Archive for August, 2006

É o ai, jisus

De certa forma já contei aqui nesse sítio que eu adoro o Rio de Janeiro, mas também (ou justamente por isso) me ressinto de certas coisas na cidade. Tá, eu sou resmungona e reclamilda. Eu sou o Mutley e é ótimo, pois jamais tive paciência pra tanto rosa naquela Penélope. Ugh, enjôo total. Mas enfim, uma das coisas que me magoam sinceramente na maravilhosa cidade são as padarias. Sim, meus caros, as padarias.

Ao menos nesses 25 anos cariocas que me cabem eu nunca conheci um português que me fizesse admirar seus fartos bigodes pelo bom tratamento a mim dedicado quando eu pedi três franceses moreninhos, por favor. Nunca um gordo bom dia de sorriso largo em resposta ao sonho fresquinho que levei com tanto apreço. Jamais atitudes higiênicas ao comando de um pão na chapa e um suco de laranja, nenhum carinho pela bomba de chocolate servida logo depois. O máximo de gentileza que eu consegui dos portugueses - e isso inclui meu falecido e quase desconhecido avô (kibaé) - foi uma olhadela de uns cinco segundos em silêncio pros meus peitos numa dessas confeitarias pseudopaulistanas em Ipanema, em que todos vestem chapeuzinhos brancos de enfermeiro e fatiam o presunto cozido como se fossem estilistas ajustando manequins.

Hoje de manhã finalmente saí mais cedo para o trabalho, e, na mesma Anita Garibaldi, depois de enfrentar os gringos tontos de sono do Chez Lagarto e suas mochilas maravilhosas, fui tentar tomar um café na padaria da rua. Pra quê? Acho que era cedo demais ou whatever, fato é que, em vez de um pretinho básico com três gotas de adoçante, levei foi um balde de água fria, literalmente e cheio de espuma - o português estava lavando seu estabelecimento em horário comercial. Claro, errada sou eu. Mas para a mea culpa já marquei de comer no Manoel & Joaquim aqui da Siqueira, que, surpreendentemente, está aberto pro almoço.

p.s.: Aliás, estão anunciando na TV por assinatura a transmissão do Rock in Rio Lisboa. Rock in Rio Lisboa… Isso não dá a impressão de que o Pastel de Belém é lá do Pará?

Eu sou do Rio?

Eu na praia. Com meus metros de perna e metros de braço. O homem que vende brincos coloridos, porém feios, e que adornam 9 entre 10 orelhas cariocas, pára na minha frente, e como se eu fosse doente mental ou gringa, ele fala alto e pau-sa-da-men-te: “BRIN-COS? PUL-SEI-RAS?” Respondo: “Não.” Ele insiste. Só falta falar “Samba, Pelé, Ronaldinho?”. Falo em bom tom, e até reforço meu sotaque carioca: “Aí bicho, não tô a fim de comprar nada não, valeu?”. Ele se espanta e me pergunta: “Ahhh, você é brasileira?”
A cena descrita foi uma das trocentas que já aconteceu comigo ao longo dessa vida. Italiana, espanhola, francesa ou israelense. Já me disseram de tudo. Mas brasileira? Me falta bundão, morenice e samba no pé. Estava até mais acostumada, quando deu pra acontecer com mais freqüência uma situação que não tem me alegrado: eu não tenho cara de carioca. E as pessoas têm me avisado isso. Na minha fase “sou colorida e o mundo não”, diziam muito que eu era paulista, o quê infantilmente me constrangia. De uns tempos pra cá, virei gaúcha e nem me informaram. E não estou exagerando. É papo de entrar no salão e só falar uma frase: “Tem manicure livre?” E pá: “Você é gaúcha?” Oh, céus! Quando passei um mês em Recife, acho que os pernambucanos ficaram decepcionados com a gazela carioca que aportou por lá e não sabia sambar juntinho. E questionavam: “Tu não é capixaba não, galegona?” Já no Espírito Santo, recentemente me perguntaram se eu era paulista. “Porque você se veste muito louca, mas é massa!” Pffff. O que me falta? A calça da Gang? Brincos de argola dourados? Piercing no umbigo? Nhé. Em Brasília e em Alto Paraíso, novamente eu era “do sul”. “Você é do sul? Você fala tanto ‘tu’.” E os gringos e gringas que conheço na vida, comentam da minha cara “cosmopolita” e nada brasileira. Uh lá lá.
Não tenho cara de ser do país onde nasci, não tenho cara de ser da cidade onde nasci. O que falta, meu Deus? Nasci de cesárea, e meu astrólogo comentou sobre como isso pode ter me causado uma eterna sensação de ser penetra nesse mundo. Tenho sentido essa sensação mais forte. I’m a stranger in this town/I’m a stranger in this town. Mas não rola a tal lenda que os penetras se divertem mais? Ou é só título de filme americano ruim? Tenho me divertido. Mas gostaria, algum dia, de me utilizar da tal famosa marra carioca ao chegar em qualquer outro lugar do Brasil, e pedir “Uma cervejinha aqui, mermão. Doixsss copoxsss”, e perceber um garçom tímido e desajeitado, ficar encantado somente por perceber que tem uma carioca na frente dele.

Esquina imaginária

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Coisas estranhas acontecem em Copacabana. Quem anda pelo bairro pode se deparar até mesmo com um cruzamento impossível de uma rua com ela mesma. A esquina da Domingos Ferreira com a Domingos Ferreira fica, na verdade, no cruzamento entre a dita cuja e a Constante Ramos. É por essas e outras que os turistas reclamam que a cidade é mal sinalizada.

Aleluia

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Sexta-feira, o sol vai naufragando como um transatlântico, e com ele arrasta tudo: prazos, papéis, sorrisos de elevador, o despertador às sete e meia da manhã, tudo em mim que é profissional e especializado. Agora é eu, amador e sem diploma, agora é nóis. Bermuda velha e barba por fazer, caiam sobre mim!

Demorou, pra variar, mas a gente venceu outra guerra contra a semana de trabalho. É isso, irmão, chuta o cachorro morto: foi-se a semana. Porque amanhã e depois não contam, e a gente nem vai precisar de relógio, só vai voltar a pensar nisso assim que escutar a música do “Fantástico” às vinte e duas e trinta de domingo.

Gangorra boa: a sexta-feira de trabalho desce e a gente sobe no empuxo dela. As pessoas lá embaixo correndo, mas não de pressa. É dança mesmo, porque o primeiro minuto do fim de semana é o melhor de todos, porque nele cabe tudo que a gente sonha e não pode ser - mas ainda espera, nem que o milagre.

A noite será de sexta, por isso boa de qualquer jeito, e há um boato forte em cada esquina: sábado de sol pela frente - e essa notícia numa sexta carioca vale mais que o spread, a plataforma do candidato, os mortos no Iraque (o deles e o nosso). Vale mais até que a escalação do Mengão pro jogo de domingo, vejam vocês.

Sexta-feira, o sol vai naufragando, um transatlântico. E a gente dançando em torno dele até cansar e cair no chão como as aleluias do Fernando Paiva.

Velhas chuvas

Não me lembro dessa chuva aí de baixo, a chuva da Letícia. O que me faz achar que antigamente eu me lembrava mais das chuvas, aquelas chuvas da infância, talvez porque fossem as primeiras, talvez porque ainda não soubesse como elas são feitas e acreditava naquelas coisas de que o trovão era o Papai do Céu jogando boliche e que o temporal era o Papai do Céu faxinando a casa com baldes d’água e a minha mãe cobrindo os espelhos da casa que atraíam raios e mandando desligar a TV com medo de que ela explodisse com um raio e do do raio que um dia caiu no quintal e abriu o mamoeiro em dois.

No entanto, delírios nostálgicos da infância perdida à parte, tenho a impressão de que há 20, 20 e poucos anos, havia mais chuvas de verão no Rio, ou elas eram mais memoráveis (hoje em dia elas são inesquecíveis somente quando viram enchente e tragédia).

É impressão minha ou no verão chovia mesmo TODO DIA à tarde aqui no Rio, como me faz crer a memória? Daquelas chuvas de verão bíblicas, lembram?

Assim: meia hora de dirty sex embalada por uma sinfonia de Wagner, e pá-pum: a chuva estancava e abria um sol embaçado de fim de tarde, e os passarinhos voltavam a piar, agora ao som de Mozart e cigarras renascendo das cinzas, a esperança e o amor no ar depois da tempestade, como nos desenhos da Disney.

Né não ou é só nostalgia?

ps.: Chuva de verão com sol depois = sexo bom com um grande amor

Sol e Chuva / Casamento de viúva

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Outro dia choveu, né?
Mais, São Pedro, MAIS!

Tim Festival 2006 - RJ

Lá vem a época do ano em que o Aterro do Flamengo se enche de música e refletores. Parece até uma passarela. A cidade maravilhosa agradece os festivais, mas ainda os julga em pouca quantidade. O Tim agora em outubro, na Marina da Glória, e um bancado pela VIVO sabe Deus quando no MAM. É pouco, queremos mais.

Por enquanto, programem-se a partir da escalação oficial (bem fraquinha). Se quiserem companhia para os shows em negrito, pode ser a minha?

Fonte: Quarto Piso

TIM FESTIVAL 2006

27.10 @ 20h @ Club
. Ivan Lins
. Jennifer Sanon
. Maria Schneider

27.10 @ 22h30 @ Lab
. Céu
. Amadou & Marian
. Devendra Banhart

27.10 @ 23h @ Stage
. Daft Punk

27.10 @ 01h @ Village
. DJ Shantel
. Mauricio Valladares

28.10 @ 20h @ Club
. André Mehmari Trio
. Roy Hargrove
. Charlie Haden

28.10 @ 22h30 @ Lab
. Bonde do Rolê
. TV On The Radio
. Thievery Corporation

28.10 @ 23h @ Stage
. Mombojó
. Patti Smith
. Yeah Yeah Yeahs

27.10 @ 01h @ Village
. Booka Shade
. Pet Duo

29.10 @ 20h @ Club
. Stefano Bollani
. Ahmad Jamal
. Herbie Hancock

29.10 @ 22h30 @ Lab
. Marcelo Birck
. The Bad Plus
. Black Dice

29.10 @ 23h @ Stage
. Instituto
. DJ Shadow
. Beastie Boys

27.10 @ 01h @ Village
. DJ Jason Forrest
. Camilo Rocha
(more…)

Guerra contra os bichinhos da luz

Não sou particularmente um cara que odeie insetos. Alguns me parecem até simpáticos, como as joaninhas e os vaga-lumes. Mas nutro uma raiva desproporcional por um inseto especificamente: o “bichinho da luz”, ou “aleluia”, como chamam em outros estados. Não sei o nome científico do dito cujo e nem quero saber. Essa praga é muito comum no Rio de Janeiro. Ela invade nossas casas em dias quentes, geralmente antes de uma baita chuva, e dança enlouquecida em torno de qualquer foco de luz: lâmpadas, TVs, monitores… Antes fossem apenas inofensivos insetos viciados no calorzinho da luz! Quem não tem seu próprio vício, certo? Mas nada na natureza é por acaso: toda aquela dança desvairada ao redor da luz nada mais é do que uma artimanha vil para perder suas asinhas e virarem cupins. O passo seguinte é invadir os móveis de nossas casas e comer toda a madeira que vêem pela frente!
É por isso que quando me deparo com uma invasão de bichinhos da luz aciono meu plano de defesa. Primeiro fecho as janelas e as cortinas. Depois, apago as luzes que não foram alcançadas ainda pelos invasores. Em seguida, posiciono a minha artilharia anti-aérea composta de modernas bacias cheias d´água debaixo dos focos de luz que foram atacados. Como kamikazes desesperados, os bichinhos voam cegamente para o reflexo da luz na água, onde morrem afogados! Só descanso quando estão todos boiando na bacia. Aí despejo os corpos na privada e dou descarga, para não deixar vestígios e ser processado por algum tribunal internacional de crimes de guerra. E só assim volto a ver a novela em paz, vencida mais uma batalha do homem moderno contra a implacável natureza, que insiste em incomodar os cidadãos pacatos de uma grande cidade como o Rio de Janeiro.

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Beroaldo Pádua de Araújo, o senhor da foto acima, é torneiro mecânico. Na verdade o termo “torneiro mecânico” é pouco para descrevê-lo: o cara é um verdadeiro artesão do metal, um fino ferreiro especializado em armamentos. Foi preso em flagrante em sua oficina nesta madrugada: construia metralhadoras e pistolas, que vendia para o tráfico carioca e, especula-se, até para o PCC paulista. Em outras circunstãncias poderia ser um engenheiro fazendo pesquisas em alguma boa universidade, mas mora em Curicica onde a banda não toca bem assim. Ganhava uma miséria, era apaixonado pelo material que via ser carregado pelo movimento e um dia resolveu virar punk. Inaugurou o DIY bélico em sua favela e fez fortuna…

Veja aqui a matéria que saiu no Globo sobre o episódio

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Não há mais águas de março

Segundo o Terra, a madrugada desta quarta-feira voltou a bater um novo recorde no Rio de Janeiro. A temperatura mínima registrada foi de 11,4ºC no Alto da Boa Vista. O último recorde, de 12,3ºC, aconteceu no dia 6 de julho. Qual recorde é esse eu não sei. Tudo o que sei é que o sol aparece mais uma vez aquecendo o asfalto justamente porque resolvi passar todas as minhas camisas de manga comprida ontem.

Algo similiar aconteceu semana passada, quando durante um dia de calor intenso e uma luta para consertar meu ar-condicionado, a temperatura baixou horrores. Longe de mim acreditar que eu controlo o clima no Rio de Janeiro… essas irritantes coincidências devem acontecer o tempo todo com vocês também. O que eu gostaria de saber é como seria o Rio de Janeiro com estações do ano de verdade. Como seria um Rio de Janeiro com outono, inverno e primavera?

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