Salt America

Atenção, pilantragem. Tava me lembrando dum poema da Ledusha, poeta da década de 80, que eu adoro: “Felicidade”, de 1984. Aí peguei pra reler o que eu já quase guardo decorado e fiquei pensando numas referências que comecei a cruzar há uns meses atrás quando o li pela primeira vez. Diz assim:

Felicidade
Ledusha, 1984

Nada como namorar
um poeta marginal
incendiado
nada
como um mingau de maizena
empelotado
de tanto amor acumulado
uma casinha em Botafogo
um quarto uma eletrola
uma cartola

&

depois da praia sonhar
que a bossa nova voltou
pra ficar
eu você joão
girando na vitrola sem parar
.

Esse poema é foda, na minha opinião. Aí Rio de Janeiro, poesia marginal, Chacal, Glauco Mattoso, Ledusha, Reinaldo Moraes, Tanto Faz, Bossa Nova. Lembrei do Tom Jobim e do João Gilberto. E do Johny Alf. Rs. E do Caetano, que é fã do cara. Do João. Pois bem, lembrei de uma música dele que tá não sei em que álbum, mas que a Gal gravou no disco de 68. Chama-se “Saudosismo” e é linda:

Saudosismo
Caetano Veloso, 1986

Eu, você, nós dois
Já temos um passado, meu amor
Um violão guardado
Aquela flor
E outras mumunhas mais
Eu, você, João
Girando na vitrola sem parar

E o mundo dissonante que nós dois
Tentamos inventar tentamos inventar
Tentamos inventar tentamos

A felicidade a felicidade
A felicidade a felicidade

Eu, você, depois
Quarta-feira de cinzas no país
E as notas dissonantes se integraram
Ao som dos imbecis
Sim, você, nós dois
Já temos um passado, meu amor
A bossa, a fossa, a nossa grande dor
Como dois quadradões

Lobo, lobo bobo
Lobo, lobo bobo

Eu, você, João
Girando na vitrola sem parar
E eu fico comovido de lembrar
O tempo e o som
Ah! Como era bom
Mas chega de saudade
A realidade é que
Aprendemos com João
Pra sempre
A ser desafinados
Ser desafinados
Ser desafinados

Ser

Chega de saudade
Chega de saudade
Chega de saudade

Chega de saudade.

E aí caiu a ficha de que “Saudosismo” é, antes de qualquer coisa, uma chupação escancarada de “Fotografia”, do Tom. Perceba:

Fotografia
Antonio Carlos Jobim, 1959

Eu, você, nós dois
Aqui neste terraço à beira-mar
O sol já vai caindo
E o seu olhar
Parece acompanhar a cor do mar

Você tem que ir embora
A tarde cai
Em cores se desfaz
Escureceu
O sol caiu no mar
E a primeira luz lá embaixo se acendeu
Você e eu

Eu, você, nós dois
Sozinhos neste bar à meia-luz
E uma grande lua saiu do mar
Parece que este bar
Já vai fechar
E há sempre uma canção para contar
Aquela velha história de um desejo
Que todas as canções têm pra contar
E veio aquele beijo
Aquele beijo
Aquele beijo

Engraçado e não só, além da referência explícita, “Saudosismo” tem um caralhão de microreferências ao álbum “inaugural” da Bossa Nova, o “Chega de saudade”, de 58. Eu detectei três.

O Caetano é mesmo um doce vampiro:

1) a música, mermo:

Chega de Saudade
Tom Jobim e Vinícius de Moraes, 1958

Vai minha tristeza
E diz a ela
Que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece
Que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer
Chega de saudade
A realidade
É que sem ela não há paz
Não há beleza
É só tristeza
E a melancolia
Que não sai de mim
Não sai de mim, não sai

Mas se ela voltar, se ela voltar
Que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos
Que eu darei na sua boca

Dentro dos meus braços
Os abraços
Hão de ser milhões de abraços
Apertado assim
Colado assim
Calado assim
Abraços e beijinhos
E carinhos sem ter fim
Que é prá acabar com esse negócio
De viver longe de mim
Vamos deixar desse negócio
De você viver sem mim

2)A música “Desafinado”. “Aprendemos com João a ser desafinados” é uma referência, obviamente a “Desafinado”.

3) Lobo bobo é uma referência à música do lobo bobo. “Lobo bobo uiiiiiii”

E ainda tem maes, o trecho ” Eu, você, nós dois/ Já temos um passado, meu amor/ Um violão guardado/ Aquela flor/ E outras mumunhas mais” aparece em “You don’t know”, uma música do disco Transa, do Caetano. De 24 anos atrás.

You don’t know me
Caetano Veloso, 1972

You don’t know me
Bet you’ll never get to know me
You don’t know me at all
Feel so lonely
The world is spinning round slowly
There’s nothing you can show me
From behind the wall

“Nasci lá na Bahia
De mucama com feitor
O meu pai dormia em cama
Minha mãe no pisador”

“Laia ladaia sabadana Ave Maria
Laia ladaia sabadana Ave Maria”

“Eu agradeço ao povo brasileiro
Norte, Centro, Sul inteiro
Onde reinou o baião”

You don’t know me
Bet you’ll never get to know me
Eu, você, nós dois
Já temos um passado, meu amor

You don’t know me at all
Feel so lonely
Um violão guardado
Aquela flor
E outras mumunhas mais

The world is spinning round slowly
There’s nothing you can show me
From behind the wall
Show me
From behind the wall
Show me
From behind the wall
Show me
From behind the wall
Show me
From behind the wall.

“Laia ladaia sabadana ave maria/ Laia ladaia sabadana ave maria” são versos da música “Reza”, do Edu Lobo com o Ruy Guerra.

E que tanta FELICIDADE é essa que aparece não só em uma das músicas que eu listei como dá título ao poema da Ledusha? Po, só pode ser “A Felicidade”, uma outra música foda do Tom e do Vinicius, de um ano depois do “Chega de Saudade”. O Tom Zé também já gravou no femomenau “Estudando o Samba”. Tocaí:

A felicidade
Antonio Carlos Jobim e
Vinicius de Moraes
1959

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor

A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
Pra tudo se acabar na quarta-feira

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar

A minha felicidade está sonhando
Nos olhos da minha namorada
É como esta noite
Passando, passando
Em busca da madrugada
Falem baixo, por favor
Prá que ela acorde alegre como o dia
Oferecendo beijos de amor

Tristeza não tem fim
Felicidade sim.

Ufa. Acho que eu não me esqueci de nada. Mas se você detectou que eu esqueci e tem mais algum dado a acrescentar no meu singelo exercício intertextual, favor chamar no bebernaodirija@gmail.com

2 Comments so far

  1. Lp (unregistered) on July 25th, 2006 @ 9:36 pm

    “Na natureza e na arte nada se cria, tudo se transforma e se copia.” Lavoisier, sampleado.


  2. letícia (unregistered) on July 26th, 2006 @ 12:00 am

    ótema, bruna.

    eu coração “you don’t know me”



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