Antes (e depois) de nós
Ontem a imprensa divulgou um estudo da ONG conservacionista WWF alertando para o risco de que o estilo de vida da humanidade venha a exaurir de tal forma o meio ambiente que, em 2006, precisaremos de outro planeta igual à Terra para bancar nossos caprichos de consumo.
Hoje, a nossa capacidade de utilização dos recursos naturais é 1/4 maior que a capacidade de regeneração dos mesmos. Em outras palavras: estamos gastando 25% que podemos ganhar, e ninguém precisa ser muito esperto pra entender que em contexto nenhum (da preservação do seu bolso ou do planeta) essa é uma matemática fadada ao apocalipse.
Por conta disso, hoje eu fiquei pensando em como era o Rio de Janeiro antes de nós. Há 500 anos, nossas pedras, pelo menos, não deveriam ser tão diferentes. Olhando o Pão de Açúcar do Aterro do Flamengo enquanto ia para o trabalho, pensava: “Tá, ele deve estar um pouco menor. Alguma coisa mudou em suas arestas, mas mudança leve, no conta-gotas”. Sim, no conta-gotas, vento a vento, chuva a chuva, ano a ano em todos esses milhões de anos que estão atrás de nós.
No Rio, mal ou bem, soubemos preservar os morros, que estão por toda a cidade. Mas não sei se os preservamos porque gostamos deles ou porque eles são apenas mais difíceis de ser destruídos, como fizemos com o Morro do Castelo, berço da cidade, tirado do mapa em 1922, como você pode ler aqui. A maioria dos morros cariocas ou foi superada com túneis, pontes e elevados ou serviu de terreno para as favelas, a versão moderna dos velhos quilombos, como disse o poeta, vergonha de um país que ainda tem muito chão pela frente para superar suas misérias e injustiças seculares (como é relativa a nossa noção de progresso…)
O mesmo destino não tiveram nossas matas e rios. Muitos sumiram, como o Morro do Castelo, ou vão sumindo, subterraneamente ou a olhos vistos. Os rios endurecem, param e morrem. As matas vão sendo engolidas.
No ônibus, olhava os jardins do Aterro e pensava neles com árvores bem maiores que as atuais e uma vegetação mais bruta e mais densa, cobrindo tudo, até o mar - inclusive a pista por onde passava meu ônibus. Entre as árvores, uma sucessão de tempos, primeiro só com chuvas violentas e raios, depois dinossauros, depois macacos e em seguida índios, primeiro em paz, entre araras e sabiás, depois olhando uma caravela entrando na Baía de Guanabara (talvez com o mesmo frio na espinha que a gente tem ao ler os relatórios da WWF).
O fato é que o homem não é nada natural. Pode ser no instinto, mas não é no gênio. O mundo não é para nós, não é adequado para nós, nunca foi. Daí o nosso esforço em mudá-lo, em mudar as coisas de lugar, em sair da floresta e cobri-la com concreto. Progresso e destruição são duas palavras muito próximas no dicionário dos homens, e hoje pensando em como era o Rio antes de nós, cheguei mais uma vez à conclusão de que, pelo menos pros que aqui já estavam, era tudo bem melhor. Nós, homens civilizados, mesmo na nossa ordem (porque às vezes nem ela existe nessa cidade), não somos somente inúteis: infelizmente, nós somos nocivos a tudo que nos cerca. A história da humanidade é linda, eu acho, em seus erros e acertos, mas somente sob o nosso ponto de vista.
Por isso é possível que um dia o Pão de Açúcar, ainda menor e de arestas menos agudas, olhe em volta e veja outras matas e chuvas e raios cobrindo todo o Aterro do Flamengo, outra vez sem barulho de buzina, nem velho fazendo jogging pra correr pateticamente da morte, nem caravela, nem índio, quem sabe um dia o Pão de Açúcar olhe tudo isso lá de cima e lembre com sua memória de elefante que um dia estivemos por aqui, ah, os homens…

Cruzamento da Avenida Rio Branco com a Rua Sete de Setembro, um dos mais movimentados do Centro do Rio: por enquanto
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É lamentável o que fazemos com o nosso planeta. Eu tenho muita vergonha!
E não adianta mostrar esse relatório, pois ninguém se conscientiza! O povo brasileiro só faz o que a TV (leia-se Globo) manda… e a TV brasileira tá cagando pro ecossistema!
Sim, a educação ambiental é sempre um bom começo, Gleidson, mas segundo este e outros estudos o problema do planeta é mais grave. Não adianta mais apenas produzir e preservar, pois o nosso ritmo atual de produção (de energia, comida, bens de consumo) está acima da nossa capacidade de sustentá-lo por muito tempo.
Trocando em miúdos: pra começo de papo, há gente demais na Terra, fazendo as coisas erradas. Alguns, os mais ricos, têm hábitos de consumo e de luxo inadequados para a capacidade de renovação do planeta. Por outro lado, a cada cinco segundos uma criança morre em algum lugar da Terra por falta de comida (uma vez li que o con$umo per capita anual de sorvete na Europa alfabetizaria todas as crianças da Terra, e meio que desisti da humanidade… rsrsrsrs)
Nós, como civilização, precisamos chegar a um consenso, algo que não seja nem o paraíso das delícias de Manhattan, Miami e Paris nem o inferno da fome na África e nas favelas da América Latina.
O lucro (e a urgência) é de todos: continuar com um planeta para viver.
Que barato: parece que a última tentativa de justiça social e desenvolvimento com bom senso não virá de uma proposta política ou econômica, mas da natureza reagindo aos nossos abusos. Dá-lhe, Gaia!
ah gente…. agora a culpa do aquecimento global é da tv globo, que não conscientiza… os manipuladores da opinião pública são omissos e não incentivam as pessoas a agirem! e também tem o capitalismo selvagem que estraga tudo (mas é bem verdade que pelo menos nos livramos dos comunistas, que eram comedores de criancinhas). a tv brasileira é culpada também pela fome no nordeste, pq eles incentivam o consumismo. aí o pobre gasta tudo com cachaça e puta pra esquecer e aí esquece tb de plantar no dia seguinte, por causa de tanta ressaca… e aí fica tudo seco e só piora o aquecimento global…
a tv globo tinha que passar o globo ecologia em repeat, e em horário nobre, que é pro mundo ficar melhor. ela vai perder audiência e vai todo mundo ver a record, é verdade. mas aí é bom que a gente vai poder reclamar direto com o bispo!
(pelamor, a globo noticiou o relatório e noticia sempre assuntos de ecologia. é muito anos 80 botar a culpa na tv globo)
É, o planeta tá castigado. Os grandes culpados?
eua (quase 50% dos gazes) austrália, inglaterra, canadá, china, india, mexico, russia e japão.
excrusive o governo inglês divulgou no México um plano para transformar a floresta amazônica em uma grande área privada. o plano prevê que uma grande área da amazônia passaria a ser administrada por um consórcio internacional.
Mas não julgo patéticos os velhinhos se exercitando. O planeta também é velhinho - tem 4,5 bilhões de anos - e não é patético porque precisa fazer exercícios diários para manter a sua saúde. :)
Ah, e não se esqueça que a floresta da tijuca - a maior floresta urbana do mundo - foi toda replantada no século XIX por ordem do nosso Pedro II.
Muito anos 80? Cadê que ela divulgou isso?
Só pq ela fez um estardalhaço com a Eco-92 não significa que ela se liga nisso… era a “hype” do momento!
E Nuno… eu acho que o nosso fim começou na Revolução Industrial… dali pra cá o homem sentiu mais necessidade de tecnologia do que de natureza!