Quilombo das guerreiras

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O antigo prédio do departamento de engenharia das Docas na Rua Francisco Bicalho está há dezessete anos abandonado. DEZESSETE ANOS sem servir para nada. Na semana passada, um grupo de 150 pessoas que não têm casa própria decidiu ocupar esse prédio para morar. Cerca de metade dessa gente vivia de favor em casas de parentes. A outra metade, na rua mesmo. Eles estão juntos há mais de um ano e formam o grupo “Quilombo das guerreiras”. Há muitas mulheres, duas delas gestantes. Há crianças também. Já participaram de outras duas ocupações, mas foram retirados com a promessa do poder público de que receberiam casas populares. Promessa não cumprida.
O prédio está sujo, com janelas quebradas, sem luz e sem água, por falta de pagamento das Docas. Não havia ninguém vigiando a construção quando as pessoas chegaram. Mas bastou botarem o pé ali dentro para que a construção fosse imediatamente cercada por policiais. A ordem da polícia agora é não deixar ninguém entrar ou sair do prédio. O coletivo conseguiu de um sindicato a doação de um carro pipa, mas os policiais impediram a entrada do veículo. Há gente acampada do lado de fora, inclusive estudantes, dando apoio e fazendo vigília. “Se não fosse a presença dos estudantes, acho que já teriam expulsado a gente à força”, comentou um dos integrantes do grupo. Doações de comida e de garrafas d´água são bem vindas e podem ser entregues através da grade que cerca o prédio.
Apesar das dificuldades, o grupo resiste lá dentro. Organizado de maneira horizontal, sem hierarquia, o coletivo “Quilombo das guerreiras” luta por um direito básico previsto na Constituição Federal: moradia. A Justiça, entretanto, entende que o direito à propriedade, ainda que de um bem sem qualquer função social há dezessete anos, é mais importante, e determinou a retirada dessas famílias, mais uma vez. O prédio está penhorado e 75% do seu valor já pertence a credores das Docas. Está marcada para a próxima segunda-feira a vinda de um oficial de justiça com a ordem de despejo dos ocupantes.

3 Comments so far

  1. Nuno Virgílio (unregistered) on October 15th, 2006 @ 11:09 pm

    É, Fernando: por coincidência, estava agora mesmo conversando sobre isso aqui em casa, sobre a falta de políticas públicas para o problema da habitação no Rio e no Brasil.

    Eu, graças a Deus, tenho um emprego que me permite pagar um aluguel (se bem que essa cultura de aluguel do Brasil também é reflexo dessa inexistência de políticas sérias de moradia), mas fico imaginando se não tivesse…

    Ia morar onde eu pudesse pagar, ia morar numa favela, ia invadir um terreno baldio, fazer como todas essas pessoas fazem, e que o SISTEMA – há cinco séculos programado para reprimi-las, e não integrá-las – trata como bandidas.


  2. Fernando paiva (unregistered) on October 16th, 2006 @ 12:51 pm

    Pois é, rapaz… É uma situação triste. Tô preocupado com a ocupação. Hoje vai o oficial de justiça lá. Vamos ver o que vai acontecer… O mais provável é que sejam mais uma vez despejados, mais uma vez cadastrados em um programa que promete mas não dá casas e fiquem mais uma vez a ver navios.


  3. eu (unregistered) on October 17th, 2006 @ 7:57 pm

    “Não havia ninguém vigiando a construção quando as pessoas chegaram. Mas bastou botarem o pé ali dentro para que a construção fosse imediatamente cercada por policiais. A ordem da polícia agora é não deixar ninguém entrar ou sair do prédio. O coletivo conseguiu de um sindicato a doação de um carro pipa, mas os policiais impediram a entrada do veículo.”

    Só para deixar claro: Havia sim, guardas portuários no local, no momento da “invasão”.

    Não há ordem da policia de não deixar as pessoas entrarem ou saírem, isso seria cárcere privado, há sim, a guarda portuária impedindo a entrada de novos invasores. A saída está liberada.

    O carro pipa, que eu saiba, entrou sim e a água e os alimentos estão entrando pelo buraco que vocês fizeram na grade para que outros invasores entrassem.

    O pessoal lá de dentro não foi devidamente selecionado, a maioria está indo “para casa” dormir ou trocando de lugar com outros que se revezam. ISSO È UMA INVASÃO MESMO…



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