Safári fotográfico
Toda vez que vejo esses jipes cheios de gringos fantasiados de Indiana Jones em direção à favela da Rocinha eu lembro dos meus tempos de faculdade, quando eu e meus amiguinhos íamos para a Feira de São Cristóvão (isso na fase pré-fibra de vidro, quando aquilo lá era uma zona) para tirar fotografias em preto-e-branco dos nossos retirantes miseráveis. “Safári fotográfico”, como eu dizia, sem pedir licença para ser cínico.
Naquele tempo ainda não se questionava a estética da pobreza do Sebastião Salgado, então uma unanimidade, e todo aluno de fotojornalismo queria fazer um pouco daquilo. Mais tarde, na mesma Eco, o Paulo Roberto Pires me ajudou a sepultar o mito Sebastião Salgado ao batizar aquela estética como pobre na contraluz.
Certa vez, fiz uma sugestão aos amigos fotógrafos: “Por que vocês não vão registrar algumas expressões faciais dramáticas nas lojas caras, nos shoppings da cidade, nos casamentos de rico?”
Difícil não cair neste pecado, não ser demagogo. Difícil não cair em contradição. Eu mesmo já fui e continuo indo beber em boteco pelo aspecto bizarro da coisa, porque na maioria das vezes eu poderia ir em lugares melhorzinhos. Mas quando estou lá sempre acabo pensando que se eu levantasse a mão e gritasse: “Aí, quem quer ir encher a cara comigo na pérgula Copacanana Palace? Eu pago!”, geral ia largar aquele mijo gelado que é a Belco de dois reais e a pescada aperitiva vagabunda e aceitar meu convite.
Um dia, num filme (acho que foi no “Bandido da Luz Vermelha”), vi um personagem (acho que era um deputado em campanha, memória de merda…) cercado de pobres numa favela, a quem beijava gritando: “Se um dia acabarmos com a pobreza, o que é que nós vamos ter para mostrar aos turistas?” E nós, em nossa média ordinária de brasileiros, como seríamos superiores sem os nossos pobres?
Às vezes eu acho que o Brasil e o mundo não estão psicologicamente preparados para o fim da pobreza.
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yes, yes, yessss!!! comamos bananas.
:P
Nestes últimos anos tenho pensado bastante sobre este assunto. A miséria e a injustiça no Brasil, enquanto frutos da roubalheira colossal que acontece todos os dias; são frutos de uma conjuntura que já dura inacreditáveis 506 anos. Nossa geração não pode - nem deve - carregar sozinha o peso desta culpa ou a responsabilidade de operar sozinha o milagre que mudará para todo o sempre a índole deste país.
Para que a atual classe média se mobilize o suficiente para efetivamente - sem armas e/ou atentados - fazer renascer este país, é necessária a conjunção de um sem número de fatores. A maioria improváveis e alheios às nossas esperanças.
(…)
No dia em houver contexto para estruturas menores, com métodos, digamos assim, mais contundentes, me chamem.