- O senhor. Já por aqui? Não tá muito cedo não?
- Fica quieto, Niltim, e põe uma cana aí.
Papai Noel vira o copo numa talagada. Coça a barba branca e puxa o suor acumulado nas dobrinhas do sovaco:
- Calor demais, Niltim. Quero ver se neste ano eu começo o serviço mais cedo e me mando logo pra casa. Assim, no começo de dezembro, entende? Tô velho demais pra esse negócio. Pro calor dessa cidade.
Niltim pergunta se não seria o caso de trocar o trenó e as renas por um helicóptero com ar-condicinado. Papai Noel diz que não, seria um risco, um “suicídio de marketing”, como dizia o agente dele. As crianças poderiam estranhar Papai Noel sem rena.
- Mas posso antecipar a entrega dos presentes. O tempo tá louco, o clima tá louco, qualquer coisa a gente bota a culpa no El Niño, nas calotas polares, no puto do George W.
Nisso, entra um chinês no bar. Daqueles que vendem coisinhas luminosas e piscantes.
- … - diz o chinês, apertando uma lanterninha na cara do Papai Noel.
- Fica pra próxima, campeão - sorri o Bom Velhinho.
- … - ele repete, agora com um minigame equipado com isqueiro e canivete.
- Não, não… Na próxima.
- … - e saca uma caveirinha que dança e toca música.
- Porra, mas tu é chato, hein, xará? Chato pra cacete você. Não tem outro pra encher o saco não? Outro!
E eis que Papai Noel tem a sacação: botar um outro no lugar dele. Vestido de Papai Noel. Todo mundo faz isso, não faz? E não cola? Então: ladrão que rouba ladrão…
- Vais fazer o quê em dezembro, China? Vamo falá de negócio?
- …!!!
Final das contas: para alívio do comércio, das crianças, do Roberto Carlos e de todos aqueles que ainda apreciam o Natal no dia 25 de dezembro, a data foi preservada. E a cidade ficou ainda mais piscante e bunita com todo mundo recebendo só e tão somente lanterninhas, minigames com isqueiro, caveirinhas dançantes, luzinhas, muitas luzinhas, luzinhas made in China.