Chacina é a maior diversão

Na sexta passada fui ver Miami Vice no Botafogo Praia Shopping. Eu não gosto de filmes de ação com tiros e explosões megalomaníacas, mas fui porque era um programa entre amigos e eu estava lá mais pelos amigos do que por qualquer filme que fôssemos assistir.

O filme? É bobão e chato, e cheio de clichês esfarrapados, desde a dupla de tiras formada por um preto e um branco com personalidades diferentes até o policial que se apaixona pela bandida.

Em uma missão para combater o tráfico de drogas que alimenta o vício de Tio Sam através da patética América Latina - pra variar, corrupta, exótica e selvagem, na versão de Oliudi - Sucker and Fucker explodem a porra toda e matam geral, para delírio da platéia. E foi exatamente isso que me chamou mais a atenção: o delírio da platéia.

Vivemos numa cidade violenta, onde se morre até de bala perdida, de tanto tiroteio que tem por aí. Era de se imaginar duas coisas: ou que a maioria da população abominasse a violência e todas as suas manifestações ou que a maioria da população fosse viciada em violência e vivêssemos em eterna temporada de caça, num Velho Oeste - só pra saudar os roteiristas da América Selvagem com um clichê desses que eles usam com a gente.

Mas não: no Rio as pessoas saem numa sexta à noite, gastam um bom dinheiro com ingresso, pipoca e estacionamento para aplaudir cabeças explodindo com tiros na testa (literalmente: a platéia batia palmas) e depois saem do cinema e colam o adesivo do movimento Basta! no vidro de trás do Corsa Sedan, como eu gritei a meia voz, tímido pelo fato de estar atrapalhando a diversão alheia depois de ter entrado no filme errado.

Alguém aí duvida que depois do filme, acesas as luzes, o Bernardo deu um abraço na namorada, pagou o estacionamento e fechou os vidros do carro assim que cruzou a cancela automática com medo de assalto?

Alguém duvida que o doutor Marco Aurélio foi comentando no carro com a Marina, a filha do primeiro casamento, as cenas de explosão, as mentiras absurdas do roteiro e tal, antes de deixar a garota no apartamento da ex-mulher e temer pelo fato de que na noite de sábado a menina não voltasse pra casa depois que o carro de um amiguinho abraçasse um poste a 180 quilômetros por hora na Avenida das Américas, a velocidade média dos carros cheios de testosterona de Miami Vice?

Detesto me sentir moralista - acho que as pessoas têm o direito de consumir tudo e só então formar juízo por conta própria, desde que não violem a liberdade alheia - e talvez eu esteja sendo moralista em diversos desses meus argumentos, mas não consigo deixar de ver um enorme paradoxo no fato de a gente se divertir na sexta-feira à noite com a violência que abominamos ao abrir o jornal de sábado. “Me entretenho com os meus demônios…” Acho isso estranho.

Essa é um relação impossível pra mim, por isso parei de ver “filmes de explosão” que só têm a intenção de despertar os meus, os seus, os nossos piores instintos. Acho cinema um discurso de possibilidades muito libertadoras para tolerar a idéia de que Lumière simplesmente inventou o novo Coliseu.

4 Comments so far

  1. Banana (unregistered) on August 30th, 2006 @ 4:24 pm

    Viva as Explosões!!!

  2. Cid Andrade (unregistered) on August 30th, 2006 @ 8:21 pm

    Você não está sendo moralista. A postura que (de maneira geral) os cariocas têm diante da violência - seja a real ou a ficcional - é mesmo hipócrita e quase doentia.

  3. LP (unregistered) on August 31st, 2006 @ 1:51 am

    A postura que a maioria têm em relação à violência, em geral, é a postura acuada, ou seja, com o cú bem encostado na parede… :)
    Mas eu gosto de alguns bang-bangs e se bem feitos alguns filmes de guerra e policiais com pancadarias, tiroteios e explosões.
    Eu acho que o meu cérebro de vez em quando precisa de uns fast-foods mentais em forma de imbecilidades variadas, assim como ir ao Maracanã e gritar aqueles cantos de guerra ridículos, tipo, úh é bandeirão! úh é bandeirão! :)

  4. Renata (unregistered) on September 13th, 2006 @ 4:58 pm

    entrei no são luiz ontem determinada a ir ao cinema, fosse o que viesse pela frente, entraria no filme mais próximo. Topei inadvertidamente com miami vice… e não consegui chegar até o final.

    é engraçado pois não fiquei incomodada com a violência (isso é tão banal nesse tipo de filme, que nem chamou a minha atenção e a platéia tava meio apática, não se empolgava aí como a sua).

    é que o excesso de testosterona pingando da tela estava simplesmente me dando vontade de rir: não é só um filme clichê, é um tipo de clichê mto masculino, até as trepadas, que medo… não agüentei e fui!

    agora, deixa eu adivinhar quem eram os amigos……rsrs


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