Pares

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Morro Dois Irmãos, no Leblon. Foto emprestada daqui.

Ontem, numa mesa de mar, as mulheres estavam decifrando para os homens o mistério da menstruação sincronizada. É, se você não sabe, assim como os homens gritam “GOL!” ao mesmo tempo, as mulheres sangram juntas quando estão juntas, seja morando numa mesma casa, viajando juntas, mãe e filha (esqueci de perguntar: e as lésbicas, como sobrevivem? Duas mulheres juntas de TPM deve ser o armagedon do capeta)

O lance é que eu também menstruo junto com uns cidadãos aí. Bom, eu acho que menstruo. São pessoas que eu não conheço, nem de nome, mas que encontro com uma freqüência que me assusta pela improbabilidade, considerando-se o tamanho dessa cidade e a quantidade de gente que circula e vive nela.

Por exemplo: tem um cara com quem eu esbarro quase todo dia no ponto de ônibus quando estou indo trabalhar. O encontrei hoje de novo. Às vezes nos vemos também na volta pra casa. A gente consegue o absurdo de chegar ao mesmo tempo no ponto de ônibus, como se viéssemos em direção ao espelho desde casa. E nós não somos dois doentais mentais que fazem tudo todo dia no mesmo horário. Eu, pelo menos, não saio de casa na mesma hora de segunda a sexta. Tem dias em que eu me atraso, outros em que saio mais cedo, mas mesmo assim encontro o sujeito, o cara de terno, gravata e fones de ouvido – ele já olha pra mim meio bolado.

Esse aí é um caso extremo, mas há outros. Tem um careca de óculos escuros que sempre pega o mesmo ônibus que eu (ele tem a opção de pegar uns 20 por minuto, mas ele pega o meu). O mesmo acontece com uma lourinha, pelo jeito minha vizinha de quadra. E outros, consigo lembrar de mais dois agora.

O que pode ser isso: ou eles me perseguem (mas graças a Deus ainda não cheguei nesse estágio de paranóia) ou então tem gente por aí formatada que nem a gente, e isso fica mais evidente quando vivemos numa cidade grande que abriga mais dos nossos pares. Gente que compartilha conosco aquele mesmo ponto das nossas rotinas.

Quando eu era criança, minha mãe falava de uma teoria nada científica, mas fascinante, de que todo mundo tem uma pessoa idêntica a si em algum ponto do planeta. Quem aí nunca viu uma pessoa na rua que fosse muito parecida consigo? Eu, então, devo ter um shape muito ordinário, porque todo mundo diz que eu pareço com alguém (e esses alguéns costumam ser muito diferentes). Ou dizem que já me viram em algum lugar – e eu sei que não viram.

Talvez não haja tanta variedade humana no mundo como nos quer fazer crer a matemática da genética e suas infinitas combinações. Fatores como cultura, estado, economia, manias e paranóias devem anular a individualidade que deveríamos ter se, por exemplo, entre 8 e 9 horas da manhã metade desta cidade tem que sair de casa e ir para algum lugar ganhar seus trocados. Em outras palavras: de que adiantam teus genes customizados se o mundo geralmente nos oferece tantas possibilidades quanto os quatro sabores de Miojo?

Mas eu tenho esperanças, sabe? Talvez a gente seja o rascunho de alguma pessoa que um dia vai dar certo. Eu, o cara que eu encontro todo dia no ponto, a lourinha que vai no meu ônibus: todos nós croquis de um indivíduo que será melhor que a gente. A evolução sendo feita em paralelo, caso a caso, as cidades como um grande laboratório de ratinhos brancos, 6 bilhões sacrificando-se em seus equívocos pra que lá na frente a gente tenha uns 30 mil seres humanos sensacionais – e o Mundo Perfeito caberia em Barra do Piraí.

Aí um dia em eu e meu par chegaremos no ponto de ônibus na companhia de um terceiro: um cara de terno escuro, gravata vermelha, com cauda e nadadeiras. Vamos nos entreolhar, os três, e aí o cara das nadadeiras vai dar um urro com sua boca sem dentes, largar a pasta e sair correndo pela Hilário de Gouveia em direção ao mar, arrancando os sapatos e o terno, e vai se atirar nas ondas e sumir pra sempre, e sua última lembrança será a gravata vermelha cuspida de volta à areia pela espuma, porque às vezes a evolução do mundo é a involução da espécie.

2 Comments so far

  1. Gleidson (unregistered) on November 10th, 2006 @ 10:44 am

    “evolução do mundo é a involução da espécie”

    Muito bom, isso!


  2. letícia (unregistered) on November 10th, 2006 @ 12:18 pm

    HAHAAHAHAHHAHAHAHAHA

    ai, querido, que bom que o papo do sangue te inspirou pra escrever um texto tão bacana quanto esse!

    (;



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