Ora, ora, dona Aurora

Querido metroblog:
Sei que ando relapsa com você, prometo melhorar.
Só vim aqui dizer que ontem tive uma experiência antropológica incrível. Vi um mendigo, uma madame, uma mulher pobre com 3 filhos e um senhor de paletó, todos felizes e próximos um do outro.
Onde?
Em frente à C&A tijucana, claro.
Eu também ia parar pra receber um ar que não estivesse acima dos quarenta graus, mas achei melhor ficar de fora, observando os seres estranhos em bonita harmonia, com o tradicional papo de elevador: “Calor, né?” – “Muito abafado, menina”.
O mais feliz parecia ser o mendigo, já que esse usava apenas um short, escondendo seu sexo. A madame tinha um leque e maquiagem borrada – estilo noiva abandonada. A mãe dos 3 filhos estava na dúvida se entrava na loja para olhar uma blusinha por 12,90 ou se mandava a mais velha tomar conta do mais novo, enquanto o do meio, sentado na calçada, quase era pisoteado pelo homem de paletó, que fez cara de tesão, quando sentiu o vento gelado da loja chegar na sua cara.

Outro dia dei risada ao ler uma frase numa agenda velha:
“Nacionalismo é uma doença que se cura viajando”

Quanto mais viajo, mais amo o Rio. De longe, dou valor a seus pequenos tesouros, escondidos ou expostos. É bom estar de volta.

Estou ainda num ritmo baiano, de modo que tomo um susto, quando Nilo, meu dentista, e amigo da família há anos, me pára em frente à C&A e diz: “Ora, ora, dona Aurora….”
Nilo é uma das pessoas mais engraçadas do mundo, e em 7 segundos me põe em dia sobre o mundo: caos carioca, chuvas matadoras, morte do Saddam e do James Brown. Comenta sobre minha nova cor. Mas diz que mesmo bronzeada nunca vou conseguir esconder as olheiras. Eu aponto para o quadro antropológico, Nilo ri e diz que a C&A deixa as pessoas felizes. Nos despedimos. Vou para um lado, ele vai para o outro. Em 2 minutos, ele volta. E diz que eu nasci na época errada. Lembro que ainda preciso arrancar 2 sisos. Digo: “Adeus, Nilo, adeus”.
Volto para casa a pé. Oscilo entre o lado direito e esquerdo da Conde de Bonfim. Sou tão estrangeira dentro da minha própria casa. Vou dormir, ouvindo barulhos de tiros. Voltei para casa. Não ligo o ar, embora a memória da C&A esteja tão fresca em mim. Acordo e percebo que com esse bronzeado, meu corretivo de olheiras não funcionará.

5 Comments so far

  1. Ângela (unregistered) on January 13th, 2007 @ 5:12 pm

    bem vinda de volta.
    vc TINHA que ver a praia de quinta. wow. e eu amo a c&a da tijuca, parece que se a gente parar na porta, verá o mundo todo passar. literalmente.


  2. Nuno Virgílio (unregistered) on January 14th, 2007 @ 1:05 pm

    Qui diliça, dona Letiça!


  3. maíra (unregistered) on January 15th, 2007 @ 11:07 am

    uêbis, a nêga voltou, mainha. :)
    ó… hoje sonhei que uma música sua estava tocando na novela das oito. :D
    (eu sei, eu sei, sonho muito com vc, mas eu *juro* que não sou a juliana pinho…)
    beijos solidários à angústia bronzeado versus corretivo.


  4. jhonas, o marcelo (unregistered) on January 16th, 2007 @ 2:06 pm

    Eu tb acho que viajando nós temos uma panorama maior sobre nossos sentimentos em relação à nossa cidade.


  5. Juliana Moreira (unregistered) on January 16th, 2007 @ 11:36 pm

    Muito bom observar os tipos urbanos, não é?
    E que volte ao RJ com todo o gás!
    Bjs.



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