Farol fora d´água

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Igreja da Penha fotografada por Custódio Coimbra. Ao fundo, o Morro do Alemão

Quando chego ao Rio pela Linha Vermelha (que também é rota de todos aqueles que baixam na cidade pelo Aeroporto Internacional Tom Jobim), uma das imagens que mais me comovem é a da Igreja de Nossa Senhora da Penha surgindo no horizonte, ali, à direita do carro

Construída há 135 anos no alto de um penhasco de 70 metros, a igreja se destaca no meio da paisagem amarelada e cinzenta da Zona Norte (aliás, hoje em dia a faixa amarelada de poluição se estende por toda a cidade, note - e chore - quando estiver na Linha Vermelha). Quando era criança e via a Igreja da Penha assim de longe, no fim da tarde, quando ela vira uma silhueta incendiada pelo sol, achava que ela era meio mágica. Um lugar que existia, mas não existia, na minha cabeça de moleque. Ficava com um pé no medo e outro no fascínio.

Tá, cresci, mas a verdade é que sinto a mesma coisa até hoje. Eu às vezes penso na Penha, assim, do nada. Penso nela à noite, quando me deito, e a imagino como um vigia quieto na madrugada, um farol de olhos, mais que de luz, que sabe de tudo o que acontece aos seus pés.

Penso assim na Penha e passo a enxergar através dela, o carro solitário do pai de família numa rua vazia da Zona Norte, ele chegando tarde do trabalho e cronometrando com a mulher a operação de abrir-rápido-o-portão, com medo de ladrão, o beijo rápido no bigode, o prato esquentando no microondas enquanto ele tira o sapato e se esparrama pra ver o “Jornal da Globo”.

Penso em homens jogando sinuca num boteco em Ramos, e um deles se afastando da mesa pra secar a lágrima de uma lembrança empurrada pra fora do peito com a música do Gonzaguinha que vai tocando no rádio. Num velho subindo na laje de bermuda e sandália Itapuã, com uma lanterna, pra consertar o ladrão da caixa d’água que não pára de vazar. Penso no barquinho cheio de cocaína que avança apagado na escuridão da Baía de Guanabara em direção ao Morro do Dendê, e sei que a Igreja da Penha vê tudo isso, viu tudo isso nascer, crescer, quando só era um plano de Deus, e que também nos verá morrer e verá morrer tudo isso, porque a Igreja da Penha está e não está no tempo.

CARIOCAS PAGAM PROMESSA. JÁ A LETÍCIA…

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Com quase 400 degraus, as escadarias da Penha são muito usadas por fiéis para pagar promessas, às vezes subindo de joelhos, como nos mostra essa foto aí em cima, do Claudio Lara. Porque carioca gosta de pagar promessa, sabe? Ao contrário da Letícia, que há uma semana lançou uma promoção aqui no blog e deu o calote em geral.

4 Comments so far

  1. letícia (unregistered) on October 18th, 2006 @ 2:04 pm

    noosa, nunca fui lá, mas te lendo, é como se.

    QUERIDOOOOOO…
    ahhahaha, óbvio que vc ganhou. tua história é a melhor. mas como vc não bebe, pensei em te pagar um bolinho de bacalhau, PILHA?

  2. Nuno Virgílio (unregistered) on October 18th, 2006 @ 2:32 pm

    O sujeito que não bebe é humilhado de todas as formas. O sujeito que não bebe é tratado como um tutelado, um dependente, um incapaz. O sujeito que não bebe é o eterno café-com-leite no pique-esconde. Ele joga, mas só à brinca, nunca à vera. O sujeito que não bebe não é confiável, não tem caráter, não merece o olhar do garçom. O sujeito que não bebe é o débil mental da vila!!!

    Sim, Letícia: aceito o bolinho.

  3. Gleidson (unregistered) on October 18th, 2006 @ 3:03 pm

    Eu bebo! :P

    E não discrimino os que não bebem! Afinal, eles é que estão certos!!!

  4. maíra (unregistered) on October 18th, 2006 @ 3:03 pm

    adoooro autoconhecimento.
    :P


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