O patinho do João

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Outro dia eu zapeava com o contrôle e acabei parando em um daqueles canais educativos da TV. Ele dava uma entrevista e falava animadamente sobre alguma gravação ou show, não sei ao certo, porque eu só conseguia pensar e me lembrar daquela história, faz uns cinco anos, eu acho.

Joana virou pra alguém no Baixo Gávea e disse que ia rolar uma festa do filho do João Bosco, na casa do pai dele no alto Jardim Botânico, se não me engano. Éramos aí uns dez ou doze. Ela falou que não era liberada a entrada mas, se a gente quisesse tentar, pelo menos que se comprasse cerveja pra levar. Beleza, dito e feito. Todo mundo comprando uma caixa de cerveja. Geralmente neguinho faz um certo corpo mole mas naquele dia todo mundo comprou uma caixa de cerveja e o fato é que entramos na casa do grande músico mineiro com umas 120 cervas, na boa.

Apenas ela, era de fato convidada. Entretanto chegamos lá e entramos todos, tudo certo. Lá pelas tantas, estamos ali conversando em grupo no meio da festa e chega o cara — o filho do João — e pergunta meio na lata: – Legal, mas quem convidou vocês? Na hora, foi esquisito aquilo. Mas acho que deve ter me vindo à memória, inconscientemente, a lembrança do filme “Os suspeitos” — The Usual Suspects — quando na cena final, antológica, o menos suspeito e o mais culpado dos cinco presos, Verbal Kint (Kevin Spacey) constrói uma mentira em poucos minutos usando apenas dados e nomes que lia no quadro de recortes do inspetor Dave Kujan, interpretado pelo Chazz Palminteri. Tarde demais ele descobre que fora solto o perigoso, o lendário, o terrível chefão do crime oriental: Kayser Soze.

Pois é. Eu tinha visto as esculturas de papel marchê da mãe dele – Ângela Bosco – na parede, anteriormente, e aí, meio no desespero, falei que eu também era artista e conhecia a Ângela, gostava do trabalho dela, etc e tal. Quis o Bom Senhor que ela não estivesse ali, na ocasião. Foi foda. Depois eu acho que o cara relaxou, viu que era tudo sangue bom e deixou pra lá.

A festa foi boa. Não faltou bebida. Havia tanta cerveja mas tanta cerveja que lá pelas tantas um pessoal aí, que eu não vou entregar, resolveu levar de volta pra casa umas caixas, pô, maior desperdício, trocentas cervejas, os caras não vão dar conta. Bote fé, eu pensei. Entretanto, não sei porque, achei bizarro três caras saindo com três caixas de cerveja, ao mesmo tempo… Resolvi então abrir o freezer e encontrei diversos pacotes de carne congelada, empilhadas. Um monte de carne. Peguei uma ao acaso. Não escolhi, peguei a primeira da pilha. Entramos no Fusca e foi cada um pra sua casa com seu troféu debaixo do braço. Maluquice de bêbado, eu sei. No dia seguinte caiu a ficha de que eu tinha afanado um kilo de patinho moído congelado da geladeira do João Bosco. Pensei em devolver, mas achei que seria o maior mico e deixei pra lá. Se eu comi a carne? Não, eu não comi a carne, mas meus dois gatinhos a comeram, em três ou quatro dias, com grande satisfação.

Aí, João, fico te devendo essa, valeu?

Foto: Mário Luiz Thompson

2 Comments so far

  1. Nuno Virgílio (unregistered) on September 20th, 2006 @ 5:39 pm

    Estou aqui gargalhando com essa história mais uma vez. A festa era no Alto da Gávea, LP. Festa do “pessoal do cinema”, cheia de conspiradores da Conspiração – e nóis de penetra, Fusca e roubando cerveja. Antológica.


  2. letícia (unregistered) on September 20th, 2006 @ 9:47 pm

    aaaaaaahhhhhhhhh que maravilha, essas são as melhores festas.

    esse filme é ótimo, e João Bosco me lembra minha mãe ouvindo e tentanto cantar junto “aquirouba aquirouba… ai ai ai… o amor quando acontece a gente esquece logo que sofreu um diaaaaaa… esquece simmmmmm….”



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