

    Cara! Nunca me atentei ao fato de Kraftwerk estar inserido nas entranhas do funk!
    Cara!!! Nunca tinha parado pra pensar nisso! Putz!



Terms of use | Privacy Policy | Content: Creative Commons | Site and Design © 2009 | Metroblogging ® and Metblogs ® are registered trademarks of Bode Media, Inc.