Depois do Municipal, a farmácia
(escrito em maio de 2006)
“Ciúme me dá frio. Ponho logo um casaquinho para que pare. Sonhei com a ópera. A cabeça no travesseiro e a mente em italiano. La mamma morta. Sempre cai lágrima com Maria Callas. Sempre. E isso destrói meu dia. Hoje vi sua alma vagando pela rua. Digo sua alma, pois eu te matei há mais ou menos 5 meses. Tenho sorte de ter capacidade de sorrir com facilidade. Tem gente que… Não. O resto da pêra que não comi agora está marrom. Microfone com gosto de outra boca não é bom. Sou tão solitária, pai. Sou minha própria lombriga. Estou dentro de mim mesma, me comendo, aos poucos. Aluguei um filme chato. Foi bem constrangedor. Ontem mesmo depois da ópera, sangrei. Não era hora. Acho que foi a ópera. Ela ri com dentes separados e lindos e diz: “Que poético, amiga.” Mas na verdade só sinto cólica. E nada de poesia. Papai comprou um travesseiro de 170 reais que a NASA programou. Vai me emprestar qualquer dia desses. Em Brasília, quase 3 horas. Minha solitária faz barulhos estranhos, depois fica bem silenciosa. Como eu. Faz frio. Sou áspera e tola de ciúmes. O sobretudo não me aquece tanto, mas sobretudo faz peso em meus ombros. O sono sempre vem para quem tem peso nos ombros. Papai vai me emprestar o travesseiro do espaço. E vou ter o sonho mais lindo da minha vida. Não resisto. E chupo o resto marrom da pêra. Meu carro não tem freio. Mas meu pé acha que sim. Antigamente eu me achava profissional. Concluí meu amadorismo hoje, agora há pouco, tremendo de ciúm… digo, de frio. É desconcertante rever almas pelas ruas. Eu sou tão antiga. Tão, tão. Sou tão escadaria do Municipal. Tão. Gosto tanto da gramática utilizada corretamente. É ridículo, eu sei. Mas é mais ainda quando… Papai vai demorar horrores para me emprestar o travesseiro.”
- Só isso, garota?
- Vocês têm remédio pra verme?


E, afinal, a farmácia tinha remédio pra verme?
Eu queria sentir frio… mas não há para me dar frio.
ai…
acho que esse é o meu preferido
doído