Cine Roxy, uma história de amor.

—Chamaria carta secreta do velho oeste ou crônica de um amor pouco ou meu coração bate à meia-noite ou um cão lambeu meu pé ou um dia esponjoso ou se por demais, foi por de menos ou perfume de senhoras ou unhas vermelhas de Carmem Maura ou suar suar suar ou ritmo rouco ou uma rua à esquerda após o sinal ou patadas escusas por debaixo da mesa ou pálpebras dobradas ou ela não ligou nunca mais ou sim, eu queria tanto ou tentação crocante ou escada rolante de shopping center ou assiste deitado e dorme ou garganta inflamada ou um ipê chora ou o sol brilha laranja na parede ou calma, calma, mas tudo passa tudo passará ou suco de amora gelado ou disco arranhado do Fernando Mendes ou cabelos soltos ou passarinho calado vive em gaiola dourada ou quanta agonia, Azucena! ou frigideira chiando ou ele costuma jogar pôquer ou cavalo-marinho, cobra-do-mar ou alguma coisa assim:

Cine Roxy, uma história de amor.

Quando você, encantado com os meus olhos castanhos e encovados, quando você passou a mão no meu rosto e disse baixinho tu é uma flor, quando você, de olho nos meus dentes de sabre, falhou a voz ao tentar dizer qualquer frase de amor, quando você, meu amor, meu amor, no táxi, no banco de couro escuro, lá longe, o mar e as palmeiras da Avenida Vieira Souto iluminada pelos postes amarelos, meu amor, quando você me agarrou as coxas e me beijou a boca, revolto e agitado, na rádio FM tocava música romântica e, de olhos fechados, eu soube que vivia uma história de amor.

As ondas farfalhavam brancas e o vento levantava meus cabelos enquanto o taxista procurava por entre as ruas transversais o tal restaurante tailandês. Você completava vinte e oito anos e eu me enfeitiçava com os seus mecanismos de sedução à moda antiga: ganhei doze rosas virtuais e uma vermelha e macia.

Comemos lula perfumada e fingimos conversar alguma coisa. Você pediu para sentar perto, mais perto, perto, perto. Eu deixei e vi que tinha olhos de cristais brilhantes, um cabelinho saindo do nariz e mãos corpulentas. Durante o jantar, alternava a lula entre os beijinhos na bochecha, perto da orelha, na maçã do rosto e na ponta do nariz. Uma delícia, à meia luz. Pedimos a conta, zarpamos para minha casa e, lá, depois de saltar do táxi sozinha, dizia adeus e sorria.

A culpa é do chapéu, meu amor. Ou quem sabe, dos seus olhos de cristais e dos meus dentes de sabre…Mas o fato é que, quando atravessamos de mãos dadas a Avenida Nossa Senhora de Copacabana vazia, vazia, tarde da noite, depois de uma sessão água com açúcar no Cine Roxy, eu olhei para a lua cinza, escondida sob o véu de uma nuvem à toa, olhei para o céu e depois para o asfalto escuro que cintilava em pedrinhas mínimas sob as luzes néon das marquises dos bingos, das casas de show e do próprio letreiro vermelho ‘Cine Roxy de Copacabana’, eu olhei para tudo isso, meu amor, e, muito tímida, olhei para você, e disse com meus olhos:

– Sim.

Mordia fininho o bico dos peitos, você revirava os olhos, iluminando a casa inteira, e dizia, baixinho, meu amor, meu amor. Passeava nua sobre o seu peito asmático, a mão, a perna, o rosto; todos nus. Enroscava sobre o colchão – como uma flor de maracujá? – enquanto você avançava a qualquer custo as mãos corpulentas e os beijos molhados por entre as transversais do meu corpo, peixe elétrico no fundo abissal do mar.

Usei os cílios como instrumentos de amor. Sorria, olhava para o céu, para a lâmpada amarela, para a rosa no vaso, para os desenhos das sombras, para as palmeiras que farfalhavam verdes lá fora, meu amor, eu sorria com os olhos e com o corpo inteiro; estrela dourada de cinco pontas, cauda de cometa e poeira lunar.

Um bando de chapéus rasgava o espaço e eu fazia carinho em você, você, você. Dormimos abraçados, alados, até um canário cantar. Quando, às oito, às nove, às dez, você acordou sobressaltado, me beijando a boca e, alegando estar atrasado, zuniu para o chuveiro, o dorso nu, asmático, sob a luz do mundo que invadia a casa, sacudia a cabeça debaixo da água gelada e energicamente esfregava o sabão madrepérola pelo corpo inteiro, do pescoço até os pés.

Da sacada da janela, com um lenço de seda, disse adeus, boa viagem, meu amor, é o fim, o fim, o fim! Você ergueu o braço, ajeitou o chapéu, mandou beijinho e zarpou montando num cavalo branco Copacabana afora, sabe-se lá para onde, lá longe, quem sabe, – em incursão para o Pantanal? -, quem sabe, lá longe, adeus, adeus, adeus.

Esperei você sumir das vistas, esperei, esperei, esperei. Um vento forte bateu, um leão rosnou. E aí, quando os créditos subiram e invadiram a paisagem em letras garrafais, eu soube, de olhos abertos e castanhos, eu soube, meu amor, que tudo acaba nesse mundo, tudo, tudo, tudo, e mesmo assim, sob todas as luzes, sob todas as águas turvas e palavras à toa, eu vivia uma história de amor.

3 Comments so far

  1. letícia (unregistered) on November 21st, 2006 @ 2:14 pm

    eu te amo, amo o roxy e teus olhos.
    o homem de chapéu não.

    welcome, my dear natty dread.


  2. Nuno Virgílio (unregistered) on November 21st, 2006 @ 6:13 pm

    Sim, baby… O coração do Metroblogging Rio voltou a bater.

    Seja bem-vinda, Natércia.


  3. Priscila Blix (unregistered) on November 23rd, 2006 @ 12:52 pm

    eu e todos agradecem tua chegada, contadora de histórias um tanto sonhadas.



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