Polaroides
Volto pra casa à tarde no 461 lotado e fico de pé, bem à frente da menina morena que dorme sentada com o seu cabelo preso em rabo de cavalo, a cabeça tombada pra frente mergulhada em uma sacola de papel da Shop 126, enquanto segura, esquecida, uma carta escrita à mão com uma esferográfica azul. Tento ler indiscretamente o seu conteúdo de letras meio infantis. Diz lá, aqui e ali, “simplesmente”, “janeiro” e “outro amor”.
*
Enquanto isto os dois colegas de trabalho se aproximam do fundo do ônibus. Têm vinte anos. Um muito branco, um metro e noventa ou mais, um passageiro quase alemão, fica à minha direita de pé. O outro, um neguinho, baixinho e franzino, à minha esquerda, de pé. Eu entre os dois. Tem inicio a conversa:
- Periquito falou que roubaram o celular dele lá dentro no serviço. Começa o alemão.
- Isso é o que ele diz! Responde o neguinho. Isso é o que ele diz!
- Falou que levaram, na moral!
(…)
- Alguém viu ele entrar com o celular? Arrombaram o armário dele?
(…)
- Falou que custou dois mil na loja.
- rá-rá! e aquele ali tem celular de dois mil? Comprou celular de noventa e diz que é dois mil. (…) Ele fez beó? fez beó? Não fez é porque ninguém roubou é nada, tá ligado? Aí depois do beó ainda tem que fazer queixa na delegacia, aí sim…
- Ainda tem isso. Conclui o alemão.
*
A menina segue dormindo, cabeça dentro da sacola, carta meio amassada na mão direita.


uma vez, no metrô, um menino ria muito lendo um livro, só que de onde eu estava, eu só via a parte de trás. mas ele tinha um sorriso tão tão tão… mudei de lugar, disfarcei ridiculamente e vi a capa:
Karl Marx in English.
ele devia ter 13 anos…