Minha quarta-feira
Ontem fui ao MAC. No caminho, na ponte Rio-Niterói, vi um cavalo. Achei bonito. E pensei na última vez que andei à cavalo. Tem tempo. No MAC, brinquei de fazer uma grande teia colorida. Lúdico toda vida. Lá dentro, tive um diálogo com Lygia Clark. Lá fora, fiquei paralisada com a beleza do Rio de Janeiro. O sol apareceu às 17 horas e foi tudo tão bonito, que eu quis gritar até. Na volta para casa, na ponte, gotas gordas começaram a cair do céu. E de repente, os carros andando a 30km/h com pisca alerta ligado, e o limpa vidros não dando vazão para tanta chuva que caía. Pensei na morte, fechei os olhos e lembrei da vida. No final da ponte, a chuva gorda parou. À noite fui ao CCBB, não para visitar outro museu, mas para participar de uma situação lá, que não dá pra explicar ainda. De 21:30 até meia noite. Pensei: “Não vou de metrô. Vou de carro.” Na rua do Rosário, para pegar a 1° de março, havia um carro na contramão. Um carro escrito “segurança”. Não buzinei, nem coloquei farol alto, esperei paciente, que ele desse a ré e me livrasse o caminho. O homem, muito nervoso, piscou mais de 30 vezes o farol alto na minha cara. Não entendi. E pensei: “Ele deve estar achando meu farol alto, mas vou desligar tudo e mostrar pra ele os 3 níveis de farol do meu carro, bem infantilmente”. Desliguei meu farol. Liguei a lanterna. Liguei o farol, e por fim, o farol alto. Dentro de mim, lavas vulcânicas já escorrendo e o homem não parava; me xingava, eu ouvia. Ele foi dando a ré, com o farol alto na minha cara, me xingando. Lembrei do cavalo na ponte, lembrei de Lygia, lembrei do pôr do sol de Niterói, lembrei da chuva assustadora. Chorei. Pensei em nunca mais sair de carro. O homem me fez chorar. Perdi o controle. Não foi choro de buá buá. Eu escorri. Eu vazei. Água saindo de mim. Não xixi, não secreção. Lágrima. Água. O farol iluminando meu rosto exposto. Ele me dizendo as maiores barbaridades, e eu com preguiça de xingar de volta, de colocar farol alto de volta. Preguiça. Ele foi embora. Eu penso na morte. Fechei os olhos, lembrei da vida. Entro no CCBB, a exposição MÁGICA de Anish Kapoor está sendo desmontada. Toneladas de cera vermelha estão sendo retiradas por 4 homens. Homens simples, que comiam tangerina e goiaba no intervalo. A porta estava aberta, e ali fiquei minutos, lembrando do dia que pensei “Agora, vermelho é minha cor favorita”, só por causa do Kapoor. Pensei: “Preciso disso… um pouco disso.” Pedi, com uma simpatia absoluta: “Vocês poderiam me dar um pouco dessa cera?” Os homens riram. Fui rápida e logo arranjei um saco plástico para receber a cera. Me deram um bloco grosso e enorme de cera vermelha. Estranhamente aquela cera, aquele pedaço daquela obra enooooorme e linda, me fez esquecer do homem, do farol alto, dos xingamentos, e logo pensei de novo: “Preciso andar mais à cavalo”. À meia noite, peguei o carro e fui parar na Gávea. No Zero Zero. 00. Não sou fã do local, acho os preços pra lá de absurdos, mas fui prestigiar o aniversário de 3 anos do blog do amigo Bruno Natal, o Urbe. Dentro de mim, as lavas vulcânicas ainda escorrendo. E agora eu tinha cera vermelha até para ilustrar. Pensei: “Preciso de Nego Moçambique pra exorcizar”. Uma hora da manhã, um uísque depois, o cara começa o set. Lembrei de Fela Kuti e das sensações que meu corpo sente com ele. “Music is the weapon”. Sim, sim, sim, sim, sim. O 00 estava cheio, mas aos poucos, o calor e a sede faziam com que as pessoas liberassem lugares na pista. Eu não estava com sede, eu não estava com calor. Eu dancei para os cavalos, eu dancei para a chuva, eu dancei para a ponte Rio-Niterói, eu dancei para Lygia Clark, eu dancei para o homem do farol, eu dancei para a cera vermelha do Kapoor, eu dancei para mim, eu dancei para você, eu dancei para elas, eu dancei para eles. “Só acredito num Deus que saiba dançar”. Eu também, Nietzsche. Quando o set acabou, acabou a noite para mim também. Vamos embora. Após largar 4 amigos em casa, eu me largo em casa. Na cama. Meu travesseiro. Meu amor atual. Sonho que minha cabeça não é grudada ao meu corpo. E eles conversam assim mesmo. A cabeça sozinha no chão, e o corpo sem cabeça, sentado. Já não lembro qual foi a conversa. Só lembro que preciso andar a cavalo em breve.


Quarta-feira cheia, hein, moça? Eu gosto de dias assim como o seu, cheios. Diferente da minha quarta. A única coisa boa foi o nascimento da Júlia!
Olha a minha quarta como foi:
Acordei 15 pras 6. Cheguei no Centro cedo demais, às 7h. Na hora do almoço, ao invés de almoçar, fui ver a filha da minha amiga que acabara de nascer, lá em Humaitá. Voltei, pegando um taxi com um motorista bêbado tentando enrolar a mim e minhas amigas, comi um sanduba da Uno & Due, voltei pro trabalho. Pensei na morte, fechei os olhos e lembrei da vida (rs). Saí do trabalho e fui pra casa (até chegar lá demooora…).
“That’ all folk!”
Ainda bem que você colocou a foto do cavalo que viu, pois já estava imaginando um cavalo solto na ponte!
E quando esse cara aparecer novamente, pode me chamar! rs
Letícia,
A foto do seu post colada ao título do meu, logo abaixo (”Vai com Deus, meu amigo”) está bem engraçada…
sweetie, eu pagaria qq moeda, qq prenda, qq coisa por um dedalzinho que fosse daquela cera.
ha-ha. no primeiro dia q eu fui eu taquei o dedo ali e imprimi em um cartão branco q estava na minha carteira. :)