Hotel Calçada dos Esquecidos

São como a primeira estrela, surgindo quando a noite cai. Sozinhos ou em bandos, rapidamente formam constelações de vênus moribundas, pontilhando as calçadas com seu brilho tosco, três marias quase mortas, orions semi-vivos. Embaixo das marquises, entre o cheiro da pipoca com bacon, do mijo fétido recém-urinado, dos churros e da fumaça negra dos ônibus, aglomeram-se os mendigos da Presidente Vargas. Pipocam não se sabe de onde, como animais da noite, pardos ratos sonolentos, baratas embriagadas de fome. No Hotel Calçada dos Esquecidos, o que um dia foi homem e mulher gradualmente vira uma massa homogênea de mal-cheiro, violência e pobreza.

Na liberdade de um hotel de rua, seus hóspedes são prisioneiros ao ar livre de uma masmorra cruel chamada miséria. Durante o dia, é possível ver a luz do sol no imenso pátio da prisão-cidade-mansão, e ainda desfrutar da praticidade dos seus diversos setores: na ala leste, a fonte da Candelária é a hidromassagem de ervas de lodo podre, ocasionalmente servindo de lavanderia para famílias inteiras; ao sul, um bueiro guardador de pequenos grandes pertences (trapos, pequenos furtos, restos de alguma coisa que ainda importa) é o closet subterrâneo; os banheiros são onipresentes, porém os mais utilizados estão próximos das colunas dos prédios e esquinas escuras.

Por volta das 20h, um imenso dormitório ao ar livre se instala: um aglomerado de exaustão e olhos apertados como se não tivessem sido fechados há dias. A cada noite uma nova concentração no hotel dos horrores urbanos, com acomodações que variam conforme o grau de privacidade eleito pelo cliente ou dos recursos materiais disponíveis: fortalezas de papelão, albergues de jornais, ocas de cobertores sujos, tendas de sacos plásticos. O capricho das habitações ambulantes é resquício de alguma dignidade que ainda resta. Ali, porém, quanto mais se dorme, mais se vive de exaustão absoluta de corpo e, gradualmente, de espírito.

E assim a vida vai e se repete até o sol surgir por trás das torres da Candelária, retomando os leitos às formas originais de calçada e expulsando os hóspedes-criaturas-da-noite de volta às suas catacumbas diurnas em algum lugar da cidade partida.

1 Comment so far

  1. Sidarta (unregistered) on December 2nd, 2006 @ 5:45 pm

    Muito bonito seu texto. Mas pipoca bom bacom é muito bom.

    Abraços,



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