Amarrando os cadarços
Para Clarice
Andava apressada pelo Largo do Machado. A fome já gritava dentro de mim, e minha mente era povoada por esfihas de carne. Assim andava eu, olhando para frente, desviando de senhoras lentas, não ouvindo gritos dos ambulantes no chão. Mas eu tenho um radar para cores. Coisas coloridas. Juntas então. E assim, cores me chamaram atenção à minha esquerda. Eram cadarços. De todas as cores, amarrados numa tábua de madeira, de maneira que não pude identificar. Como criança em loja de balas, tive dificuldade de escolher uma cor, e ansiosa que só, pensei “Quero todas”. De repente, esqueci da esfiha, esqueci da pressa e esqueci de ver onde o dono dos cadarços estava. E assim, muito excitada com os cadarços coloridos, e já imaginando em qual tênis eu colocaria o vermelho, disse em voz alta, tendo certeza que um senhor que estava sentado, era o dono dos cadarços coloridos: “O senhor pode pegar um vermelho pra mim?”. Concentrada nas cores, só ouvi: “Pode pegar você mesma”, e ali me desliguei dos cadarços e olhei para o homem, dono das cores, que eu julgava estar sentado, quando na verdade, ele não tinha pernas. Ele começava no cu. Não consegui esconder meu espanto de ver um homem sem pés vendendo cadarços. Lembrei da sensação que eu tinha vendo National Geographic do meu pai. As páginas com cobras me encantavam, mas me assustavam muito, a ponto d’eu nunca querer tocar a página. E Bernardo, meu irmão, me forçava a encostar o dedo na página da cobra. E eu descobria que aquilo não me causava dor, só me assustava, mas esse susto me causava um incômodo. E ali, em pleno Largo do Machado, uma cobra, uma cobra enorme, sem pés. Puro corpo. Puro tronco. A cobra, digo, o homem tinha olhos gigantes, a pele negra brilhosa e mãos ágeis, pois além de vender cadarços, consertava solas de sapatos. Já não sei há quanto tempo estou aqui parada, tendo esse diálogo com a minha consciência. Será que minha testa está falando? O que foi que ele disse mesmo? Que eu posso pegar o cadarço eu mesma? Ele não tem pés. Ele não tem pernas. Eu não sei nem se ele tem pau. Mas ele vende cadarços. Hoje mesmo, agora há pouco, eu reclamei pela enésima vez do tamanho do meu pé. Quarenta. Quarenta e um. Assim, por extenso não dói tanto. Mas 40, 41 me incomoda. Quase não acho sapatos femininos para compr… Mas ele não tem nem pés! Preciso falar alguma coisa, qualquer coisa.
- Como tiro o cadarço daqui? Tenho medo de puxar um e vir todos.
- Não, imagina, eu fiz de um jeito que você puxa um e só vai ele.
Claro. Ele fez de um jeito. Ele é um jeito em pessoa. Assustada com a cobra, eu tinha recuado meu corpo, mas ele era uma cobra na página da National Geographic. Não vai doer, não vai doer. Clarice Lispector na minha mente me doía, mas eu não podia deixar ela entrar com tanta agressividade delicada na minha cabeça. Pensei com os meus botões: “Não vou deixar que ele me cause dor, que ele me incomode. Esse homem, esse homem está aqui, sorrindo, trabalhando e conversando palhaçadas com aqueles outros ambulantes… Eu não posso sentir do…”
- Só o vermelho, moça? Você é toda colorida. Tem que levar mais!
Puxei o azul. Puxei o amarelo. Ele fez uma cara de “ahhh, agora sim”, perguntei quanto era. Era barato, era muito barato. A cobra era minha amiga e se enrolava no meu braço. E eu não tinha medo. Nem nojo. A cobra era bonita, e se arrastava pelo chão do Largo do Machado, causando medo e susto nos pedestres. Mas não em mim. Eu era vermelha azul e amarela. Paguei e peguei meus cadarços. Agradeci, dei tchau e entrei no metrô com um zumbido infinito no meu ouvido. Os meus pés são lindos. 40, 41. Lindos.
Semana passada encontrei a cobra de novo. Ele que puxou papo:
- Boa tarde, moça.
E eu, encantada, respondi:
- Boa tarde. Hoje quero uns verdes.
A cobra não era minha amiga, mas demonstrava uma simpatia que me encantava. No mesmo dia subi ao sótão da minha casa, peguei uma National Geographic, achei a foto de uma cobra com a boca aberta gigante, foto macro incrível e repousei a foto sobre o meu rosto. Não era mais uma menina e seu inimigo. Era uma mulher e seu amante.
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Conserta sapatos e vende cadarços… e não tem pernas? É… isso é um trauma, um desejo enorme de ter pernas!
E fique tranquila. Provavelmente ele deve ter pau, pois não estava vendendo camisinhas!
Hahahaha…
Boa, Freud!
Valeu!
…pela tarde cinza de 17 polegadas os flash não se animaram.
Na sede de cores, num devaneio pisco e como alface.
lentamente… intrincadamente… avorazmente.