Copacabana

O post do Virgílio me provocou à escrita…

Copacabana inteira é uma terra de ninguém. Quando você não se sente ameaçado pelos maus da fita – novos ou velhos – são os flanelinhas, ambulantes ou os pseudo-sambistas que achacam até conseguir os bons trocados no pandeirinho.

O carioca se acostumou com a convivêrncia folclórica com o pedinte, o gente boa que fala meia dúzia de gracinhas no sinal, mostra a foto da filha bebê que teima em não crescer e leva seu troco. Esqueceu-se que isso se chama roubo branco, e que só difere de outros pela violência empregada. Para quem quiser um curso rápido, arrume um carro e encare a Princesa Isabel – em Copacabana – na hora do rush.

Copacabana é o retrato do Brasil. Mendigo e ex-presidente, a alguns metros e muitos reais de distância, convivendo em momentos de choque. É o bairro onde a cidade partida está mais próxima e emblemático por ser tão conhecido lá fora e ainda indispensável ao turista. É o bairro que teria tudo para ser a principal atração da cidade, com diversão de dia e de noite, sem ter que encarar pelotões de travestis, putas, ladrões, flanelinhas e extorsões de capoeiristas.

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Aqui vale um adendo. ADORO a minha cidade. Adoro o caldeirão que é Copacabana. Mas há uma fronteira bem clara entre a bagunça e a alma de uma cidade. Paris, Amsterdam e outras têm suas zonas de prostituição e espertamente fizeram delas atrações turísticas. Nova York, Berlim e outras têm seus artistas de rua, que também se transformam em ícones da cidade. Agora, é no mínimo estranho sentar num bar na orla de Copacabana e não conseguir ver o mar, pela necessidade de um muro de plantas para separar o cliente do resto do mundo.

Como em quase tudo no Brasil, não vale a pena lutar para melhorar algo que já está funcionando. Para que colocar mais 2 milhões de turistas por ano em Copa se os 500 mil já chegam e esgotam os hotéis? Para que transformar o perfíl do bairro se os turistas que chegam querem sacanagem, cocaína e uma ninfetinha de 12 anos de vez em quando? Para que religar as câmeras da polícia – que um dia foram alardeadas como a solução para a violência – se agora elas cobrem uma área muito extensa? Para que aumentar o policiamento, se a PM diz que a violência na praia é uma questão social? Para que cuidar do social, se os órgãos competentes falam que a culpa é da droga e dos bandidos já formados que adestram os outros e que têm que ser presos.

O empurra-empurra continua, entrecortado por uns golpes de facão.

4 Comments so far

  1. Nuno Virgílio (unregistered) on August 15th, 2006 @ 2:59 pm

    Todos os dias eu mudo minhas teorias pra tentar explicar o mundo e o caos da vida e os etcéteras, mas sempre que me volto ao caos brasileiro, em algum momento esbarro com uma série dessas questões que você levantou no teu post, Marcelo.

    Outra teoria pessoal que me inferniza é a de achar que o Brasil e nós, brasileiros, temos uma inesgotável tendência para o amadorismo – e que no nosso caso isso é um enorme problema.

    Tudo aqui é amador, da administração pública à produção cultural (ou uma grande parte dela), da atividade dos nossos políticos ao nosso futebol, do cara que pede esmola “mas que poderia estar assaltando” ao playboy faixa-preta de caratê que chega à presidência jurando prender todos os marajás. Todos justificados por nosso amadorismo.

    E quando a coisa aperta e entra em cena a necessidade de valores mais “germânicos”, digamos assim – como pontualidade, capricho e legalidade, ou seja: profissionalismo, assim num sentido bem amplo – a gente apela e solta na mesa a cartada do “jeitinho brasileiro”, a oficialização do nosso amadorismo que nos abençoa e perdoa nossos pecadilhos.

    E como o pacto com essa bagunça, com as nossas injustiças, desmandos e com a nossa miséria parece ser o norte magnético do nosso bizarro Projeto Nacional (risos), eu cada vez mais me desiludo com as alternativas de saída coletiva que nos são oferecidas, como a política de P minúsculo (a da urna e da democracia) e me agarro num Política Pessoal de dois Pês maiúsculos: a de tentar ser individualmente o que não estamos conseguindo ser coletivamente.

    Até prova em contrário, serei a Polyana da minha revolução pessoal – e acho que é de revoluções assim que a gente vai empurrando essa montanha pra frente, nem que seja aos milímetros.


  2. maíra (unregistered) on August 15th, 2006 @ 3:24 pm

    ferpeito, perfeito, prefeito. marcelo e nuno já.

    gente, eu ia escrever sobre copacabana. pensei num post com esse mesmo título, essezinho mesmo. é a segunda vez que isso me acontece no metblog. rs sinergia astral ou 80% desse sítio realmente mora em copabacana??

    salves de suíte presidencial.


  3. Marcelo (unregistered) on August 15th, 2006 @ 3:43 pm

    Virgílio,

    pode ter certeza 180 milhões de revoluções pessoais mudam muita coisa…


  4. Cid Andrade (unregistered) on August 16th, 2006 @ 1:54 pm

    Discordo sobre a tendência para o amadorismo.

    Acho que a tendência é para a preguiça, a hipocrisia e o trabalho porco (este último nada mais do que a soma preguiça + hipocrisia).

    Além da cultura de “manutenção zero”. Lança-se, constroi-se, começa-se mas não se mantém. Não há manutenção, não há continuidade. Por causa da preguiça e da hipocrisia, claro (a.k.a malandragem..)



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