Por que amo o Rio

Estive em São Paulo neste fim de semana. Fui visitar a Bienal. Eu sempre vou. Ossos do ofício. Passeio pela Liberdade, pizza, etc e tal. Sábado, depois da pizza, saímos com um casal de amigos, goianos, que moraram no Rio por quatro anos e agora estão lá. A empresa em que um deles trabalha mudou-se para São Paulo. Resolvemos tomar umas cervejas no Quitandinha, na Vila Madalena, um boteco paulista no melhor estilo carioca. Lá pelas tantas nosso amigo diz que o Rio não tem saída. Que não existe solução para a cidade. Passado o choque inicial tentei explicar as razões históricas da decadência recente. Primeiro a transferência da capital, que não considerou as perdas locais (imaginem o que seria de Brasília se a capital mudasse agora para Porto Alegre, por exemplo…) e depois a fusão da Guanabara com o Estado do Rio, manobra dos militares para diluir o poder da grande oposição carioca. Disse mais. Disse que apesar da proverbial discriminação dos governos federais em relação ao estado, eu via mudanças em curso. Falei nos recentes e futuros investimentos, da Petrobrás e da CSN, principalmente. Meu amigo afirmou que não ia dar certo porque iam atrair apenas “desqualificados” e aventureiros. Eu tentei questionar o argumento maluco. Não foi suficiente porque ele também não gostava dos cariocas. Segundo ele, somos mal-educados, metidos, preconceituosos, excludentes e hostis. Eu tentei dizer que não era bem assim mas, sendo carioca, eu fiquei bem chateado, essa é a verdade.
É estranha essa situação. A impressão que tenho é que somos proibidos — aqui no Rio — de gostar da nossa cidade. Somos obrigados a fazer parte do coro local e nacional dos críticos da cidade do Rio de Janeiro. Qualquer demonstração de amor próprio ou auto-estima é visto por aqui como ufanismo bairrista. Defender — dos ataques — a terra, a cultura e o povo daqui é sinal de arrogância. Em São Paulo há bandeiras do estado e da cidade em inúmeros locais: igrejas, escolas, empresas, instituições públicas e privadas. Os táxis e ônibus têm as cores paulistas. Por aqui isto soaria ridículo e seria motivo de chacota. Não sei se a síndrome de (auto) repulsa ao Rio de Janeiro e aos cariocas faz parte daquela velha mania nacional de hostilizar o sucesso alheio. Se o mundo todo, quando pensa em Brasil, pensa sobretudo no Rio, ora, isto é um grande problema. Alguém enfiou na cabeça a idéia de que, para um dar certo, o outro tem que fracassar. Chega dessa bobagem, não é?
“Cada parte do teu corpo
Cada flecha envenenada
Flechada por pura inveja
é um pedaço de bairro
é uma praça do Rio
Enchendo de horror quem passa
Que na cidade tranqüila
Sarada cada ferida
Tudo se transforme em vida
Canteiro cheio de flores
pra que só chorem, querido,
Tu e a cidade, de amores”
trecho de Sebastian, Sebastião - Gil e Milton
Foto: Sol nascente no morro do Borel
No related posts.


Realmente foi muito chato ter que ser comparado ao Dado Dolabela como esteriótipo do carioca (sic). A cidade tem n lados ruins, a gente sabe. Assim como todas as cidades. E a gente fala sobre eles, diferente de São Paulo, que esconde seus sequestros e demais crimes. E assim como eu torço para que São Paulo, ou Goiânia, ou qualquer outra cidade seja melhor, gostaria que torcessem para o Rio ser uma cidade melhor. Gostaria também que a mídia parasse de só falar de SP, “a maior cidade do Brasil”, e que o governo parasse de só dar valor a SP. Afinal o Brasil é muito maior do que sua maior cidade, assim como é muito maior do que sua cidade maravilhosa… Se a gente se sente assim, preterido, imagino o que não sentem as pessoas que moram no interior de Alagoas, ou de Rondônia…
Luiz, não se preocupe, acho que é assim em qualquer lugar. Em Porto Alegre e Brasília, pelo menos, que são as cidades que conheço melhor, parece que é obrigado a se falar mal do povo que nela mora (como se 1 milhão ou mais de pessoas pensasse da mesma maneira), e de como as coisas vão mal no Brasil, mas ali são ainda piores.
É estranha essa situação. A impressão que tenho é que somos proibidos — aqui no Rio — de gostar da nossa cidade.
estranhíssimo.
como diz meu primo brasiliense:
“goiano é foda”
hahaha
sacanagem!
de onde tu bateu essa foto?
Ele bateu da janela do meu quarto, na Usina. Mas inclusive esse morro iluminado é o da Formiga. O Borel está do lado esquerdo, sendo que a favela está (por enquanto) do outro lado da montanha. Por algum tempo eu ainda tenho arvorezinhas para olhar e miquinhos para ouvir assoviar todas as manhãs. Barulho das balas (e as próprias balas, que já chegaram no meu prédio), só à noite, mas quem sabe por quanto tempo…?