Navegar é preciso

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Vou à Barra da Tijuca cinco vezes por semana. Um lugar que séculos atrás talvez tenha sido um dos mais bonitos da região e que até os anos 60 foi o extremo oeste do município do Rio de Janeiro. Hoje a Barra da Tijuca é apenas um bairro surreal, populoso, enorme e longe pra dedéu. Ou talvez, numa análise menos rasa, uma amostra dos caminhos bizarros que a urbanização pode tomar.
O trajeto, além de longo e demorado – são 30 quilômetros! – é um suplício diário por conta da total inexistência de transporte público no Rio de Janeiro e da total ausência de planejamento de tráfego urbano. Não se trata de exagero, as palavras são mesmo essas: total, inexistência e ausência.
Não vou descrever os detalhes deste trajeto sofrido e de suas consequências na vida de uma pessoa – vocês tem imaginação suficiente para imaginá-los – sobretudo porque quero sublinhar os únicos 5 minutos agradáveis dos 60 gastos dentro do busão: a hora em que vejo o oceano, numa trinca com o Sol e com a floresta que ainda resiste. Do fim de São Conrado até o início da Barra, passando pelo Elevado do Joá – um viaduto de dois andares que sobrevoa um pedaço de mar. Invariavelmente um momento de extrema beleza e de profunda reflexão. Penso na vida, no Rio, no Brasil e por aí vai, as idéias voando longe. Acordo deste estado alterado de consciência ao passar pelo outdoor do “Sorria, você está na Barra!”, percebendo o quanto somos privilegiados por – ao menos – estarmos tão próximos de aspectos tão pungentes da natureza (a floresta e o mar). Ao ver o mar temos consciência de que nosso universo cotidiano termina ali, e que do outro lado – a quantos milhares de quilômetros de distância? – há outros mundos existindo em paralelo ao nosso. Isto nos dá uma outra dimensão de nossos próprios problemas e qualidades, além de uma inevitável vontade – tipicamente humana – de talvez um dia partir, desbravar o que há do lado de lá, descobrir o que há além de nossos horizontes. Quanto mais tempo se olha para o mar, menos tempo se olha para o próprio umbigo. Privilegiados os cariocas que conseguem aproveitar esta benção que é habitar na fronteira entre o nosso e o resto.

2 Comments so far

  1. letícia (unregistered) on August 21st, 2006 @ 1:18 pm

    hahahaha, cid! eu tb falo “longe pra dedéu”

    mas “dedéu” é uma palavra?


  2. Nuno Virgílio (unregistered) on August 21st, 2006 @ 1:28 pm

    É, também sou usuário do “dedéu”. Se amarro em gírias velhas.

    Belo texto, El Cid.



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