Fui ao deserto e voltei fértil

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Calma, não é nada disto que vocês estão pensando. Voltei fértil de reflexões — ainda que algumas delas sejam altamente pessoais, outras totalmente lugar comum. Ainda assim, reflexões.

E para começar, ainda em clima de férias, revelo aqui onde estive: Chile, com foco no norte, onde está o incrível e enigmático Deserto do Atacama. Transcrevo algumas anotações do caderninho de viagem (isto mesmo, o velho caderninho de folhas brancas e caneta esferográfica no lugar de um notebook) datada de 30/12/06, quando eu acordei, olhos ainda remelentos, após 12h de viagem num busão com o bebê de Rosemary gritando atrás de mim, em pleno deserto, numa viagem que durou 30h entre Santiago e San Pedro de Atacama.

Não há nada mais aqui além de um vazio seco que preenche a paisagem. A monotonia se mostra fascinante em sua aspereza monocromática. Uma estrada rasga o deserto, como uma veia seca, mas que irriga com vida quem vai e quem vem. Uma sensação de medo e admiração, um quase pânico, tenta tomar conta desta viajante. É preciso repetir incessantemente que escolho não sentir medo, ou fazer dele o meu aliado no encontro ao desconhecido. As sensações extremas são as mais inesquecíveis, mas é preciso ser réptil e deixar o sangue frio circular em vasos, veias, aorta. Mas o deserto apavora à primeira vista. Parece não acabar nunca; não se vê um capim, um inseto, nada que cheire a vida.

Estou no fim do mundo, no final de 2006. Me dou conta agora que isto é emblemático. Estou no fim do mundo e, estranhamente, começando a me acostumar com ele. Talvez até porque eu já tenha vivido em alguns deles. O fim do mundo é o solo lunar num norte desbravado mas que exala o intocável. Mas pasmem: o fim do mundo vira Marte! Aqui, ao lado da estrada, há deserto de um lado — seco, áspero, estéril — e um oceano que o costeia. Um navio se projeta no mar que de fato encontra o deserto: quase um pirata. Precisamos também buscar nossos oceanos esquecidos.

Os mortos passeiam pela estrada incrustada de túmulos (centenas deles ao longo do percurso). Saem de suas casinhas com cruzes e tomam chá no final da tarde. À noite, abrigam-se do frio ou protegem os motoristas da densa neblina da madrugada.

Fontes de inspiração ao longo de 27 dias não faltaram. Mas, acreditem, os parágrafos acima foram os únicos que escrevi durante toda a viagem. Não consegui escrever mais nada, ainda que na minha cabeça eu escrevesse uma dezena de cartas e posts mentais (tomei emprestado o lindo termo de D. Ilka). Me permiti apenas viver e observar. Podia discorrer pautas e mais pautas sobre cada detalhe, cada cor de tijolo visto, mas vou poupar vossa paciência disto. Tem coisas que são melhores guardadas em cadernos de viagem cheios de fungos para a posteridade.

Mas em meio às observações, surgem as comparações. E como não comparar o Chile com o Brasil? Se bem que o meu maior ponto de referência era mesmo o Rio de Janeiro. Não serei canalha aqui para derrubar uma cidade que está com a auto-estima tão abalada por conta das barbáries cometidas antes do reveillon (além das cometidas diariamente), enquanto eu tomava pisco sauer nas bandas de lá. Mas é difícil não comparar, e o quesito segurança pública é o que bate com mais força.

Nossos hermanos chilenos não conseguem entender o nível de atrocidades existentes nas bandas de cá. Aqui, a porrada não é pra deixar roxo: é pra arrancar a cabeça. Delinqüência lá é roubar carteira. Você sai de casa sem pensar na morte, sem pensar que sua vida pode estar em jogo na próxima via expressa ou no ônibus que vai te levar ao trabalho. Incendiar ônibus com pessoas dentro, matar pra roubar um celular, metralhar cabines de polícia é coisa de…Brasil, Rio de Janeiro, São Paulo. Passar praticamente um mês sem esta preocupação é luxo para quem mora na encruzilhada do céu com o inferno. Peguei um táxi no Galeão e passei por seis blitz da Polícia Militar até chegar ao Túnel Rebouças. Metralhadoras, fuzis, coletes à prova de bala…Era hora de voltar para a guerra diária no lado inferno da encruzilhada. Nestas horas eu lembrava dos amigos brasileiros que estão lá e cujos olhos brilhavam ao dizer que estavam felizes e realizados no Chile. “Vem pra cá! Ta cheio de oportunidades e o povo aqui adora brasileiro!”; “Vem pra cá que aqui você consegue fazer um bom pé de meia!”.

Mas senti saudades do Rio. Porra, senti sim! E saudades às vezes até se confunde com ufanismo. Senti saudades enquanto me fartava de conhecimentos, de novas e belas paisagens, de novas amizades. Senti falta do cheiro do mar de Copabronx, de feijão preto, da alegria mais latente e mais vibrante que o brasileiro – e sobretudo o carioca – tem. Senti falta do meu apartamento que o proprietário tá pedindo de volta, do meu gato vira-latas gordo e lindo, da minha família que tá espalhada por tantos cantos do Brasil e dos amigos queridos. Senti falta de tudo aquilo que já foi citado e recitado um bilhão de vezes em verso e prosa. Até voltei um dia antes do planejando, para respirar a cidade antes de mergulhar de volta no trabalho.Tudo isto parecia contraditório para a cigana da caatinga. Era como se esta saudade não pudesse existir estando apenas um mês longe de casa. E olha só, a cigana tá chamando o Rio de Janeiro de casa….O Chile fica na incubadora mental por enquanto, pois cigana que é cigana não descarta nenhuma possibilidade de armar acampamento em qualquer esquina de continente.

4 Comments so far

  1. letícia (unregistered) on January 17th, 2007 @ 12:47 am

    “Não consegui escrever mais nada, ainda que na minha cabeça eu escrevesse uma dezena de cartas e posts mentais”

    esse teu pedaço me lembrou d'”os sofrimentos do jovem werther”. é um trecho tão bonito, que peraí, vou ter que pegar e copiar:

    “estou tão feliz, meu amigo, tão mergulhado na sensação de minha calma existência, que a minha arte sofre com isso. não poderia desenhar nada agora, nem sequer um traço, embora jamais tenha sido tão grande pintor quanto nesse instante…”

    as sensações extremas são as mais inesquecíveis.
    ahhhhhhhhhh


  2. Gleidson (unregistered) on January 17th, 2007 @ 9:14 am

    Conte mais!
    Faça-nos esse favor!!!


  3. Nuno Virgílio (unregistered) on January 17th, 2007 @ 12:29 pm

    Sei qual é, Ju. Também me sinto assim: o Rio é uma macumba que jogaram em mim.


  4. lp (unregistered) on January 17th, 2007 @ 5:28 pm

    “-Atacama fogo nos carro!” Elias Maluco, em viagem de negócios, no Chile.



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