Happy New Year!

Está resolvido. Entre as minhas decisões de ano novo está ir embora dessa cidade no fim do ano de 2007. Chega! Basta! Enough! É hábito comum por aqui tomar decisões de ano novo, fazendo promessas de coisas aparentemente impossíveis de se realizar durante o ano, normalmente, sem o espocar dos fogos de artifício no alto de nossas cabeças. Alguns querem parar de beber ou fumar, emagrecer, fazer um curso, mas eu quero é me mandar. Demorei pra entender isto mas, afinal, caiu a ficha. Na verdade fui convencido pela maioria dos que moram aqui, cariocas ou não, que o Rio é uma merda, mesmo. Não é brincadeira não! Nos últimos dois meses ouvi de várias pessoas que Brasília, São Paulo, Londres, Paris, Nova Iorque, mas também Curitiba, Goiânia, Porto Alegre, Londrina e Salvador são lugares muito melhores para se viver do que o Rio de Janeiro. Em verdade vos digo, isso se dá graças ao altíssimo nível de exigência daqueles que moram aqui. Os moradores da cidade são, invariavelmente, seres excepcionalmente bem dotados em sensibilidade habitacional, de modo que esta cidade, estes cheiros, esta história de reis e malandros, estas montanhas, este sotaque, as celebridades em cada esquina, esta fama e apelo singular, toda esta praiosidade, enfim, por demais perturba a sua natureza requintada, nobre, bem-estudada, caprichosa e mal-acostumada no bom sentido, que não se satisfaz com pouco. Deve ser isto. Pra quem já está acostumado com a beleza de si mesmo, com a sua biografia imaculada, limpa, sem papéis no chão, deve ser um tormento ter de dividir seu espaço com tanta gente desqualificada e mal-educada e entre tantos absurdos inadmissíveis, tais quais carros estacionados na calçada, gente urinando na rua, etc e etc, essas coisas que a gente reclama sempre, enchendo o peito para vaticinar que os brasileiros são assim e assado e os cariocas então, nem se fale.
Os outros, ah, os outros… Já dizia Sartre que os inferno são os outros, mas por aqui, meus amigos, os outros são muito mais que infernais. Este outro onipresente, nas filas, nos mercados, na praia, diversos outros, mas sempre e irritantemente cariocas. Alguém já tentou vender o Brasil pros EUA, faz um tempo. Eles não quiseram porque teriam que ficar com o povo também. O problema é o povo. No nosso caso a gente podia vender o Rio pra São Paulo e viver o resto dos nossos dias de férias no Balneário Camboriú, na Costa do Sauípe ou mesmo em Cancun, jogando golfe e ouvindo música contemporânea francesa. Bacana, mas não vai rolar o Dimitri no iPod porque os paulistas não querem nem por um caralho comprar a cidade e vir junto essa cabeçada de flamenguistas, botafoguenses e vascaínos. Tricolores ainda vai lá, mas o resto?… Ah, que falta faz um povo genuinamente europeu aqui nessa cidade. Não digo português, porque português não é europeu, de verdade. Estou falando assim de uns franceses, uns ingleses, ou até mesmo uns italianos, seria bom, assim como eles têm lá em São Paulo. Faz muita falta. Se bem que não é só isso. O calor também não ajuda porque nem dá pra gente se vestir direito. Fica essa gente aí de bermuda e chinelo, essa coisa horrível de carioca suando, um horror. E tem o agravante da geografia, porque os pobres também querem morar na zona sul, mesmo que nas favelas, e, embora a zona sul seja uma porcaria comprovada cientificamente, como todos dizem, vai tirar o cara ali do Vidigal… com vista pro mar, desceu do morro tá na praia, cervejinha no Leblon… É ruim, hein? As autoridades tentam explicar para os pobres que a zona sul é uma droga e o subúrbio é que é maneiro, mas eles não acreditam… É uma pena. É uma lástima. Porque fica todo mundo junto demais aqui no Rio. Não tem espaço nem separação. Preto, branco, rico, pobre, sulista, nordestino, todo mundo colado, suando… Mas isto vai mudar. Pelo menos para mim. Se Deus quiser no próximo reveillon eu vou vestir uma cartola dourada e à meia-noite, depois da champagne, vou cantar com a minha gente: Should auld acquaintance be forgot and never brought to mind? Should auld acquaintance be forgot and days of auld lang syne?
Foto: Ano novo em Seaport Village, San Diego, California.


Bravo! Bravo! Bravo!
Concordo plenamente!
Já havia comentado antes que eu nasci no lugar errado…
Estou aqui rolando de rir. Ai ai ai…
Cara, esse texto é um monólogo no ponto.
lp sim.
:)