Trilhos noturnos
Da dobra da baía vemos tudo.
Água morna que faz flutuar os barcos e todo o resto.
O luar que vem da Praia do Flamengo ilumina a poça d´água:
luz branca que vibra à velocidade somada de todos os corações.
Calma com cheiro de maresia,
os pescadores tentando catar os únicos corpos que se movem…
Lixo comestível.
O silêncio é rasgado pelas ventas do 512, que faz curva rente e quase toca o pneu na calçada alta de pedra. Segue como um trem louco, até debaixo do antigo cassino…
As baratas se divertem, dão risada.
Baratas tontas. Preocupadas com a festa nos bueiros, ignoram a própria sorte.
Quem está sempre com fome procura apenas comida, não há contexto para nada além.
Ri melhor quem as esmaga com a sola dos sapatos; mesmo que elas continuem presentes, agora entranhadas na sola do Adidas.
A música vem de tempos em tempos, som forte e agudo; começa baixinho, chega perto, passa de repente.
Se fosse há vinte anos, viria de um Chevette com rádio barato; agora vem dos Samsungs e Motorolas, com seus toques em mp3.
O otimismo me diz que são menos irritantes do que o onipresente toque padrão dos Nokia.
A farra é rasgada pelo motor a diesel do Metrô de Superfície, que faz curva rente e quase toca o pneu na calçada alta de pedra. Vai deslizando fora dos trilhos como um trem louco, até debaixo do antigo cassino…
As baratas deram no pé, as conversas e os toques em mp3 se abafaram por alguns instantes, o peixe desistiu de morder a isca, a cerveja rendeu seu último gole.
Ao longe, repentinos fogos de artifício nos rumos do Dona Marta marcam o clímax do passeio, explosões e cores reverberando no mar e nas montanhas.
Missão cumprida, já não somos mais os mesmos.
Pegamos as bicicletas e voltamos, nos trilhos do metrô, até a estação de nossa casa.
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Muito bom, rapá… Li ouvindo os sons pelo caminho, li com os sentidos ativados. Texto em braile, saca?
Meanwhile
night falls into regions
and if we could just see faster
we could watch everything