Caixa de entrada

Querida amiga,

É estranho viver em um país baixo, sonho constantemente que o mar invade minha rua. Estou morando no cruzamento da Lijnbaangracht com a Rozengracht. Demorei duas semanas para falar isso direito. Acho que desaprendi a nadar. Você sabe que mesmo morando no Rio, eu não gostava muito de ir à praia, mas agora, aqui, nesse país baixo, sinto falta de me lançar num espaço com água. Diga a Dani que sinto muita falta dela, e constantemente lembro daquela madrugada dentro do Extra. Já mandei dois emails para ela, mas ela nunca respondeu. Começo a achar que… Bem, não sei. Cheguei à conclusão que só gostava de mulheres estrangeiras enquanto ainda morava no Rio. Pelo destaque, pela diferença. Aqui todas são estrangeiras para mim. Loiras, branquelas e bebem muita vodka. Saudades de uma castanha, que tope um chopp. Você não me falou muita coisa amorosa no seu último e-mail. Te achei muito magra na foto que você me mandou. Uma que você está com os cachorros, no sítio. Acho que vou entrar numa natação, eu sei que não combina comigo, mas acho que pode me ajudar. Se minha mãe souber, ela me mata. Anos e anos pagando natação do Flamengo, e a gente indo para o parque Lage fumar um. Eu nunca te disse isso, mas eu era apaixonado por você naquela época. Preciso repor mais minutos, se não a Lan House me corta. Espera um pouco. Voltei, minha querida. Não sei porque disse aquilo. Estou vivendo constantemente chapado, no início foi ótimo. Coffe shopp all day long. Altos passeios. Agora estou cansado, estou na mesma página do último livro do Saramago há três semanas. E acho que estou broxa. (Ou seria brocha? Não escrevo em português há um tempo já) Essa porra deve ser por causa da maconha holandesa. As mulheres daqui não curtem “give head”. Fico logo desanimado. Preciso te contar uma porra: outro dia fui num museu e vi várias pessoas pagando a entrada com cartão. Só que elas só passavam e pronto. Sem digitar a senha, entendeu? E eu fiquei “caralho, como assim?” Chapado toda vida, perguntei pra mulher porque não era necessário digitar a senha. A mulher riu e disse que o governo holandês teve muitos problemas no passado com gente que esquecia a própria senha. Você leu isso? O governo mudou uma lei por causa do seqüelismo. A Lan House é animal, tem teclado fodão com acentos. Detalhe: rola de fumar num canto. Lapa perde. Na agência só falamos inglês, mas tem uma mulher que insiste no holandês. Acho que deve estar me sacaneando.Teve uma festa aí, ela quis me dar, eu não quis comer. Ficou putinha. No seu último e-mail te achei distante, a idéia de vir pra cá está morrendo, não está? Quando é que você vai largar essa cidade? Eu sei do seu apego com o Palácio do Catete, mas aqui tem um Palácio do Catete elevado ao cubo, porra! Faz frio e você, muito magra, vai ter muito frio. Mas esse papo de “eu sou solar” não cola comigo. Estarei te esperando com um casaco enorme de lã. Você vai para Paraty no feriado? Compra duas garrafas daquela cachaça de banana, naquela parada que tem antes da cidade. Preciso daquilo. Preciso de você, cara amiga. Acabei de ver que chegou um e-mail da Dani. Vou abrir. Espera. Nossa. Ela só escreveu: Nunca esqueci daquela madrugada no Extra. Sucinta. E linda. Traga Dani pra cá. Volto pra casa de bicicleta. No início congelo a cara, depois até dou uma suada. Estou com saudades dos trópicos, nunca pensei que eu fosse falar isso, mas: ME LEVA para as Paineiras, vamos dar banana para os macacos, sua louca! Você faz falta nessa terra laranja. Uns amigos viram fotos suas e ficaram com aquela babação “brazilian gals, brazilian gals”. Você gostaria de um deles, tenho certeza. Ele tem a cara desses homens loucos que você se envolve. Envolve é uma palavra muito escrota.Vou parar de fumar, pra te receber mais são. É isso. Não esquece a cachaça de banana, beijo na boca da Dani e eu te amo muito.

PS: Outro dia passei mal de rir lembrando da gente no Mineiro com aquela velha que vende incenso. Você pra lá de Bagdá querendo saber qual incenso trazia tranqüilidade e ela tentando te vender um que trazia criatividade. E você gritando: “Meu bem, eu tô criativa, mas não tô tranqüila…”

Um beijo do seu amigo alto, do país baixo,
B.

4 Comments so far

  1. Gleidson (unregistered) on December 15th, 2006 @ 8:19 am

    Lindo!

    Um dia, ainda recebo uma coisa dessas! E se me chamarem pra Holanda – só uma vez, não mais que isso – vou sem pensar muito!


  2. Helton (unregistered) on December 15th, 2006 @ 10:48 am

    Minha nossa, Letícia, vc é muito talentosa mesmo… sempre leio o metroblogging, mas nunca postei nada. Esse texto é bom demais… parabéns…


  3. Helton (unregistered) on December 15th, 2006 @ 11:04 am

    Ou será que é um e-mail mesmo?


  4. Nuno Virgílio (unregistered) on December 15th, 2006 @ 1:01 pm

    Foda.



Terms of use | Privacy Policy | Content: Creative Commons | Site and Design © 2009 | Metroblogging ® and Metblogs ® are registered trademarks of Bode Media, Inc.