Aqui ao lado de casa tem um bar de adolescentes

ELES pulam e cantam hinos de arquibancada, uma parte de cada vez, como num desfile medieval de armas. A maioria diz que o Flamengo é foda e pentacampeão, uma parte diz que o Flamengo vai pra vala, três se abraçam e giram e gritam Nenseeeee! e um aperta o saco e uiva Fogo! pra lua.

ELAS estão encostadas nos carros, bebendo a cerveja de graça que eles pagam pra amaciar a carne. Elas ainda fumam errado – e mentolado. Com essa chuva poucas se arriscam no shortinho miúdo. Uma atrevida se arriscou, mas tá dando só uma passadiinha, desceu pra levar o poodle pra mijar. Pra falar com ele ela faz ponta-de-pé, bailarina de Havaianas. E morde o chaveiro de coraçãozinho de borracha, que nem neném – ele já sabe que mulher quando fala contigo mordendo o chaveiro é porque vai morrer.

Eles acham que não, mas um boteco freqüentado por adolescentes numa sexta-feira à noite tem muito de festa no play. E tem sempre um gavião velho roendo palito encostado no balcão e monitorando o vai-e-vem das pintinhas em direção ao banheiro, com nojinho (Como é que você fez xixi?, perguntam às amigas, e plow!, estouram a bola de chiclete).

Tem sempre aqueles moleques fortinhos com camisa social, relógio e perfume demais, tirando onda que o boteco é só o esquenta, que tão de carro e depois vão pra guerra forte.

Tem sempre dois retardados que ficam brincando de luta, puxando moleton, roubando boné e dando rasteira: Peraí, maluco! Assim não, assim não…

Por mais que eles se esforcem em seus talentos e exibam hinos de arquibancada, armas, cavalos, brasões, as meninas só querem saber de fumar seu mentolado soltando fumaça e desprezo: amanhã elas vão pra casa do Marcelinho em Itaipava, o cara cinco anos mais velho, que já garantiu carona, a presença de outros amigos, churrasco, reggae, psytrance e fumo. O resto é com elas.

Aí os galinhos adotam a tática kamikaze da Caninha 51: uma talagada e coragem, guerreiro! Coragem pra perder a linha e falar umas paradas sem noção pra ela, que acaba indo embora com cara de nojinho (plow!, foi-se outra bola de chicle), e agora os outros paladinos tão te zoando até a morte, um grito de gol que junta as torcidas, até que vem um e te dá um tapa no boné, aí você diz que não, isso não pode, e a briga começa, a patrulhinha chega e é hora de todo mundo voltar pra casa chapadinho no ônibus, aquele silêncio sagrado de anjinho dormindo.

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