“You changed your name
Well that’s okay, it’s necessary
And what you leave behind you don’t miss anyway” - U2, “Gone” (1997)
Em meados do século 1, Saulo de Tarso era um caçador de cristãos. Até que um dia ele ouviu a voz de Cristo: “Saulo, por que me persegues?”. Saulo foi derrubado de seu cavalo por um raio e ficou cego - seus olhos foram cobertos por uma escama. Ao recuperar a visão, Saulo converteu-se ao cristianismo e tornou-se o maior pregador da palavra de Cristo em toda a história. Para que essa transição ficasse marcada (e ele deixasse de ser o homem que caçava cristãos para os romanos e virasse mártir do cristianismo), Saulo mudou de nome e virou Paulo, o apóstolo Paulo, ou São Paulo, como o chamam os católicos.
Como acontece em diversas culturas e religiões, o nome é sagrado na tradição judaico-cristã. Deus não gosta que o nome Dele seja pronunciado em vão, e perguntado por Moisés como se chamava, Ele disse simplesmente: “Sou o que é” (”Jeová”, em português). Ao entrarmos no Reino de Deus, diz a Bíblia, todos nós receberemos uma plaquinha entregue por Deus escrita com nosso novo e definitivo nome. Nosso nome pra sempre. Não somos ainda, portanto, o nome que nos define. Não somos: estamos.
Depois da tragédia de 12 de junho de 2000, o ônibus 174 deixou de existir. Na verdade, a linha não foi interrompida, o trajeto continua o mesmo, ligando a Gávea à Central do Brasil, mas o “nome” dele mudou. O 174 agora é 158. A antiga numeração foi sepultada pela empresa, e com ela talvez o estigma ruim daquele traumatizante fim de tarde em frente ao Parque Lage. Todo mundo quer esquecer o 174. Ninguém esquece o 174. Mas agora, pelo menos, ele é um ônibus fantasma que roda apenas na nossa cabeça.
O Edifício Rajah, na Praia de Botafogo, fez fama (ou má-fama) nos anos 80. Imenso e desgovernado como uma nave louca, aparecia no jornal toda hora: tráfico de drogas, assassinatos, estupros, brigas. Me contaram que tinha uma oficina de motos em um dos apartamentos, e que um cara foi atropelado e morto no corredor. Depois de um choque de ordem e administração, parece que o Rajah mudou um pouco. Tanto que mudou de nome: agora é Edifício Solymar.
Nos anos 70, os moradores do Edifício Barata Ribeiro 200, uma espécie de avô do Rajah (e semelhante em tamanho e má reputação) tentaram impedir que uma peça inspirada nele (”Um Edifício Chamado 200″, de Paulo Pontes) entrasse em cartaz. Eles tinham medo de que a peça reforçasse o estigma de cabeça-de-porco do lugar. A peça acabou liberada, foi um sucesso, e até onde eu sei o prédio continua mesmo. Mas mudou de nome anos atrás: agora é Barata Ribeiro 194.
A gente tenta de tudo, mas nem sempre muda. Paciência. De fé em fé, de grão em grão, de nome em nome, um dia chegaremos a Paulo.