Archive for August, 2006

Fear and Loathing in Rio

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Dia de chuva, frio e engarrafamento na Cidade Maravilhosa. O cenário inóspito é compensado pela psicodelia involuntária oferecida pelos respingos na janela do 132, e que às vezes me deixam semi-doidão a caminho do trabalho, mas sem estragos pesados à saúde e à mente, tipo um barato que tu compra no Mundo Verde e vai tomar com a vovó Yolanda.

Novos tempos: The Windows of Perception.

Água mineral

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Esta semana faz um ano que, em casa, troquei a água do filtro por água mineral. Há tempos eu me inquietava com a qualidade da água, sem saber ao certo o quão o liquido que a Cedae fornece avacalhava minha saúde. O gosto era ruim, uma água pesada, enfim, talvez pelo excesso de cloro, “que precisa ser em quantidade suficiente pra esterelizar este troço”, pensava eu. Foi quando um conhecido comentou que de longa data tinha problemas gástricos: azia, estômago pesado, gases, uma coisa chata à beça; e que tudo foi pelos ares (os gases inclusive) quando por conselho da vizinha adotou os garrafões de 20 litros de água mineral. Contei a ele que tinha azia com frequência e que estava cismado com a água da Cedae. Fiquei com aquilo na cabeça as semanas seguintes, me lembrando que certa vez um amigo comentou que a água do Guandú vira e mexe fica contaminada por alumínio, o que além de ser um merdelê danado pro nosso corpo, causa o que ele chama de “chime”, que são umas tremedeiras nas pálbebras. Ou qualquer outro músculo do corpo que resolva se mexer sozinho, à sua total revelia.

Almoço de domingo na casa de mamãe, comento o assunto por saber que ela poderá me dar informações privilegiadas; trabalha num hospital lá onde judas cortou o pé e de vez em quando dá umas voltas nas redondezas do Guandú. “Meu filho, aquilo ali é uma favela só. Um monte de barraco ali, nas margens, quase palafita, jogando esgoto na água, sofá, tampa de privada, haja cloro pra matar aquela sujeira toda. E não é um pedacinho do rio não, são pelo menos uns 5 km assim…”..

Desde então consumo garrafões Cascataí, oriundos de Cachoeira de Macacú, e dou meu testemunho: terminaram as azias, os sucos ficaram mais gostosos, o café e os chás idem. Até o sono ficou melhor! Cada garrafão custa R$6 e o consumo de um casal fica em torno de 1 garrafão por semana. É isso aí: além de pagar impostos pra não ter sistema de saúde, nem de educação, agora por força das circunstâncias pago R$24 de conta de água “suplementar”. As águas rolam e continuamos nesta direção de pagarmos tudo dobrado. Uma cidadania “dub”. Viva o Brasil-sil, via o Rio de Janeiro-eiro, viva a Cedae-ae!

Sabadão Sertanejo, passo a passo

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1. Aproveite que ela não está de plantão e almoce com A Irmã. Onde: na Adega Pérola (rua Siqueira Campos, 138 - loja A Copacabana). Cardápio: sardinhas ao molho de escabeche e o seletíssimo buquê, o pout-pourri com o melhor da casa, montado artesanalmente com todo amor e carinho pela rapaziada do balcão. Macete: vá correndo pra casa e chape no sofá, descontando com doce raiva as horas de sono mal dormidas na noite de sexta pra sábado.

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2. Continue explorando a folga d’A Irmã e vá com ela ao Projeto Aquarius. Onde: na praia de Copacabana, cercado de vovós tranqüilas e professores de geografia educados. Cardápio: nada, o almoção da Pérola ainda se faz presente. Mas aproveite bem o vendedor de cerveja que atende ao pedido de silêncio da platéia durante o espetáculo e faz sua propaganda aos rodopios, dançando valsa alucinadamente entre as cadeiras. Macete: vá de sandália e descubra como uma orquestra soa melhor quando você está com os pés enterrados na areia quente de um dia de sol.

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3. Quebre a porra toda de tanto dançar na festa Phunk, uma das melhores da cidade. Onde: agora também na nova Estudantina, na Praça Tiradentes. Cardápio: água mineral, James Brown e muito trompete do Pedrão Selector turbinado no delay-ay-ay.

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Macete: o de sempre: vá em boa companhia. No meu caso, fui com o grupo Os Melhores, a rodinha não se formou (mandou bem, diretora de ala!) e a noite foi boa pra cacete.

“Legalidade móvel”

Apesar do título paulistano (aqui no Rio a gente usa “de cabeça pra baixo” em vez de “ponta-cabeça”. assinado: o Chato), o post do Marcelo me fez perceber que a Cet-Rio é realmente chegada a essa história de “legalidade móvel”, aquela que vale aqui e não ali, no metro seguinte de asfalto, como os radares.

No caso, a relatividade da lei não se aplica unicamente à variável espaço, mas também à variável tempo: por exemplo, há lugares na cidade em que as vagas são administradas pela companhia de trânsito, com guardadores uniformizados, bonitinhos, de crachá e tudo, e que (quase sempre) te dão um talão como comprovante de que você pagou pra estacionar.

Pefeito, tudo no esquema, mas só até às dez da noite, hora em que os guardadores vão embora (ou tiram o colete…) e aí é a vez dos insuportáveis flanelinhas estuprarem a paciência dos motoristas, em alguns locais cobrando - com seu assalto a título de uma forcinha aí, amigo! - DEZ REAIS (cinco vezes mais que o cobrado pela Cet-Rio até 21h59) pra que você volte e encontre seu carro inteiro.

Ou seja: há lei, há ordem, mas só neste trecho da Avenida das Américas, ou somente entre sete da manhã e dez da noite.

Isso aqui, ô ô, também é um pouquinho de Brasil iá iá.

O samba do voto nulo

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Quem passa pelo largo da Carioca na hora do almoço está acostumado a ser bombardeado por mensagens de todos os tipos: panfletos de políticos, pregação evangélica, propaganda de agiotas… Mas hoje uma mensagem diferente era divulgada na praça: a defesa pelo voto nulo. O Rio de Janeiro é uma das poucas cidades do País onde foi montado um comitê Pró-Voto Nulo. Os integrantes, na sua maioria estudantes anarquistas, estenderam um mural com recortes de jornal sobre os escândalos recentes da política nacional, distribuíram panfletos, levantaram faixas e discursaram em um megafone.
Muita gente parou para conversar com os estudantes e extravasar sua insatisfação com o cenário político atual. Animados com a receptividade da população, os manifestantes cantaram um hilário samba composto por eles próprios no qual havia versos como: “Não vou votar, vou anular (Ah, vou anular!)/E nessa vou me organizar (Ah, me organizar!)”. E o refrão: “É 00 e confirma, eô!”. A empolgação dos garotos contrastava com a apatia dos militantes pagos que passeavam cabisbaixos pela praça com placas e bandeiras de seus patrões candidatos.
Esses estudantes defendem o voto nulo enquanto expressão de sua discordância à democracia representativa. Em vez de eleger políticos para lhes representar, são a favor de um modelo de democracia direta, em que o povo se organiza em busca das mudanças sociais que anseia. A frase “Existe política além do voto”, escrita em uma das faixas expostas no ato de hoje, ilustra bem essa idéia: mais do que apenas votar nulo, eles defendem a luta social no dia a dia e acreditam que somente a pressão popular consegue modificar as leis do país a favor do povo.

De ponta-cabeça

O Rio de Janeiro é engraçado.

Na semana passada, todos os jornais noticiaram a intenção de colocar mais 100 pardais na cidade para coibir a direção em alta velocidade. Para quem não mora no Rio, pardal é o mesmo que radar, aquele que monitora os carros dia e noite fotografando os apressados. As notícias atentavam para a indústria da multa, e de como os radares serviriam para coletar dinheiro dos pobres motoristas.

No Rio, a fiscalização é bem peculiar, já que a lei exige que cada pardal tenha sua localização avisada. O infrator prevavido pode entrar no site da CET-Rio e conferir a posição dos pardais, ou contar com outra ajuda: a marcação no chão. Sim, antes de qualquer pardal há a famosa inscrição “fiscalização eletrônica”. Assim, o infrator tem tempo para reduzir de 150 km/h para 80 km/h e escapar de ser fotografado e multado.

Experimente: pegue um carro em direção à Barra da Tijuca. Antes de chegar em São Conrado, cuidado, pois há um pardal no túnel. Depois, é sentar o pau até o final do bairro, quando outro pardal surge. Aproveite a suibida para o túnel e acelere mais um pouco, depois serpenteie entre as curvas com vista para o mar e dispare até a Av. das Américas. É diversão garantida.

E se você acha que os pardais móveis fogem da política de delimitação da infração, fique tranquilo. O site da CET-Rio também mostra onde eles podem se encontrar. Bom, né?

Agora é ai, nossa senhora (ou: das maravilhas da Avenida Copacabana)

Consegui escapar do tronco no meio da tarde para ir à dermatologista. Voltava lépida e faceira às 17h10 pela Nossa Senhora de Copacabana, com ares tontos de liberdade, ainda que ilusórios. Que maravilha o início do cair da tarde no meio da semana!, já não me lembrava muito bem da sensación. Oquêi.

Foi quando avistei um lindo e brejeiro rapaz, preto como gosto, nem tão magro nem tão forte, como gosto. Braços bonitos, como gosto. Ele me olha. Eu logo me apego aos santos. Ele vem na minha direção. Eu já acreditando que o cair da tarde, a liberdade, a dermatologista, nada é por acaso, mensagens cósmicas… Ele chega. “Que tal fazer o cartão Marisa, senhora?” E a maré muda aqui dentro, e o leão rugindo na minha cabeça: “Por quem me tomas, ó mortal?!”

De mulher pra mulher: hoje não é o meu dia.

Da série: recomendações da semana

Minha primeira vez no Buraco da Lacraia foi divertida que só. Era a única menina da rapaziada. Meus amigos heterossexuais não levaram as namoradas (não entendi bem o porquê). A entrada custa R$16 e bebe-se quanto quiser por essa quantia. Cerveja a baldes. Rola também uma caipirinha suspeita. Arrisquei pedir uma. A tímida garçonete enfiou uma concha dentro de um isopor (juro!), e voilà: minha caipirinha pronta, dentro de um copo, me olhando. Mas vamos lá, tudo bem, eu só quero me divertir. O Buraco só abre às sextas-feiras, sábados e vésperas de feriados. Uma vez por mês tem show. No dia em que eu fui, não teve. Uma pena. Mas teve sorteio de blusas do estabelecimento. Ganhei uma. Uma simpática drag queen me deu. Rosana, Rita Cadilac e Gretchen são algumas “divas” que já passaram por lá. Mas o lance do Buraco é, sem dúvida, o videokê. Da segunda vez que fui, com amigos mais corajosos que os heteros, dei um verdadeiro show. Por 1 real, você canta uma música, em cima de um palco ótimo, e seus amigos e os desconhecidos, ficam lá embaixo, cantando junto. Algazarra perde. Já cantei “Killing me softly” pra lá de Bagdá. As bichas ficaram loucas comigo (e eu com elas), e um deles até me pagou para cantar “What a feeling”, do filme “Flashdance”. Como recusar? Vamos lá, tudo bem… O público é muito variado. Grupo de amigas heterossexuais rindo muito alto, meninos heterossexuais num canto rindo um pouco mais baixo, homens gays rindo alto, homens gays rindo baixo, alguns travestis, lésbicas animadas dançando e rindo alto, lésbicas fazendo carão e rindo baixo. É, todo mundo sorri por lá. Miscelânia maravilhosa pra quem não tem preconceito. No segundo andar rola o “dark room”. Precisei de 2 segundos para entender que realmente os garçons lá em cima usam sunga enfiada na bunda. O segundo andar é mais voltado para a “pegação”. Não entendo essa coisa de o ambiente mais “escuro” ser feito para a “pegação”. As pessoas não gostam de ver quem estão beijando? Fora isso, a música no segundo andar deixa um pouco a desejar. Me senti numa discoteca ruim em 1997: “This is the rythm of the night… oh night… oh yeah… the rythm….” Tucum Tucum Tucum Tucum. O negócio mesmo é ficar lá embaixo, bebendo de 5 em 5 minutos (cerveja!!!! esqueçam a caipirinha), cantando músicas surreais (o videokê deles tem cada pérola), fazendo amizade com estranhos, que não são mais estranhos que você, e fazer teorias ruins e baratas com os amigos, sobre o ser humano. Ou não.

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Toda malandragem dando um olhadão na minha retaguarda. A foto é do Buraco. Da lacraia.

Comemore seu aniversário, meses de namoro ou apenas apareça:
Rua André Cavalcanti, 58, Centro (Lapa, na real) Tel.: (21) 2242-0446

… The Hutt

videverso.gifGabriela Marcondes, médica, poeta e música, lançará VIDEOVERSO, seu primeiro livro de poesias (Ed. 7 Letras) onde a palavra e imagem conversam entrecendo sentidos repletos de pequenas sutilezas.

O livro tem a participação da designer Roberta Range, orelha de Clarice Zahar e apresentação de Frederico Barbosa:
“… os textos de Gabriela Marcondes me chegaram como pequenas porradas poéticas, diretos de esquerda no meu queixo….Ou seja, os poemas de Gabriela são janelas se abrindo para deixar entrar o ar fresco da experimentação, da pesquisa com a poesia de todas as formas possíveis….”

A colega carioca neo-renascentista estará lançando VIDEOVERSO dia 07/10 as 19h na Casa das Rosas (Av. Paulista 37) - SP e dia 11/09 as 19h no Espaço Cultural Valansi (Rua Martins Ferreira, 48) - RJ.

Talentosa e gente finíssima a moça. Vale a pena conferir.

Chumbinho mata e seca

A mim me falta você
como aos pombos do Centro falta sempre um dedim.

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