Laranjada pt.2

A laranjada grande custa 1 real, a pequena 80 centavos e o pastel também 1 real. O dado curioso é que existe uma legenda para os únicos três produtos da loja, isto é, se você pede uma laranjada grande, você ganha uma ficha plástica rosa. Nada mais que uma esfera achatada, pintada com rajados de branco e semelhante a um botão de jogo de botões. Se você pede uma laranjada pequena, você ganha uma ficha azul. E para os pastéis, a ficha é amarela. È possível que eu tenha me embaralhado na cor das fichas, mas o sistema é interessante e simples. Imagino que tenha sido idéia do portuga, que, chegado numa jogatina, transformou a pastelaria num cassininho. Ou talvez tenha sido só uma forma de organizar, que deu bastante certo. Tão certo que mesmo depois da invasão do Mate e do Guaraná Natural nas pastelarias, o menu não muda. Acho genial, é um processo inexistente em outros estabelecimentos da cidade na modalidade Pé Sujo Família. É uma peculiaridade que eu, como habitué, tenho orgulho de destacar. E mudar pra quê, se até hoje nunca deu problema? A massa é caseira e a mistura, que eles preparam numa panela encardida pra botar no meio, também. Se quiser desistir, observe a dança dos recheios e a cara suada do pasteleiro. Mas todo pasteleiro é sujo, não há aí uma novidade. Vá, não desista, o charme está no grude.

Pedi a mercadoria da ficha azul e da ficha amarela com recheio de queijo e fiquei trocando assuntos gastos com o mendigo muito pouco bacana que me abordou pela qüinquagésima vez Ei, moça, me dá teu pastel. O desvalido bate ponto ali comigo sempre, somos praticamente amigos íntimos. Ele sabe onde eu estudo, onde eu trabalho e onde eu moro, é uma espécie de primo de terceiro grau que eu só visito quando vou passear no Centro. E além do mais ele é jovem como eu, temos muitas afinidades. Mas o danado fissura sempre é no meu pastel. Quando eu tenho uma grana left, empurro lá mais uma ficha amarela e mando jogar na baciazinha de plástico comprada no Saara e forrada com aquele guardanapo de papelão de gramatura 40 quilos com seda que escorrega a gordura do dedo e não limpa; um pastel de camarão, que é o que o diabo gosta. Eu sei que ali é o ponto de trabalho dele, eu entendo, mas gostaria que rolasse uma cumplicidade entre a gente, e que a partir de agora ele escolhesse um novo alvo para tentar uma nova amizade e conseqüentemente uma nova fonte de pastéis, pois a minha já está por se esgotar. Eu joguei essa enquanto ele aplicava o discurso manjado dos pinguços na cinderela aqui: Eu tenho fome. Ora, porra, aquele homem tem fome o dia inteiro. Consideremos a sua pança, não é possível que seja só uma colônia de vermes sortidos. A fome está no vinho, eu sei.

A conversa mais ia do que vinha, e, súbito, quando perguntava se eu estava voltando da faculdade, ele veio com um papo de que já tinha tentado cursar uma faculdade de letras há muito tempo atrás, como se me enganasse que pudesse ter mais 15 nos seus 25 anos. Disse que por desgosto havia abandonado o curso. Dei razão ao abandono, o desgosto era a parte plausível de sua história, mas quis saber em troca se ele era assim-assim afins de uma leitura. O roto se espantou e largou um Por quê tu ta me perguntando isso? enquanto me confeitava com farelo de pastel babado. Espanando as faíscas gordurosas com cautela, que é pra não ficar marca de dedo no preto da minha malha, pensei Esse filho da puta já podia me chamar pelo nome. Meu nome é Sandra. Assim Por quê tu ta me perguntando isso, Janeth? Se Janeth fosse o meu nome. Por nada. E eu senti uma necessidade imensa de saber o nome do rapaz. Mandei: Qual é o teu nome? Recapitulando: Por nada, Paulo. Se Paulo fosse seu nome. É porque, se tu fez letras, eu queria saber qual é a tua relação com elas. É a velha curiosidade cristã de todo escritor. E do leitor. Clima tenso, encabulação. Antes que ele cortasse relações comigo por causa da minha orelhada jornalística inoportuna (ele obviamente classificava como top secret a informação que eu cobiçava), desconversei falando que ia chover e emendei com outras amenidades. Vai chuvê nada. Vai é esquentar esse solão mais. Era possível. E a necessidade de chamá-lo de Pedro, mesmo que Pedro não fosse o seu nome, crescia. Eu precisava saber se era um João, um Sérgio, um Cláudio. Precisava de um nome de mendigo pra chamar de meu enquanto a criança só dizia sua graça se eu dissesse a minha primeiro. Ah, o meu é Silvia e o teu? O meu? Rará, o meu é Sexta-Feira. Sandra!

2 Comments so far

  1. letícia -ego puro (unregistered) on October 11th, 2006 @ 4:52 pm

    fichas!

    adoro fichas.

    colônia de vermes sortidos é ótimo.
    quando a gente se encontrar de novo, quero comprar outro livro, tá?


  2. LP (unregistered) on October 11th, 2006 @ 6:07 pm

    Esse mendigo teu amigo :D me fez lembrar de um que vinha tocar a campainha sempre na casa dos meus pais, na Bogari. Toda vez que alguém abria o portão pra ver quem era, ele de terno e chapéu surrados, abria os braços, exibia um sorriso 1001 e mandava: Conterrââââneo! Uma vez eu até perguntei pra ele o porque disso… Ele se surpreendeu: como? você não é de Uberaba? O cara era mineiro mas acabou se perdendo na cidade maravilhosa… Eu ainda o avistei, há alguns anos, sentado em um banco, ali no Largo dos Leões. Mas faz tempo que não o vejo. Deve ter partido para a melhor. Pobres diabos.



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