O dia em que eu fui ao baile do Copacabana Palace
Amigo meu com mais de 50 anos, fotógrafo conhecido, me liga e diz:
“Letícia, quer ir ao baile do Copa comigo?”
Eu, com 20 e poucos, atriz desconhecida, penso em roupas, mas digo:
“Porra, claro!”
Minha mãe, com quase 50, professora de francês, pensa-mas-não-diz:
“Esse velho quer te comer”
Eu mostro a minha mãe que não-é-bem-assim. Frederico e eu somos amigos. Ele me conta das coroas (ou não coroas), fala do filho, dos amigos dos filhos, e eu ouço e aprendo e babo nas suas fotos com o Bob Marley na parede do estúdio.
Com que roupa eu vou? Com que roupa eu vou? Ao baile que você me convidou?
Penso em alugar uma fantasia. É caro. É muito caro. E é para depois de amanhã. Lembro do meu único vestido “para casamentos”. É preto. shame-on-me. Mas tem uns brilhos, uma coisa meio paetês prateados, enfim, uma coisa carnaval tal tal tal. Ligo animada para os amigos. “Mulher, esse baile é papo de mil reais o ingresso” Fico nervosa. Sabia que era uma coisa chic, mas não tanto. Ligo para Frederico.
- Por que você me chamou, hein?
- Ah, tenho várias amigas loucas para ir, mas acho que vou me divertir mais com você.
Faço uma gambiarra bizarra na minha única sandália “para casamentos”, deixo o carro na casa do Frederico, e lá vamos nós, de táxi.
Cê sabe… tava morrendo… de vontade.
Perto do Copa, algumas barraquinhas-pra-gringo-ver, vendendo máscaras. Estou tão nervosa, e com cabelo trançado, quase virando dread, e Frederico, de terno. Compramos uma máscara. Sou tola de nariz grande. Na frente do hotel, um tapete vermelho. Chove na cidade, mas o povo, que antes eu só via pela TV, agora está ali. A 3 metros de distância. Atrás de uma grade protetora. Alguns carros chegando. Muitos homens de terno. Convidados? Seguranças? Se eu fosse homem ia ser drag queen, fato. Essa coisa tudo de terno me cansa. Visual e emocionalmente falando. O povo segura um guarda-chuva numa mão e uma revista Contigo na outra. Eu e Frederico no tapete. O povo grita: “Richarrd Guiiiiir”. Frederico dá um sorriso feliz, e eu quase já não tenho mais cu. O povo grita: “Ela é modeeeeeeelo”. Eu sorrio constrangida, mas já avistando a bela entrada do baile. Um salão decorado com muitas luzes e espelhos e flores e cores e as roupas das pessoas e “aquele ali é o Clóvis Bornay?” e reis da Dinamarca com medalhas penduradas e Wolf Maya loucão com Marília Gabriela e e e e e e.
Frederico pára de 5 e 5 minutos para falar com alguém. Ele quer brincar de criar uma personagem para mim. “Vamos fingir que você é uma modelo russa… como você quer se chamar?” Penso em Letruska, mas percebo que sou mais velha que Frederico.Vou beber. Champa. Muitas taças porque eu posso. Porque tem. Experimento caviar pela primeira vez. E gosto. Tudo que é do mar, comigo é batata. Desce gostoso. Estou com a máquina de Frederico. Bato umas fotos. Vou ao banheiro. Mármores phiiinos. Banheiro feminino me fascina. Nem fui pra mijar, fui apenas bater fotos, mas isso seria muito bizarro e resolvo repor o lápis do olho. Muitas senhoras. As mais bonitas são as que têm rugas. Fato. Quero dançar. Uma japonesa pede pra bater foto comigo. Ela faz muitas mímicas. Estou tão bêbada que entendo que ela quer que eu mostre minha tatuagem na foto, e ela também vai ficar de lado, para que uma linda tatuagem, que cobre metade do seu braço, também apareça. Penso em dizer “arigatô”, mas sei lá. Ela ri “hihihi”. Eu procuro a pista de dança. Estou sambando. “Você pagou com traição a quem sempre lhe deu a mão.” Frederico está afastado. Bate fotos, conversa com Luiza Brunet. Quis me apresentar, eu arregalei os olhos, com cara de “não faça isso”. Quando olho para o palco, vejo a praticamente-xereca da Globoleza. Na altura da minha cara. Tomo um susto. Um gringo com medalhas no peito e cara rosa ri. E samba escrotamente. Acho bonitinho o esforço, mas tenho preguiça. Confetes, serpentinas. Tudo dourado, ou de um papel, que não o reciclado e famoso tosco. Os sambas enredos mais famosos. A galera delira. “Explode coração, na maior felicidade. É lindo o meu Salgueiro…” Glória Maria surge. Lembro da música de Rogério Skylab:
Fátima Bernardes fugiu de casa
Fátima Bernardes mandou um beijo
Fátima Bernardes foi baleada
Fátima Bernardes chupando dedo
Glória Maria! Glória Maria!
Fico rindo solta e bato uma foto dela. Pá. Flashzão. Ela ri. Eu rio. A gente dá 2 beijinhos. Quero ligar para os meus amigos. Mas agora tem jantar, Frederico avisa. Mas isso eu não lembro. Foi macarrão? Foi camarão? O salão tem cheiro de naftalina. As pessoas da minha idade estão servindo os outros. Frederico vai falar com Ruddy, a cabelereira das celebridades, que é homem, mas agora é mulher. Por falar nisso, vi também a Roberta Close. Bati foto. O marido dela é bizarro. Ruddy tem voz grossa e fuma. Me olha muito e conclui: “Mulher mais elegante do baile”. Eu perco a elegância com uma gargalhada alta. Lá fora ainda chove, e o povo ainda lá. Um som meio lounge e filhos dos reis e sultões, sentados num puff. Acho chato. Volto para o “É carnaval, é a doce ilusão, é promessa de vida no meu coração… Mangueira vai deixar saudade, quando o carnaval chegar ao fim…” A pista é animada. Os músicos suam e sorriem. Algumas mesas em volta me deprimem. Senhoras & senhores batendo ponto no evento da cidade. Com cara de cu. “Bandeira branca, amoooooor…” Sinto falta de crianças correndo pelo salão. Concluo que é o meu primeiro baile adulto. Fico curiosa de ver alguma putaria rolando. Lembro do meu tesão infantil em ver a revista Manchete com fotos do baile do Vermelho e Preto com meus irmãos e primos. Mas os beijos que percebo são bitocas tímidas.
De repente, a piscina. A piscina, claro! Bora na piscina, Frederico. “Bora, bora!”
É uma ilha, ele diz. A piscina fica fechada no baile. Mas vamos ali, que dá pra ver um trecho. Tipo incrível. Penso numa delinqüência: “Já são quase 3 horas, daqui a pouco vou embora… posso me jogar na piscina e ser expulsa.” Mas Ruddy havia dito que eu era a mulher mais elegante do baile, e isso mexeu com os meus brios, vai entender. Ela é uma mulher com corpo de homem. Tem que acreditar, mané.
O baile começa a ficar vazio. Os homens não deixam minha taça em paz. Frederico me traz água. Fala da vez que foi pra África. Da primeira mulher, o grande amor da vida dele. Do filho, que agora mora em NY, mas morre de saudades do Rio. De passar mal mesmo. Fala que a vida sempre foi agora. Eu escrevo num guardanapo:
É fevereiro
O coração anda ligeiro
O telefone não toca.
E nem eu
[me toco]
Frederico lê, diz que acha bom e eu penso como será o elevador do Copacabana Palace. Um casal de dreads vê em mim alguma paz, pedem para bater foto. Eu bato também. Rimos.
A gambiarra da sandália morre. Vejo pessoas descalças. But a lady always know when to leave. Sou cafona e roubo um enfeite da mesa. O povo já não está mais lá fora. Ainda chove, mas entraria no mar, se o trecho quilométrico da areia de Copacabana não fosse tão perigoso. O tapete vermelho molhado. Os homens de ternos molhados. No táxi, comentamos sobre alguns momentos. “O homem ali, te dando mole, Letícia, você não viu?” “A Luíza Brunet é uma das mulheres mais lindas que já fotografei” “Você viu o espaço da Caras, que coisa esquisita?” Meu corpo dentro do táxi. Tenho mania de ver o nome. Geraldo. Contamos alguns detalhes para Geraldo, que ri faltando algum dente. Gotas de chuva na janela, Nossa Senhora molhada, Habib’s aberto, Pussycat fervendo, meu celular sem mensagens, Frederico vivido, Geraldo curioso, Glória Maria de olhos vermelhos, Roberta Close sem piru, japonesas tatuadas, homens rosa com medalhas, o povo com Contigo, 1962 tão longe, meu vestido para casamentos, Copacabana me enganando, o caviar sendo digerido, o champa sendo eloqüente. Geraldo ouve um forró safado. Pergunta se somos artistas. Me adianto e digo forçando o R. “Sou russa e meu nome é Letruska.” Frederico ri e entende que só agora eu queria brincar de ser outra pessoa.
Mulatas, champa, caviar & um seio dourado
As mulheres no banheirón, a pista de dança e os rasta man vibration, yeah, positive!


e eu nem te digo que os relatos da ruusa no Brasil são de môrrê.
Letruska, Letruska.
É Letícia…acho que lembro de ter visto você por lá. Mas minha namorada argentina era melhor que você. Lembra de mim por lá ?
Beijos cheios de champagne.. (ha ha)
Vocês, ricos, têm uma vida muito mansa…
jota, mon amour, lembro da argentina sim, de cabelos lisos e loiros…
bom vê-lo por aqui!
na próxima festa que eu for no Copa, vou inventar um personagem: dereck, diretor de filmes underground, premiado 4 vezes em sundance. vim ao brasil fazer teste para elenco do meu próximo filme. minha intenção é comer alguém com esse papo.