Archive for November, 2006

Lockie China não vende tempo bom

nuvem.gif Apesar das irresistíveis ofertas de Avice Rawles, Rolan Mehaffey, Lockie China, Vlmzupcjrt, Maurycy Lennox, Engel Herrera, Kristina Conway, Steren Schwartzberg, Easono Rosella, Lindamara, Nguyen Chapman, Abioye Dos Santos, Letty Fong, Thomson D. Carrithers, Selmen Yirmeyehu, Ebony Arellano, Chad Morales, Rubin Naquin, Leta U. Schafer, Queen Engle e Alma Geiger para que eu reduza o meu apetite, perca peso, incremente o metabolismo, queime gordura e calorias e ataque a obesidade, e a despeito das ofertas de Valium a US$ 1,20, Cialis a US$ 3,75 e Viagra a US$ 3,35 a unidade, e não obstante a possibilidade de acabar com os problemas com queda de cabelo, caspa ou oleosidade, isto tornado fácil, molinho, graças aos lucros estupendos advindos da imensa oportunidade de aumentar meus ganhos com ofertas sensacionais de ações com preços baixíssimos no mercado, tudo muito simples, bastando um clique no mouse, ainda assim não vejo remédio, nem solução à vista, nem a prazo, para esta chuva ininterrupta e insuportável que molha a tudo e a todos, e que maltrata os mal-afortunados e esconde toda a paisagem da cidade, não havendo mais Pão-de-Açúcar, nem Dois Irmãos e nem Cristo Redentor que seja, de braços abertos, todo molhado lá no alto, coitado, com essa friagem toda, sem que ninguém o veja.

Hotel Calçada dos Esquecidos

São como a primeira estrela, surgindo quando a noite cai. Sozinhos ou em bandos, rapidamente formam constelações de vênus moribundas, pontilhando as calçadas com seu brilho tosco, três marias quase mortas, orions semi-vivos. Embaixo das marquises, entre o cheiro da pipoca com bacon, do mijo fétido recém-urinado, dos churros e da fumaça negra dos ônibus, aglomeram-se os mendigos da Presidente Vargas. Pipocam não se sabe de onde, como animais da noite, pardos ratos sonolentos, baratas embriagadas de fome. No Hotel Calçada dos Esquecidos, o que um dia foi homem e mulher gradualmente vira uma massa homogênea de mal-cheiro, violência e pobreza.

Na liberdade de um hotel de rua, seus hóspedes são prisioneiros ao ar livre de uma masmorra cruel chamada miséria. Durante o dia, é possível ver a luz do sol no imenso pátio da prisão-cidade-mansão, e ainda desfrutar da praticidade dos seus diversos setores: na ala leste, a fonte da Candelária é a hidromassagem de ervas de lodo podre, ocasionalmente servindo de lavanderia para famílias inteiras; ao sul, um bueiro guardador de pequenos grandes pertences (trapos, pequenos furtos, restos de alguma coisa que ainda importa) é o closet subterrâneo; os banheiros são onipresentes, porém os mais utilizados estão próximos das colunas dos prédios e esquinas escuras.

Por volta das 20h, um imenso dormitório ao ar livre se instala: um aglomerado de exaustão e olhos apertados como se não tivessem sido fechados há dias. A cada noite uma nova concentração no hotel dos horrores urbanos, com acomodações que variam conforme o grau de privacidade eleito pelo cliente ou dos recursos materiais disponíveis: fortalezas de papelão, albergues de jornais, ocas de cobertores sujos, tendas de sacos plásticos. O capricho das habitações ambulantes é resquício de alguma dignidade que ainda resta. Ali, porém, quanto mais se dorme, mais se vive de exaustão absoluta de corpo e, gradualmente, de espírito.

E assim a vida vai e se repete até o sol surgir por trás das torres da Candelária, retomando os leitos às formas originais de calçada e expulsando os hóspedes-criaturas-da-noite de volta às suas catacumbas diurnas em algum lugar da cidade partida.

Cadê o Calder?!

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Um dos grandes nomes da escultura moderna, Alexander Calder ficou conhecido como o criador dos famosos móbiles, esculturas abstratas compostas de módulos suspensos. Seus trabalhos estão presentes nos grandes museus e coleções do mundo e se caracterizam, sobretudo, pela sua leveza e por um lirismo quase pueril. Falecido em 1976, Calder tinha assim, um espírito brincalhão, meio moleque, e por isso se identificou muito com a cultura brasileira. Visitou o Rio em três ocasiões e em duas delas veio para montar suas individuais, que aconteceram no prédio do MEC em 1948 e no MAM em 1959.

O Paço Imperial inaugura hoje, dia 28, uma grande mostra em que apresenta o resultado da fértil relação entre o grande artista e a cidade, particularmente. A exposição apresenta móbiles, stabiles, esculturas, pinturas, desenhos e objetos do artista. Mas, como se trata de Rio de Janeiro, infelizmente temos que acrescentar uma nota triste nesta história. O Parque da Catacumba, ali na Lagoa, possuia há alguns anos um trabalho de Calder que, graças à usual parceria entre o desleixo governamental e a bandidagem de plantão sumiu, tomou doril… Se não foi derretida por algum imbecil — assim como a Jules Rimet — a escultura, que deve valer aí um montão de mil dólares, provavelmente deve estar decorando a varanda de algum bandido nacional ou estrangeiro.

Calder no Brasil I Paço Imperial: Praça XV, 48, Centro I Inauguração: terça, 28 de novembro 2006, às 18h30 [aberta ao público] I Em cartaz até 11 de fevereiro 2007 I Terça a domingo, das 12 às 18h I Entrada franca

foto: Calder fazendo careta pra Baía de Guanabara.

Carro de paulista

Em São Paulo (não sei se é lenda ou não, preciso confirmar com os amigos de saaaaampa, meu), quando um motorista homem leva um amigo homem no carro, mesmo estando com a namorada ou amiga, a mulher vai atrás. E os 2 homens na frente. E vice-versa. Uma mulher dirige. Vai dar carona para uma amiga. O namorado ou amigo da motorista cede o lugar do carona para a amiga. Aqui no Rio damos a este fenômeno o nome de “carro de paulista”. Eu acho que lá em Sampa é carro de carioca. Alguém confirma? Não sei porque acontece isso. Talvez uma educação esquisita de deixar os machos juntos falando de futebol e as fêmeas juntas tricotando sobre produtos de limpeza. Não faz muito sentido. Uma vez eu dei carona para um casal que não conhecia (eu e essa minha mania TERRÍVEL de dar carona para deus e o mundo). Acontece que a mulher, coitada, era extremamente insegura, e passou o caminho inteiro quase sentando no meu freio de mão, de tanto que ela não queria que eu e o namorado dela ficássemos ali na área da frente, juntos, comentando sobre a festa que estávamos ou sobre como fazia calor. Isso porque quando eu entrei no carro, eu vi que eles demoraram mais de 1 minuto para decidir quem ia na frente ou não. Achei estranho, mas fingi que nem era comigo. E a insegurança dela não lhe trouxe discrição. Ela disse alto: “Deixa eu ir na frente com ela!!!”, e o rapaz, educado, respondeu: “Mas duas mulheres na frente essa hora é perigoso, sicrana.” Sicrana fechou a cara, e eu quase parei de usar o retrovisor porque dava medo vê-la bufando. E de toda maneira, perguntava coisas pra ela. O que ela achava, o que ela fazia, onde ela tinha estudado. Uma tola – eu. Mas odeio climão. Odeio. Sicrana com certeza preferiria morar em São Paulo nessas ocasiões caronísticas. Eu não me incomodo com quem vai ao meu lado no carro. Contanto que seja agradável. E atento. Gente que acha que eu tenho poderes de adivinhar que eu preciso fazer a curva AGORA é intolerável.
Mas bom mesmo é carona tarada.
E tenho dito.

Divagações sobre dor, prazer, céu, inferno e telhado de cristal na Floresta da Tijuca

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A dor é extremamente relativa. Isto não é novidade alguma, com bem já sabem os sadomasôs e os penitentes. Ontem levei um porradão da natureza e hoje sofro com prazer. Músculos moídos, a pele do calcanhar direito arrebentada, pernas e braços picados por pequenos insetos draculeanos, mas a sensação de alma lavada e absolvição das agruras auto-impostas, do grande pecado de ter dedicado o último ano quase que inteiramente ao trabalho e estudos e pouco ao lazer.

Minha sessão de chicote e couro foi uma caminhada de 5 horas pela Floresta da Tijuca, mais precisamente no Morro do Queimado, ou Pico dos Cristais, nome poeticamente dado pelo guia gente boa da aventura, inconformado com a total falta de atratividade do nome original. A escolha do nome não foi à toa: segundo ele, é o único morro da região com solo de formação de cristal.

O telhado do Rio não é de vidro, é de cristal. Como os sapatinhos encantados das fábulas. Como a taça daquele vinho que tomei um dia e que quebrou num momento em que minhas mãos estavam mais ansiosas que o normal. O telhado do Rio não poderia ser igual ao telhado da minha casa, de cimento e cocô de pombo. O telhado do Rio se esconde entre arbustos e árvores e exibe o Rio de Janeiro dos cartões postais, dos contornos e curvas belas e imponentes, do Pão de Açúcar, Lagoa e Corcovado.

E, por ser de cristal, o telhado do Rio é frágil e se estilhaça em mil pedaços na bala que come solta no morro e no asfalto, nas marquises de mendigos da Presidente Vargas, na gurizada pedinte dos sinais, no tapa no pé do ouvido que levei do cara que tentou roubar meu celular, da senhora que não quis comida, mas um cobertor para aquecer o bebê dela num agosto nórdico na Visconde de Pirajá. Ali, do alto, lembro que moro na esquina do céu com o inferno.

Lá no meu purgatório de cristal eu não tinha medo de alguma cobra ou aranha que pudesse pular à minha frente. O meu inferno mental particular daquele momento era menos glamuroso: temia aparecer alguém com um facão de cortar jaca e bucho de turista. Jason tropical felizmente não apareceu, então ao final da trilha brindei com água gelada da bica safada e gostosa a uns 400 metros da Mesa do Imperador e fiz voyerismo com um tucaninho colorido que apareceu pra lembrar que o paraíso mora ao lado da mesma selva de pedra onde transito diariamente.

Nascendo

Hoje o Metroblogging me pariu. Ainda tou cheia de líquido cyber aminiótico, chegando agora, quentinha. Foram duas semanas de gestação desde o primeiro convite, alguns desencontros entre conexões lentas durante viagens pelos confins do Brasil e uns dias longos e velozes na ralação cotidiana de trabalho e afazeres. Mas agora estou aqui, nesta noite nublada de domingo, berrando a carga de pulmões já cheios de palavras e verborragias, histórias e estórias, vírgulas e exclamações, indagações e alguns pontos sobre este Rio de Janeiro, suas belezas e infernos, suas sandices, delícias e esculachos. Suas, enfim, carioquices que me fizeram aportar nesta cidade há cinco anos e que mantém aqui, vivendo, morrendo e renascendo a cada dia. Sou uma cigana da caatinga que já rodou um bocadinho, mas o Rio é um tesão e ainda não abro mão.

Vem cá me postar que tou cheia de palavra pra dar.

Frases à vista

bla.jpg Abaixo segue uma lista contendo frases que deveremos ler e ouvir nos próximos dias, em razão do assassinato da socialite Ana Cristina Vasconcellos Gianini Johannpeter, 58 anos, ex-mulher do vice-presidente da Gerdau, um dos maiores grupos de siderurgia do mundo, ocorrido na noite da quarta-feira passada, numa esquina do Leblon.

(Contribua também com outras frases prováveis, fazendo a vida ficar mais divertida e interessante, para nós, que sobrevivemos).

1) Até que ponto vai chegar a violência na cidade do Rio de Janeiro?
2) O Rio de Janeiro é uma das cidades mais violentas do mundo.
3) A violência urbana não é exclusividade do Rio de Janeiro. Ela também está presente em todas as grandes metrópoles do planeta.
4) É preciso implantar a redução da maioridade penal. Os menores que são criminosos devem ir para a cadeia também.
5) Exceto os suicidas, ninguém escolhe a hora e a forma de morrer.
6) A violência é uma característica intrínseca do ser humano. Ele sempre foi e sempre será violento.
7) O combate à violência é responsabilidade absoluta dos governos e os governos têm mostrado incompetência total neste setor.
8) A questão da violência urbana só será resolvida quando todos, governo e sociedade civil, assumirem juntos a responsabilidade pelo seu combate.
9) A violência só é notícia quando a vítima pertence à elite da população. Quando é um pobre o vitimado, o assunto sequer é noticiado.
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Por que amo o Rio

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Estive em São Paulo neste fim de semana. Fui visitar a Bienal. Eu sempre vou. Ossos do ofício. Passeio pela Liberdade, pizza, etc e tal. Sábado, depois da pizza, saímos com um casal de amigos, goianos, que moraram no Rio por quatro anos e agora estão lá. A empresa em que um deles trabalha mudou-se para São Paulo. Resolvemos tomar umas cervejas no Quitandinha, na Vila Madalena, um boteco paulista no melhor estilo carioca. Lá pelas tantas nosso amigo diz que o Rio não tem saída. Que não existe solução para a cidade. Passado o choque inicial tentei explicar as razões históricas da decadência recente. Primeiro a transferência da capital, que não considerou as perdas locais (imaginem o que seria de Brasília se a capital mudasse agora para Porto Alegre, por exemplo…) e depois a fusão da Guanabara com o Estado do Rio, manobra dos militares para diluir o poder da grande oposição carioca. Disse mais. Disse que apesar da proverbial discriminação dos governos federais em relação ao estado, eu via mudanças em curso. Falei nos recentes e futuros investimentos, da Petrobrás e da CSN, principalmente. Meu amigo afirmou que não ia dar certo porque iam atrair apenas “desqualificados” e aventureiros. Eu tentei questionar o argumento maluco. Não foi suficiente porque ele também não gostava dos cariocas. Segundo ele, somos mal-educados, metidos, preconceituosos, excludentes e hostis. Eu tentei dizer que não era bem assim mas, sendo carioca, eu fiquei bem chateado, essa é a verdade.
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Que fim levou?

Tarde de setembro de 2006. Estou subindo a escada rolante do Shopping Tijuca. Pra variar, distraída, com meu Ipod inexistente que cantarola músicas chatas no meu ouvido. Quase nunca vou ao Shopping. Se vou é pra comprar calcinha, meia ou comer empada. Um senhor está na escada que desce. Ele pisca os olhos. Eu observo. Ele cai pra frente. E como não havia ninguém na frente dele, o corpo caiu mesmo. PLOFT. Aquele barulhão. A escada continua funcionando. Início de pânico no shopping. O velho vai virar carne moída. Eu grito para alguém desligar a escada rolante. As pessoas estão chocadas. Eu também. Mas até que consegui gritar. Pensei na minha vó, quase chorei, fez-se um tumulto, achei melhor ir embora. Fiquei com a sobrancelha levantada uns bons minutos.

Madrugada de algum mês frio de 2003. É domingo para segunda, fui levar meu ex namorado na casa dele, perto da minha. Fui de pijamas mesmo. Engraçado. Estamos rindo. Meu campo de visão destaca uma coisa estranha. Peço ao ex, que dirige o carro, para parar e dar ré. Ele obedece, não entendendo. Vejo um senhor passando mal, numa rua abandonada, sem ninguém. Concluo sozinha: ele está tendo um ataque do coração. Colocamos o senhor no carro. E vamos para o Hospital do Andaraí. Minha primeira vez num hospital público. Tudo demora muito. E ainda havia algumas pessoas baleadas de algum tiroteio há pouco. Eu e o ex namorado estamos sensibilizados, o velho vai viver, dizem os médicos. Interrompi um destino ou salvei uma vida? Não sei o que pensar. O hospital me deprime ao máximo. Rafael chora feito menino, logo eu não posso chorar também. Dou um abraço. Não podemos esperar a família do velho, já está tarde. Vamos embora.

Meia noite de duas semanas atrás. Estou saindo do estúdio no Grajaú. Chove. Chove muito. Preciso deixar o guitarrista perto de algum ponto de ônibus para proteger a guitarra dele da chuva. Estou numa rua que não conheço bem. Em direção ao Méier, de repente, CUIDADO, LETÍCIA! Um cavalo correndo louco pela rua. Coloco o pisca alerta. Estamos rindo. Do ineditismo. Mas quando passo ao lado do cavalo, percebo: “É uma égua, e ela vai parir daqui a pouco”. Anos de infância em fazenda deram nisso. Fico com pena, nervosa e com medo de algum carro não a vir debaixo de tanta chuva. Deixo o amigo num lugar, volto pra casa. Relato a situação para uma amiga, que me dá o telefone da Defesa Civil. Eu ligo, eles pedem para eu ligar para a polícia. Eu ligo. Demora. O homem não entende muito bem o que eu quero dizer. Eu explico como se explicasse para uma criança. Ele diz que vai tomar providências. Eu não acredito. E desligo.

Hoje pensei no velho que caiu na escada rolante, no velho da rua deserta passando mal e na égua prenha. Não sei que fim tiveram. Torço por todos. Que um tenha acordado bem, que o outro tenha curado o coração de ataques e que ela tenha parido bem um lindo potrinho em plena madrugada chuvosa carioca.

Eu?
Eu estou é brincando de viver.

Cine Roxy, uma história de amor.

—Chamaria carta secreta do velho oeste ou crônica de um amor pouco ou meu coração bate à meia-noite ou um cão lambeu meu pé ou um dia esponjoso ou se por demais, foi por de menos ou perfume de senhoras ou unhas vermelhas de Carmem Maura ou suar suar suar ou ritmo rouco ou uma rua à esquerda após o sinal ou patadas escusas por debaixo da mesa ou pálpebras dobradas ou ela não ligou nunca mais ou sim, eu queria tanto ou tentação crocante ou escada rolante de shopping center ou assiste deitado e dorme ou garganta inflamada ou um ipê chora ou o sol brilha laranja na parede ou calma, calma, mas tudo passa tudo passará ou suco de amora gelado ou disco arranhado do Fernando Mendes ou cabelos soltos ou passarinho calado vive em gaiola dourada ou quanta agonia, Azucena! ou frigideira chiando ou ele costuma jogar pôquer ou cavalo-marinho, cobra-do-mar ou alguma coisa assim:
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