Que fim levou?

Tarde de setembro de 2006. Estou subindo a escada rolante do Shopping Tijuca. Pra variar, distraída, com meu Ipod inexistente que cantarola músicas chatas no meu ouvido. Quase nunca vou ao Shopping. Se vou é pra comprar calcinha, meia ou comer empada. Um senhor está na escada que desce. Ele pisca os olhos. Eu observo. Ele cai pra frente. E como não havia ninguém na frente dele, o corpo caiu mesmo. PLOFT. Aquele barulhão. A escada continua funcionando. Início de pânico no shopping. O velho vai virar carne moída. Eu grito para alguém desligar a escada rolante. As pessoas estão chocadas. Eu também. Mas até que consegui gritar. Pensei na minha vó, quase chorei, fez-se um tumulto, achei melhor ir embora. Fiquei com a sobrancelha levantada uns bons minutos.

Madrugada de algum mês frio de 2003. É domingo para segunda, fui levar meu ex namorado na casa dele, perto da minha. Fui de pijamas mesmo. Engraçado. Estamos rindo. Meu campo de visão destaca uma coisa estranha. Peço ao ex, que dirige o carro, para parar e dar ré. Ele obedece, não entendendo. Vejo um senhor passando mal, numa rua abandonada, sem ninguém. Concluo sozinha: ele está tendo um ataque do coração. Colocamos o senhor no carro. E vamos para o Hospital do Andaraí. Minha primeira vez num hospital público. Tudo demora muito. E ainda havia algumas pessoas baleadas de algum tiroteio há pouco. Eu e o ex namorado estamos sensibilizados, o velho vai viver, dizem os médicos. Interrompi um destino ou salvei uma vida? Não sei o que pensar. O hospital me deprime ao máximo. Rafael chora feito menino, logo eu não posso chorar também. Dou um abraço. Não podemos esperar a família do velho, já está tarde. Vamos embora.

Meia noite de duas semanas atrás. Estou saindo do estúdio no Grajaú. Chove. Chove muito. Preciso deixar o guitarrista perto de algum ponto de ônibus para proteger a guitarra dele da chuva. Estou numa rua que não conheço bem. Em direção ao Méier, de repente, CUIDADO, LETÍCIA! Um cavalo correndo louco pela rua. Coloco o pisca alerta. Estamos rindo. Do ineditismo. Mas quando passo ao lado do cavalo, percebo: “É uma égua, e ela vai parir daqui a pouco”. Anos de infância em fazenda deram nisso. Fico com pena, nervosa e com medo de algum carro não a vir debaixo de tanta chuva. Deixo o amigo num lugar, volto pra casa. Relato a situação para uma amiga, que me dá o telefone da Defesa Civil. Eu ligo, eles pedem para eu ligar para a polícia. Eu ligo. Demora. O homem não entende muito bem o que eu quero dizer. Eu explico como se explicasse para uma criança. Ele diz que vai tomar providências. Eu não acredito. E desligo.

Hoje pensei no velho que caiu na escada rolante, no velho da rua deserta passando mal e na égua prenha. Não sei que fim tiveram. Torço por todos. Que um tenha acordado bem, que o outro tenha curado o coração de ataques e que ela tenha parido bem um lindo potrinho em plena madrugada chuvosa carioca.

Eu?
Eu estou é brincando de viver.

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2 Comments so far

  1. Ângela (unregistered) on November 24th, 2006 @ 1:34 pm

    No dia 21 de abril…
    Estavámos eu, meu filho, amiga com mais duas crianças indo de barca até Niterói para ver Miró no sensacional MAC.

    Eu e as duas crianças de 7 anos ali na frente, junto às correntes apreciávamos a belíssima visão da baía de Guanabara. Outras pessoas também. Uma delas, que entusiasticamente fotografava o vistão, subitamente, passa pela corda e PULA.

    Isso mesmo. PULA, NA NOSSA FRENTE, NA ÁGUA.

    Eu levo as crianças para as cadeiras, onde a outra mãe está com a filhota de 2 anos. A barca pára num quase cavalinho de pau. Uma mulher desanda a chorar “aaaah, o homem se jogooou”, correrias, seguranças correm, um dos meninos pergunta “ele fez suicídio?” E eu: nããão, magina, ele tava querendo só se refrescar nessa água, num dia tão bonito. Mais correria, mais gente andando de um lado para o outro querendo ver das janelas onde o rapaz estava, bóias são jogadas, pessoas pulam para salvar. O moço é resgatado e fica sentado levando um carão do segurança da barca.

    As crianças pedem para voltar para ver a vista. Eu, relutante, volto para a corrente. E para a belíssima vista. E aí, a brasilidade aparece. Uma dona, rindo e falando alto “ah, tinha que estar no Faustão”. Eu repreendo: o rapaz está sentado aqui, ele vai ouvir, por favor, pare. Ela responde “eu fiquei nervosa”. Eu faço cara feia: sim, todos nós, e nao eh o caso de zombar. Ela sai. As crianças ficam perguntando “como o motor não pegou ele?” e eu desconverso, “olha a ponte” “olha o avião”…

    O rapaz tá lá sentado, todo molhado, cara triste, olhando para baixo, sendo vigiado por dois seguranças. Eu e mais umas pessoas encostadas na corrente olhamos a vista. But… umas que ali estão só querem chatear o deprimido cidadão, até que um, longe de mim, ainda bem, senão eu ia me meter, chama o cara de babaca e que atrasou a barca. O segurança que até então olhava feio para o fracassado suicida, começa a brigar e gritar com o sujeito “num tá vendo que o cara tá com problema?”

    Dois jovens conversam, e um fala para o outro “não acredito que vc foi capaz de gritar homem ao mar!” O outro responde: “quando mais teria oportunidade de usar um clichê desses?”

    Saímos da barca, o rapaz saiu antes acompanhado pelos seguranças. Meu filho comenta “acho que ele vai levar uma bronca por ter pulado…”

    Ainda bem que o MAC estava mais lindo que nunca, a paisagem sensacional, e Miró brilhante. Passou.

  2. bete (unregistered) on December 8th, 2006 @ 3:12 pm

    nossa guria quanta história boa.

    Já fui no Andaraí muitas vezes, da dó de quem precisa na Emergência/ Urgência e olha que não é de todo mal, tem coisa bem pior…


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