Archive for August, 2006

Fachada

Com a proximidade das eleições, se proliferam os Seguradores de Faixas de Candidato, pessoas que são pagas pra ficar, normalmente em dupla com outra, o dia ou a tarde inteira sentadas numa cadeira de praia em pontos estratégicos segurando a faixa (ou plotter) com a cara, o número e nome do candidato.

Naquele esquema Santinho-de-quem-não-tem-cara-de-santinho. Em grande parte Deputados, que são os que mais sujam a cidade. E de todas as “duplas” pelas quais já passei estão todas sempre com a cara escondida atrás da faixa. Ou então dormindo. E em qualquer caso, morrendo de vergonha ou de indiferença.

Mas hoje eu vi o cúmulo: uma festa. É, pessoas reunidas em volta duma dupla que segurava uma faixa ali no Catete perto do antigo prédio da UNE. Eles tinham churrasquinho, isopor e crianças. A criatividade do carioca reinventa a sociabilidade pra passar o tempo. Até outubro.

Me baseando no primeiro baseado

No ano 2000, enquanto os carros não voavam, para a minha incubada decepção infantil, eu tinha 18 anos, fazia faculdade de letras na puta que pariu, que outros preferem chamar de Fundão. Sabe Deus porquê, eu não bebia (nada) e não fumava. Cigarro ou maconha. Mas sempre fui… sempre fui… Como é mesmo que vovó Régia diz? Uma figura. Talvez pela altura, que nunca me permitiu ser discreta, sempre assumi minha graça espalhafatosa. E somente os céus sabem quantas vezes eu não ouvi: “Você não bebe? Mas você é a mais louca!” ou “Você não fuma? Mas você só fala coisa nada a ver.” Nessa época, o rock ‘n roll ainda não tinha salvado minha vida de uma mesmice que algumas meninas tijucanas costumam ter. Papai já tinha me dado o Abbey Road para ouvir, com recomendações de ouvir “Oh, darling!” no talo. Mamãe já tinha feito lavagem cerebral na minha mente, me levando ao cinema para ver Ettore Scola com 9 anos. Mas faltava alguma coisa. Algum brain damage que partisse de mim mesma. Com 18 anos descobri os shows de reggae no Lagoinha em Santa Tereza ou no Teatro de Lona, na Barra da Tijuca. Sendo capricorniana, com ascendente em virgem, e lua em touro, sempre tive dificuldades de tomar iniciativa para algo. Então, Bob Marley Cover cantava, o baseado passava, e cadê coragem de falar: “Posso experimentar?”
Quedê coragggi? Coragem eu tinha pra cantar as músicas do Planet Hemp bem alto. Achava tudo muito “legal, bacana, aquela coisa…” Pois então. Um belo dia de julho, meu irmão chega em casa com a Playboy de alguma gostosona da época. Tiazinha, Feiticeira, qualquer merda dessas. Sempre gostei das entrevistas da Playboy, porque entrevista pra mim tem que ter mais de 4 páginas. Tem que ter. A entrevista do mês era com um tal de Eduardo Bueno, um jornalista gaúcho que escreveu um livro sobre a história colonial do Brasil e também traduziu On the Road, de Jack Kerouac. Até aí tudo bem.
(more…)

A cidade é música

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Avenida Rio Branco
e interface do Acid
- ou vice-versa…

Mas se ainda assim você duvida, clique aqui.

Safári fotográfico

Toda vez que vejo esses jipes cheios de gringos fantasiados de Indiana Jones em direção à favela da Rocinha eu lembro dos meus tempos de faculdade, quando eu e meus amiguinhos íamos para a Feira de São Cristóvão (isso na fase pré-fibra de vidro, quando aquilo lá era uma zona) para tirar fotografias em preto-e-branco dos nossos retirantes miseráveis. “Safári fotográfico”, como eu dizia, sem pedir licença para ser cínico.

Naquele tempo ainda não se questionava a estética da pobreza do Sebastião Salgado, então uma unanimidade, e todo aluno de fotojornalismo queria fazer um pouco daquilo. Mais tarde, na mesma Eco, o Paulo Roberto Pires me ajudou a sepultar o mito Sebastião Salgado ao batizar aquela estética como pobre na contraluz.

Certa vez, fiz uma sugestão aos amigos fotógrafos: “Por que vocês não vão registrar algumas expressões faciais dramáticas nas lojas caras, nos shoppings da cidade, nos casamentos de rico?”

Difícil não cair neste pecado, não ser demagogo. Difícil não cair em contradição. Eu mesmo já fui e continuo indo beber em boteco pelo aspecto bizarro da coisa, porque na maioria das vezes eu poderia ir em lugares melhorzinhos. Mas quando estou lá sempre acabo pensando que se eu levantasse a mão e gritasse: “Aí, quem quer ir encher a cara comigo na pérgula Copacanana Palace? Eu pago!”, geral ia largar aquele mijo gelado que é a Belco de dois reais e a pescada aperitiva vagabunda e aceitar meu convite.

Um dia, num filme (acho que foi no “Bandido da Luz Vermelha”), vi um personagem (acho que era um deputado em campanha, memória de merda…) cercado de pobres numa favela, a quem beijava gritando: “Se um dia acabarmos com a pobreza, o que é que nós vamos ter para mostrar aos turistas?” E nós, em nossa média ordinária de brasileiros, como seríamos superiores sem os nossos pobres?

Às vezes eu acho que o Brasil e o mundo não estão psicologicamente preparados para o fim da pobreza.

Gringos. Melhor não tê-los

(Mas se não tê-los, como esculhambá-los?)

Sigo olhando com desconfiança para o Hostel Chez Lagarto de Copa, aqui na Anita Garibaldi, entrada do Bairro Peixoto. Todo dia de manhã é a mesma história, não importa o clima ou a previsão do tempo. Amontoada na saída do Hostel, tomando toda a pequena calçada da Anita, uma profusão de mochilas pálidas, bermudas sem-graça e chinelas estranhíssimas, sempre maiores que os pés já enormes, impedem a minha passagem atrasada para o trabalho. “Uh, excuse me” “D-e-s-h-c-u-l-p-a-h” “Pardon” “Oh, perd… Hola, chica!”

E por mais que eu me esforce para ser simpática com nossos queridos visitantes, que movimentam o turismo e a economia, que nos trazem inúmeros benefícios e que já merecem respeito só por arriscar suas vidas para compartilhar esse imenso cartão-postal que é o Rio de Janeiro, mesmo assim eu não consigo entender por que é tudo tão cáqui, por que os chapéus, por que os passeios de bugre e, principalmente, por que a garrafinha d’água quente do lado esquerdo da mochila. Gente, o Real é uma pechincha!

Ah, sim, outra questão-fronteira: por que uma loja de artigos importados em esporte, esquina da Figueiredo com a Barata, está sempre lotada de gringos consumindo Nike?

Ainda invado Nova York atrás de literatura de cordel.

n. da e.: Não sou xenófoba. Juro! E frases como “Eu nasci em Londres”, “Minha família é estrangeira”, “Conheço uma livraria temática baratérrima em São Francisco” não me convencerão do contrário.
mais uminha: Se a sentença for “Eu sou do Congo” ou coisa parecida, email-me e conversamos. Ou coisa parecida.

Meu Amigo João

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João Paulo Cuenca é capa, entrevista e alvo de dezenas de fotos desnecessárias no Megazine de hoje no Jornal O Globo.

O rapaz assinará uma crônica semanal nesse mesmo suplemento e invadirá a casa de muita gente por debaixo da porta. Fico extremamente feliz por ele, pois é amigo e não dá pra evitar de pelo menos sorrir quando se fica sabendo de um amigo na capa de um jornal e que, pelo menos dessa vez, não se trata de assunto de polícia.

Hoje posso dizer certas coisas sobre João Paulo. Quando dividiamos esse apartamento aqui no Lido, não éramos amigos por razões de segurança. Viviamos cada um no seu canto tomando cuidado pra não dar muita confiança ao outro porque depois que se vira amigo já viu… acaba-se brigando qualquer dia por qualquer coisa e cria-se uma inimizade besta, um rancor ou uma amargura que não estávamos dispostos a ter. Nos respeitávamos demais e, acima de tudo, estávamos muito ocupados com nossos próprios problemas para perder nosso tempo com bobagens.

Nunca discutimos ou brigamos durante aqueles anos, apenas conversamos pacificamente e sem maiores problemas. Ele lia Nabokov, eu lia Douglas Adams, ele ouvia Chico, eu ouvia Netunos… cada um na sua e em uma bendita harmonia proporcionada por muito consideração, respeito e paredes de alvenaria.

Depois de 2003 cada um foi para um canto, mas sempre mantivemos algum contato. Recentemente, em Paris, lhe enchi propositalmente a paciência durante dois dias até que ele finalmente pedisse arrego e me dispensasse com a desculpa de estar muito preocupado com um prazo qualquer. Foi só dar as costas para que eu risse por dentro recordando todas as minhas esdrúxulas e fleumáticas comparações de Paris com a Cinelândia.

Hoje, depois me deparar com essa agradabilíssima surpresa, lembrei que o próprio me pediu encarecidamente para não publicar nenhuma foto nossa em Paris (pois não costuma gostar de fotos suas zanzando por aí sem controle). Bem… depois dessa matéria no Megazine, acho que não fará muito mal dar uma sacaneadazinha amiga.

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Eu e JP em um dos bares do Quartier Latin no início de um tour etílico

Aquele abraço 2.0

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Sábado à noite, festcheenha em Santa Teresa. Assim que o DJ solta Aquele abraço, do Gilberto Gil - um hino de amor ao Rio - o malandro que está ao meu lado faz o comentário maldoso: “A introdução dessa música deveria ser atualizada: ‘Esse samba vai para Dorival Caymmi, João Gilberto, Caetano Veloso e RODRIGO AMARANTE, O HUMILDE!!!!!”

É justo.

Empregos no Rio de Janeiro

Só uma curiosidade pra vocês…
A seqüência do filme “Italian Job” será filmada no Rio de Janeiro e tem lançamento previsto até 2008. “The Brazilian Job” terá Mark Wahlberg, a gata da Charlize Theron, Jason Statham, Seth Green, Mos Def entre outros. A produção estaria em contato com atores brasileiros para o elenco de apoio.
O script está sendo escrito e revisado desde o ano passado então ainda falta realmente um pouco pra vermos a Charlize tomando água de côco no Big Bi, mas a esperança é a última que morre. :)

P.S.: O “Italian Job” original é de 1963 e estrelava Michal Kaine (pronuncia-se: my cocaine) e Noel Coward.

Crash - No limite

Esta é uma história real.

Moça popozuda de topzim branquim quase-nada entra na lanchonete:

- Fala, china! Tudo certim? Põe aí um café. E um pão na chapa.

O balconista ri meio torto mas traz o pedido. Ela reclama:

- Café tá bão não, hein… Hmmm, tá frio! Esquenta isso aí, china!

O cara vai e volta:

- Agora siã!… Quentim… Mas e aí, china? Como tão as coisa? Comigo tá aquilo, né… - e a mulher fala, fala, fala. Alto, alto, alto.

Café da manhã concluído, ela paga e acena:

- Témanhã, china!

Ele fala, finalmente:

- Té manhã, palaíba…

Ela em fúria:

- Epa, epa, epa… Eu não sou paraíba não! Que é isso! Eu sou cearense!!!!

E ele explode como na festa do dragão vermelho-e-amarelo:

- E EU SOU COLEANO, PÔLA!!!!

Confissão histRIÔnica

Pois bem, vou abrir o jogo: nas minhas andanças não há qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer, qualquer, relação com o Rio de Janeiro continua sendo de alguns mestres de aí. Aliás, nem eles mesmos são daqui e eu não quero nada, nada. Muito menos ver Irene rir. Tenho irmãs Laura, Claras, Bruna, Mônicas e um monte de outros nomes de moça, mas Irene não.

Não gosto de mandar aquele abraço, nem-que-se-me-dou para janelas de onde vê-se o Corcovado, oh how lovely. Não quero a vida sempre assim, com alguéns perto de mim. A minha chama está difícil de acender. Mas não sou triste tanto tempo e acredito que a Baía de Guanabara tem solução. Rio do sol, do céu e do mar. Água brilhando, olha a pista chegando e vamos nós… me arrastar. Valha-me, meu Nosso Senhor do Bonfim. Nunca, jamais!, eu me vi tão peixe assim.

Domingo, 16h50, Bairro Peixoto, no toró de vestido e chinelinho. Sem guarda-chuva ou qualquer vestígio de sanidade mental.

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