Meu lugar favorito do Rio

placa.JPG

Quando eu tinha 6 anos (deve ser o milésimo texto que começo assim, começo a me achar chata, nostálgica e repetitiva. Talvez eu precise escrever para preservar minha boa memória, que cada vez mais acho tão louvável, afinal, sou neta de um Alzheimer, e minha mãe só me chama de Lúcia), minha mãe buscava os filhos no colégio, e vez ou outra, quando ela estava com ânimo, nos levava até a Praça dos Bichinhos. Esse é o carinhoso nome que a Praça Hans Klusmann tem. A praça fica no final da rua Sabóia Lima, na Tijuca. Área nobre do bairro, onde mansões com grandes jardins encantam seja pela beleza própria ou pelo espanto de perceber que logo ali do lado, há uma das entradas para o Morro do Salgueiro. A rua Sabóia Lima é sem saída. A praça dos Bichinhos fica bem no final, colada ao pedaço de Floresta da Tijuca que fica mais para baixo. Há um riacho, vez ou outra um pouco sujo, mas na maioria das vezes, limpo. Na época que a dengue impregnou a cidade, a praça ficou abandonada, tamanho medo das mães, de deixarem seus filhos correndo riscos maiores do que um escorregador colado no corpo de um dinossauro. É. Isso mesmo. A praça dos bichinhos, adivinhe só, é cheia de bichos.

Feitos por dois artistas plásticos que moram numa casa bem em frente à praça. Na porta da casa do casal, lê-se com letras infantis: Ana e Paulo. Nunca vi nenhum dos dois, ou então já vi, e nunca soube que eles eram eles. Sei que após um longo dia num colégio de freiras, onde eu rezava para que minha caligrafia melhorasse e dizia “que assim seja”, ao invés de dizer “amém”, tudo o que eu queria era a praça dos bichinhos. Mágico de Oz perdia. Os caminhos que me levavam até o camelo eram pisados com força e uma alegria devastadora para uma asmática. Havia também a girafa, mas dela eu só comecei a gostar agora há pouco. Na época, ela me constrangia. As mães ficavam sentadas num banco, num pequeno coreto, feito pelo Paulo e pela Ana. Eu me perdia montando a zebra, tinha medo do Saci e achava que, de fato, a Emília era minha amiga. Havia também os bichos que davam medo. Uma coisa o “lado proibido de Lagoa Azul”. Era uma cobra comendo um porco. Sim. Em tamanhos reais. Eu não gostava nem de olhar. O riacho era um oceano. Onde havia um pequeno barco (em tamanhos reais!!!) encalhado nas pedras, uma baleia (em tamanhos filhotes) e um polvo. O polvo vivia sem braço. Sempre quebrava. Fazia-se amizade em um segundo, sem distinção de idade, classe social ou sexo. Eu tinha 5 e um menino do morro de 10 aceitava brincar de expedição ao fundo do mar comigo. Naquela época eu não me lembro de me incomodar com os mosquitos. Minha mãe sim. E íamos embora, cansados. E eu, claro, sonhava que meus braços eram duas trombas de elefante. Como eu adorava subir no elefante. Não sei em que ano foi, mas a violência aumentou numa velocidade rápida. Meio que de repente, palavras como “tiroteio” e “bala perdida” ganharam vida própria nas nossas bocas. A praça ficou meio abandonada, e conta-se até que muitos bandidos iam para a Floresta da Tijuca por ali. A tinta dos bichos foi acabando. E tudo foi ficando cinza. E nunca mais praça dos bichinhos. Mas o Paulo e a Ana devem ser os dois seres humanos mais lúdicos do planeta e resolveram dar um jeito na praça. Anos depois resolveram pintar, fazer novos bichos, dar uma geral. Rola um boato, que só depois dessa iniciativa, a Prefeitura resolveu iluminar e cuidar mais do local. Pausa de quase 10 anos. Em 2001, voltei à praça dos bichinhos. E é o tal negócio: essa coisa que a gente guarda na infância é pior que tatuagem. Fiquei em silêncio, dando voltas na praça, montando no elefante, na vaca, no rinoceronte. Momento sagrado. Minha letra já era bonita, eu já sabia quando falar “amém” e quando falar “que assim seja”. Um brinquedo favorito guardado numa caixa. Depois de uma década. Talvez mais, me perco nas contagens. Um brinquedo do tamanho de uma praça. Hoje em dia vou lá quase uma vez por semana e faço questão de levar as pessoas que amo. E todos dizem: “Por isso que você é assim, né Letícia?” Mas hoje em dia, devo dizer que os mosquitos me fazem querer ir embora. Hoje em dia eu entendo que eu sempre posso voltar depois.

Um beijo para o Paulo e para Ana, que eu tenho certeza que ainda vou dizer “olhos nos olhos”: obrigada
E Feliz Ano Novo pra vagabundo geral.

bicho%2001.JPG
bicho%2002.JPG
bicho%2003.JPG
bicho%2004.JPG
bicho%2005.JPG
bicho%2010.JPG
bicho%2008.JPG
bicho%2009.JPG
bicho%2011.JPG
bicho%2012.JPG
bicho%2007.JPG

11 Comments so far

  1. letícia (unregistered) on December 21st, 2006 @ 12:48 am

    eu não soube posicionar bem as fotos. talvez eu devesse diminuir mais…
    enfiã…
    foi!


  2. Estrangeira (unregistered) on December 21st, 2006 @ 5:39 am

    NO início pensei que vc ia falar da Xavier de Brito, aí lembrei que ela é a dos Cavalinhos , no Rio Comprido, onde os bichos são vendidos e as crianças dão voltinhas de cavalo. Um lugar triste, pra mim. Ufa.
    Os bichinhos da sua pracinha são bem mais felizes.
    Não conhecia, mas agora sei de onde vem as fotos.
    Um beijo e bom dia…

    Bárbara


  3. Nuno Virgílio (unregistered) on December 21st, 2006 @ 8:25 am

    Quando eu era criança, à noite os meus pais me levavam na Praça das Bichinhas, na Glória.


  4. maíra (unregistered) on December 21st, 2006 @ 9:13 am

    amei!


  5. Cesar Cardoso (unregistered) on December 21st, 2006 @ 3:41 pm

    O Rio é uma cidade que, definitivamente, guarda segredos incríveis.


  6. Lipe (unregistered) on December 22nd, 2006 @ 10:12 am

    Me senti tão honrado de me ver incluído nas “pessoas que eu amo” embora não tenha dúvidas do nosso “caso”.
    Sempre ouvi vc dizer deste lugar e quando conheci , vc me abriu a porta de um mundo mágico(as usual)e eu pude recolher mais um pedacinho da sua história e ver a praça estampada em você hoje em dia.
    Obrigado.
    Obrigado Ana & Paulo.


  7. Tainá (unregistered) on December 22nd, 2006 @ 1:16 pm

    poxa…vc nunca me levou lá ;-(


  8. Ângela (unregistered) on December 22nd, 2006 @ 3:17 pm

    eu te falei, eu gosto de catar com meu filhos os cajus gigantes que ficam nas árvores :)
    Eu amo esse lugar, sempre levo meus amigos, namorados, maridos. Tb ia, desde pequena. E claro, parei de ir por anos. Durante um tempo, passei a achar que tinah sido uma viagem de ácido minha e subi a rua.
    ainda bem que não ;)


  9. Ângela (unregistered) on December 22nd, 2006 @ 3:21 pm

    ah, sim, eles moram na casa que fica em frente, que tem um aquário no muro ;)


  10. Dani (unregistered) on December 23rd, 2006 @ 7:58 pm

    II nunca fui nessa pracinha.
    Aliás fico pasma comigo mesma. Como não conheço o Rio direito, nem ao Maracanã eu fui ainda.. bizarro :/
    Se um dia quiser me levar pra essa pracinha, eu vou feliz.
    :)


  11. marcelojhonas (unregistered) on December 23rd, 2006 @ 11:17 pm

    Ja fui lá com uma antiga namorada…



Terms of use | Privacy Policy | Content: Creative Commons | Site and Design © 2009 | Metroblogging ® and Metblogs ® are registered trademarks of Bode Media, Inc.