Um trem chamado samba e a viagem que continua

Em teoria, no último sábado 02 de dezembro o Rio de Janeiro entrou num trem da Central do Brasil pra comemorar o Dia Nacional do Samba. Só na teoria. Na prática, o Rio de Janeiro entrou no trem pra pandeirear os pandemônios nossos de cada dia, levando o desgracê lá longe e deixando as energias boas da cuicagem telecutearem com o tamborim incendiário que amolece os quadris. E longe é láááá nos cafundós pra quem praticamente só conhece o rio pra turista (pros que tem a pouca vergonha de não conhecer o resto desta cidade de tantas cidades). Longe é Oswaldo Cruz, parada final do trem do samba e ponto de chegada da farra que enche a alma de música, alegria, mocotó e reflexões que se prolongam vida adentro.

Numa ensolarada tarde de sábado partiu a cigana da caatinga em direção à Central do Brasil, trocando um quilo de feijão por um bilhete de ida para uma estação que ela jamais havia ouvido falar. No vagão de janelas emperradas, ela era mais uma sardinha enlatada entre a) um sovaco cabeludo cujo dono encontrou no teto do trem seu balacobaco e b) umas senhoras animadíssimas entoando todas as batidas com seus bundões de 2km². Espremida, a cigana ainda conseguiu sambarolar uns “vai vadiáááááá, vai vadiáááááá, vai vadiáááááá, vai vadiááááááá”, mas tava na cara que ela era turista da zona sul que só samba na Lapa e acha que isto já lhe dá autoridade para dizer que entende de samba (entre uma das grandes descobertas da noite, ela descobriu que é ainda mais ingnorante do que imaginava).

Meia hora de aperto, sovacada na cara, fedor de coisa queimando além dos trilhos e sorrisos imperando na cara e o trem pára na estação final. A mulherada desce em polvorosa: são litros e litros de urina acumulados em centenas de bexigas explodindo de cerveja, tentando se aliviar ainda ali nos trilhos do trem, alívio este interrompido por um segurança que pede pra que pelamordedeus não façam isto com ele. E elas riem e imploram, afinal mijar na rua não deve ser privilégio apenas de macho, que não precisa pedir licença. Os direitos iguais devem sem garantidos até mesmo na sem-vergonhice.

Oswaldo Cruz é subúrbio. Suburbão. Daqueles que grande parte da zona sul nunca ouviu falar, não sabe apontar no mapa, nem tem o menor interesse em conhecer. Daqueles que no folheto da programação ainda precisa se explicar para o povo da zona sul que lá em O.C. o povo da zona sul não precisa se preocupar não, pois se o povo da zona sul tiver bolsa pra guardar, a dona da casa vai levá-las para um quartinho bem seguro e ainda oferecer água pra matar a sede do povo da zona sul. Tava lá escrito na programação, não foi invenção da cigana.

Lá por trás do canal fedorento, tão podre quanto o do Leblon (pelo menos no Rio de Janeiro o fedor é igual para todos), depois de ser espremida pra passar entre a multidão e barracas de salsichões apetitosos para estômagos famintos e mulheres carentes, a cigana e sua trupe fincaram acampamento na roda de samba de uma casa de quintal grande, galinheiro enfeitado com bolas natalinas e um banheiro externo em forma de casinha. A casa, aberta a qualquer fã de samba ou aventureiro que por ali quisesse aportar, pertencia a uma senhorinha de 93 anos, fã de Zeca Pagodinho e avó da genuinamente simpática senhora de bermuda de lurex coladérrima no corpo (de pelo menos uns 20 kg acima do padrão Posto 9 Coqueirão de ser). Essa mesma senhora fritava hambúrguer e calabresa acebolada bem ao lado da mesa onde o grupo da cigana regava o bucho com cerveja, afinal cabelo que se preze tem mais é que ser defumado. Essa mesma senhora que, agradável surpresa, engatou num francês trés bien, merci beaucoup, ao descobrir que entre os amigos da mesa havia uma francesa original. E fez até crepe especial, hours menu, para aquele grupo de visitantes que, entre dois cariocas, incluía um grupo de estrangeiros: uma francesa, um chileno e três pernambucanas. Crepe maravilhosamente degustado, acompanhado de caldo de mocotó e angu a baiana, exatamente como manda o Celidônio. A cigana lambia os beiços e pedia mais.

O final da noite no quintal aconteceu embaixo de uma frondosa mangueira, com todos pagodeando na roda que tinha puxada pra entoar até o sol raiar, mas a trupe já havia descoberto e experimentado o encantador mundo de O.C, lá onde a senhora de lurex e seu companheiro convidam os recém amigos a dormir nas suas casas caso estejam cansados pra voltar (“as mulheres na minha casa e os homens na casa dele”). Olhem só, quem sabe até um case pra entrar no panfleto da programação do ano que vem. Mas bom mesmo seria se o subúrbio não tivesse que dar satisfações.

O epílogo desta jornada ainda está em andamento na vida da cigana, após algumas reflexões extremamente lugar-comum mas de fato tão pouco pensadas: 1) que do outro lado do Rebouças o Rio de Janeiro é negro. Preto, mulato, negão, negona, tição. Lindo. 2) Que na verdade, como bem colocou uma das cariocas da trupe, é ela quem mora num gueto chamado zona sul.

E ainda bem que existe o samba pra unir vários lados de uma mesma cidade.

3 Comments so far

  1. Lene (unregistered) on December 5th, 2006 @ 12:48 pm

    muito bom o texto!! rico em detalhes, fácil fácil aguçar a curiosidade de quem por aqui passar os olhos. embarquei no trem só pelas palavras bem escritas!! parabéns :)


  2. Gleidson (unregistered) on December 5th, 2006 @ 3:47 pm

    puxa… fui convidado a ir e não fui!
    :(


  3. letícia (unregistered) on December 6th, 2006 @ 3:13 pm

    que texto ótimo.
    e as conclusões não são lugar comum não.
    tem gente que ainda não entendeu que a zona sul é uma ilha.



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