Amém

Lembram daquele homem que anda pelo Centro da cidade vendendo CDs com canto de passarinho, e que foi assunto deste meu post aqui?

Pois bem: na última quarta-feira eu finalmente falei com ele, depois de anos apenas observando-o do meu canto, assim, de longe.

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A capa do CD: só passarinho campeão

A história: quarta-feira passada, umas nove horas da manhã, desço do ônibus no Castelo. Dali até o lugar onde eu trabalho são uns cinco minutos andando, o que na escala de Virgilius corresponde a somente-mais-uma-música-no-MP3-player, ou seja: hora da minha saideira, já que não ouço música enquanto estou dando duro na lavoura, e só tenho direito de voltar planamente a esse prazer lá pelas seis da tarde.

De maneira que, na minha rotina de pacato cidadão da civilização, essa última música antes de eu botar os pés no trabalho costuma ser uma decisão séria, solene, pois a faixa em questão pode determinar o meu humor pelo resto do dia (é sério, doutor!).

Mas como mistério pouco é bobagem, neste dia eu decidi sacar na playlist uma música chamada “Morro do Ar, Ilha D’Água”, que eu compus (para um projeto musical meu chamado Nha Trang) pensando no tal homem que vende CDs com cantos de passarinho no Centro da cidade (é, ando por aí escutando as minhas músicas como escuto Mozart, Bob Dylan e Orbital; gosto delas, que diabos, e como posso esperar que outras pessoas façam o mesmo se eu não for capaz disso, não é verdade?).

O lance dessa música, como já contei no outro post, é que a escrevi pensando no homem que vende os CDs com canto de passarinho. E como o conheci neste pedaço do Centro por onde eu ando de manhã cedo (o trecho entre o Castelo e o meu trabalho, na Rio Branco), trecho onde o vi várias vezes ao longo dos últimos anos e que sempre me vem à cabeça quando ouço essa música (digamos que essa geografia é um videoclipe natural e sentimental pra ela), na quarta-feira me veio uma vontade de voltar à sensação que tive quando a compus, eu acho, por isso fiz o tal trajeto com ela no ouvido.

Aí o susto: estou eu na esquina da Sete de Setembro com a Rio Branco quando começo a ouvir uns passarinhos misturando-se à música no meu ouvido e ao barulho da rua. “Peraí”, pensei. “Esse passarinho aí não tem na música!” (a música tem mesmo uns cantos de passarinho – se quiser, ouve aqui). Escuto de novo, tiro os fones do ouvido, e aí vejo aquele senhor de cabelo branco, boné e bermuda carregando um CD player portátil e uma sacola cheia de CDs e fitas gravados com canto de passarinho.

Tomei coragem pra falar com ele, o que eu adiava há anos, sei lá por quê – mas estava muito claro: tinha que ser NAQUELA quarta-feira – e cheguei perto:

– O senhor vende esses CDs? (é, na minha falta de jeito eu fiz essa pergunta cretina)
– Vendo sim.
– São cantos de passarinho, né?
– Sim, senhor.
– Quanto custa?
– É sete reais…
– Eu quero um.
– Este aqui?
– Pode ser (abri a carteira) Ihhhh… O senhor troca cinqüenta?
– Ih, rapaz… Troco não… Tô chegando agora…
– Então o senhor pode me esperar enquanto eu vou ali no Bradesco? É rápido (eu tinha muita coisa pra dizer a ele há tanto tempo, não poderia deixá-lo ir embora)
– Espero, claro, meu filho (e aí ele encostou numa arvorezinha da Rio Branco, segurando o aparelho de som com o volume no talo, como se segurasse um balde cheio de canários cantando)

Fui ao banco correndo e voltei com uma nota de dez:

– Aqui, ó. O troco é seu.
– Meu?
– Sim.
– Brigado.
– É o senhor que grava esses CDs?
– Não, um amigo meu. Grava num estúdio. Leva os passarinhos e grava (nessa hora eu fiquei sem jeito ao vê-lo sem jeito com o fato de não saber exatamente o que eu queria com aquele papo sobre a procedência das cópias, piratas obviamente)
– Só passarinho campeão, né?
– Ahhhh, esses são… Todos campeões de canto.
– E como é que eu faço pra encontrá-lo outras vezes? Não sei, talvez pra comprar outros CDs, de outras aves. Tem algum contato aqui no encarte?
– Não, mas pode anotar o meu telefone.
– Pode dizer.
– Meu nome é Antônio. O número é XXXX-XXXX.
– Tá certo… (eu anotando num papel)

(silenciozinho, apesar do canário digital no volume 10)

– Eu vejo o senhor vendendo esses CDs há muitos anos. Sempre quis parar pra comprar, mas nunca parei. Eu o admiro muito, saiba disso.
– Ô, meu filho…
– Eu também sou músico, como o senhor pode ver aqui (aí apontei pro baixo que eu carregava nas costas). Uma vez eu fiz uma música em sua homenagem.
– Pra mim?
– É, fiz. Queria reencontrá-lo para lhe dar um CD com ela gravada. Posso?
– Claro, meu filho. Claro (tirou o boné e coçou a cabeça, sorrindo um sorrisão)
– Eu vou telefonar, então. E marco de lhe entregar o CD. Olha, foi um prazer conhecê-lo, seu Antônio.
– Jesus te abençoe, meu filho.
– Amém.

Apertamos as mãos e tomamos nossos rumos. Ele rindo. Eu também, com os olhos cheios d’água e a certeza de que naquele instante, não sei por quê, eu estava encerrando um ciclo na minha vida.

6 Comments so far

  1. maíra (unregistered) on November 6th, 2006 @ 10:35 am

    que lindo, nuno. fiquei marejada tb. (um pouco mais que o default. rs)
    beijos de liberdade.


  2. Paulo (unregistered) on November 6th, 2006 @ 12:08 pm

    Encerrando? ENCERRANDO? p*rra nenhuma, esse ciclo ta é começando.


  3. Gleidson (unregistered) on November 6th, 2006 @ 12:25 pm

    Já parou pra pensar o quanto a vida do ancião foi modificada? Mesmo que um pouco, um mínimo, mas foi.
    A sua também, claro!

    A gente vive fazendo isso e não se dá conta.

    Muito show, cara!
    Tem gente que vive querendo encontrar Roger Waters, Bob Dylan, Pete Townshend ou outro dinossauro… você queria encontrar Antônio dos canários digitais! E encontrou! Muito bom!!!


  4. Deborat (unregistered) on November 6th, 2006 @ 12:38 pm

    “Como mistério pouco é bobagem”, na sexta-feira o vi pela primeira vez, enquanto carregava pilhas de livros a serem trocados… Pensei: vou levar um desses (cds) pra minha mãe, que é do tipo de pessoa que não tem (nem quer ter) canário em gaiola… Mas isso já é outra história, qualquer dia te conto.
    :)
    beijos,


  5. letícia (unregistered) on November 6th, 2006 @ 3:46 pm

    ai nuno…
    agora tô eu aqui sorrindo um sorrisão.

    =..)


  6. Leo Lichote (unregistered) on November 6th, 2006 @ 6:46 pm

    Sou teu fã, rapaz. E do velhinho tb



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