Visita guiada

Conhecer o Rio por suas representações pode ser tão revelador quanto gastar sola de sapato, gasolina e RioCard zanzando por aí. Versos, fotos, livro, quadros, e até este blog podem valer por um bifinho (melhor, um cabritinho do Capela) quando se trata de entender que merda (com carinho, claro) é essa de Rio de Janeiro.

Duas expos que vi essa semana ajudam, meio de viés, a chegar lá. As duas estão no (na?) Caixa Cultural Rio, o centro cultural novo que abriu no Centro (Av. Almirante Barroso, 25).

Por ordem ascendente:

No térreo tem a “Fotografia brasileira contemporânea”. O título é um tanto auto-explicativo e não convém gastar preciosos bits de sua tela resumindo a expo. Quero falar das fotos que retratam o Rio. O saudoso Tivoli Park tá lá (foto de Cassio Vasconcelos), com um moleque, movimento circular dos brinquedos, balões pra cacete, numa imagem que sintetiza todas as memórias meio borradas que guardo do parque. As essência das antigas igrejas do Centro aparecem por completo na foto de Miguel Rio Branco – o cachorro na porta, o flanelinha extorquindo alguém que está indo para o casamento, a bela luz que vem de dentro da igreja.

O subúrbio aparece nos detalhes captados por Bruno Veiga. As bonitas imagens esbarram no clichê, que por sua vez esbarra na verdade. Vale, pois. Do outro lado da cidade, São Conrado é retratado com marzão e sem Rocinha – amplo cenário de sonho – por Orlando Brito. Já a Praia Vermelha de Pedro Vasquez tem nada de sonho, muito menos de pesadelo. Mais presa ao chão, enfim.

Uma das melhores do grupo das fotos “cariocas” é a de Mauro Nascimento, que mostra uma prostituta em Copa vista de dentro de um carro. Apoiada no veículo, ela chupa picolé. A imagem tem uma vulgaridade – entendam a palavra em todos os sentidos, mas sobretudo o de “normalidade” – que a torna absurdamente real.

E tem também o registro histórico de Evandro Teixeira mostrando a Candelária sendo tomada pela polícia e seus cavalos quando milhares de pessoas estavam reunidas na a missa de sétimo dia do estudante Edson Luis, um protesto mudo contra a ditadura. É o Rio grandioso, dos livros de história, que me interessa menos que o Rio pequeno, cotidiano, dos blogs. Mas é claro que a foto extrapola o puro registro documental e é interessante por sua composição perfeita. E por retratar a arquitetura maravilhosa da igreja.

No piso superior está em cartaz “Di Cavalcanti – um perfeito carioca”, com obras do homem em que fica mais claro seu interesse pelo Rio. Tem uma frase dele na narração do vídeo exibido lá: “Acho que minha obra pertence ao Rio de Janeiro. Só podia ter sido feita aqui”. É por aí.

Di me pega mais pelo geral (cenários, situações, tipos) que pelo particular (a humanidade de seus personagens). Ainda assim, não nego que a palavra “gênio” cai bem nele. Principalmente quando fica mais clara a ligação de sua arte com uma certa interpretação modernista do Brasil – olhar voltado para mestiçagens, cultura popular, vida cotidiana. As obras dos anos 50 são as que resolvem isso melhor.

Mas o Rio:

Ele aparece nas cenas do mangue (antiga zona de prostituição), carnaval (além dos bailes e festas, há dois cartazes elegantes paca que ele fez para enfeitar a cidade), rinha de galos (fantástica), gafieiras; no arabesco típico das grades cariocas; numa Paquetá paradisíaca e cotiana; no gasômetro (uma composição genial com aquela gogantesca e estranha intervenção urbana); no subúrbio cheio de verde e na favela romântica, cenários da primeira metade do século 20; no Pão de Açúcar ao fundo; no moleque, com uma expressão típica de moleque, uma boca meio torta que certamente você já viu nos melhores e nos piores moleques desta cidade; e nas mulheres tropicais, tristes e sensuais (o mamilo de Abigail se insinuando no decote é sensacional).

O Caixa Cultural Rio tá aberto de segunda a sexta, das 10h às 22h. Sábado, domingo e feriado, de 10h às 15h. É de graça. E se você for carioca ganha 50% de desconto.

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