Archive for February, 2007

Noite de Diversão

Na última sexta-feira, na Lapa, me diverti tanto com o mundo. É, com o mundo. Grande parte do planeta
estava ali. Vi pessoas de várias etnias, nacionalidades e sotaques variados. Ouvi “trance” na barraquinha de bebidas em frente ao Asa Branca. Gringos e brasileiros dançando aquele ritmo duro e sem graça, inclusive eu, movido pelo clima festeiro. Enquanto isso, hordas e hordas de turistas passavam pra lá e pra cá, tentando
encontrar o melhor lugar para festejar aquela quente e divertida noite de sexta na Lapa.

Mais tarde, dentro do Casarão Cultural da Lapa, muito rock e bebidas, brasileiros e gringos. Conversei com dois noruegueses e eles contaram que estavam adorando o Rio, o carnaval e o traseiro das brasileiras. “The best”, eles me disseram. Ao final da festa roqueira, embaixo dos arcos, uma outra barraquinha de bebidas tocava U2 para delírio de outro grupo de estrangeiros e brazucas que tentavam se enturmar. Não resisti aquele momento único de “celebração à união entre os povos” e me juntei a eles. Hilário e muito bom para alma. Além de 3 ou 4 músicas seguidas do grupo do Bono, o “dj” da barraca tocou canções dos Smiths, Rem e Van Halen. O clima estava ótimo até um grupo de PMs pedir para acabar com som. Saí de fininho e peguei um táxi para casa, com a certeza de ter tido uma grande noite de diversão.

Estamos vendo alguma coisa acontecer?

Tomara, meu bem, tomara

Praia Vermelha – RJ

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Namorada de príncipe, princesinha é.

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Os jornais ingleses anunciaram no domingo. No mesmo momento em que o príncipe Harry, filho de Diana e Charles, anuncia a sua ida para o Iraque, sua namorada, Chelsy Davy, vinha para o Rio, lançando-se “no espírito festivo que envolvia a cidade, na celebração do mais famoso carnaval do mundo”.

A inglesa deslumbrada visitou o Cristo, assistiu ao desfile das escolas de samba na terça e à noite foi farrear na Lapa.

Este amigo que vos escreve, do alto de sua presumida inocência, pergunta afinal: se o príncipe vai pra Bagdá fuder com os iraquianos, por que é que a namorada dele não pode vir pro Rio fazer o mesmo com os brasileiros?

Deus Pai:

no Rio 40º, ou menos – tanto faz; o calor pairou nas cabeças. do alto dos meus 1.86m, pressinto um desmaio – respira fundo, apenas respire. toda queda do meu alto é danosa. o asfalto montando imagens desformes, o vapor subindo do piche, do preto do chão, do núcleo da terra – deve ser o tal do aquecimento global. e eu que amo cortar a cidade pela orla, tentando enxergar no horizonte que a terra é redonda, que o mundo dá volta, que eu estou de cabeça pra baixo no universo – porque são 12h, e o Japão tá lá em cima (ou o contrário disso tudo), tomar vento na cara, brisa boa, cheiro de mar, mas não, tenho gotículas no nariz e um bicode de suor, meu desodorante não da vazão, anti-transpirante de cu é rola. o carro da frente tem na placa um and e eu aqui pensando : and what? não tem graça.

o horário de verão não esperou o verão acabar e é triste pensar nas 19h de céu escuro, lua brilhando – uau, é lindo – mas cadê o céu multicolorido de cores que nem sei dizer?

meu guia corta caminho, fugir do engarrafamento é preciso, quatro ruas em cinco minutos, e o centro do Rio virou um tabuleiro de xadrez – ABL, Odeon, Restaurante Àrabe – sinal vermelho outra vez.

corta guia, outra rua, outro caminho, please.

então a sensação do desmaio volta, minha visão fecha, tudo escuro mas há um foco em forma de alucinação:

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[que o sonho seja a rotina]

fico de cara com essa vida, e a cidade me dá um xeque-mate. sem piada, sem piada, sem pretensão.
deve ser o calor, deve ser.

Lamentável e real

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É.

for no one – beatles – revolver

Não entendo tua letra no papel que você me deu junto com teu telefone. Teu nome não é. Pois a letra “p” é de fácil reconhecimento. Ela cai além da linha. Fiquei uns etílicos bons minutos tentando decifrar o que poderia estar escrito. Desisti blasé e liguei o carro. Na ponte, não ando nas beiras. No túnel, não ando nas paredes. Nos viadutos, ocupo as duas pistas. Na auto-escola, tinha medo de cair na baía de Guanabara. E ser só mais um corpo por ali, juntamente com os que construíram e morreram. O fascínio pelo meio não é budista. É puro medo. As paredes dos túneis parecem querer me abraçar. Cair por cima de mim. E eu não quero esse abraço. Vou para o meio, que ali ninguém me toca. Na saída do primeiro túnel do Rebouças, sentido zona norte, a floresta do Cosme Velho estala na minha cara assustada. Amanhece. Estou no meio. Preciso dizer em voz alta: “Que lindo” para que eu acredite no que estou vendo. As caligrafias são tão misteriosas, que cogito parar o carro no meio do túnel e tentar, mais uma vez, decifrar. Mas o viaduto já se faz presente. Pelo visto, estou correndo muito. Uma vez, eu não era nem nascida, mas minha mãe tinha uns 18 anos, o viaduto da Paulo de Frontin caiu. Ela tinha acabado de passar e o viaduto caiu. Caiu. Muitas pessoas morreram. Minha mãe não morreu. Se tivesse morrido, eu só seria esperma paterno. Não há nenhum carro atrás de mim. Esse carro só vai até cento e vinte quilômetros por hora. Posso ir pelo meio. A beirada me faz ter arrepios no couro cabeludo. Talvez esteja com febre. Preciso de uma mão materna na testa. Uma vertigem sem explicação, já que sou alta. Diga que é uma péssima explicação. Diga. Tenho medo de uma coisa que me pertence. A Altura. Mas no túnel não é a altura que me causa medo. É a envergadura da parede. Ela quer cair em cima de mim. Esses abraços desconfortáveis. Não pode. Não posso. Chego em casa, bilhetinho amassado na bolsa, tento tirar o vestido de melindrosa que aluguei para o baile à fantasia que estava, e não consigo. O fecho nas costas, anteriormente fechado na casa de uma amiga, não me obedece. Lembro então que moro sozinha. Não há nem porteiro para me ajudar. Lembro também que tenho braços de polvo. Mas não consigo. E ainda dou um jeito no meu pescoço. Desisto e resolvo então, dormir fantasiada. As vestes que cobrem nossos corpos são tão desnecessárias para dormir, que mesmo cansada, quase não durmo. Acordo com um susto às onze da manhã, vou ao banheiro, me olho no espelho, e estou nua. A fantasia foi embora sozinha. Me livrei. Sou tão livre. Mas hoje não há nada maravilhoso nisso. Descobri que sou sonâmbula. Acordo de novo. Agora sou canhota, mas corto bifes e bolas de vôlei com a mão direita. Talvez você seja canhoto e por isso não entendi tua letra. Nem teu abraço túnel. Nem as tuas beiradas. Eu estou na eminência. Eu estou prestes. Nietzsche me contou que quanto mais você olha para o abismo, mais ele olha para você. Esqueci meus óculos escuros. Mas sou tão alta que espero cair como gata.

Chevette Noir

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Feliz ano novo!

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Mas ela é minha alegria
Ela é minha dor
Ela é meu pensamento
Ela é meu amor

Eu chorei quando acabou o carnaval, chorei
Pois eu sou muito sentimental
Amor de carnaval é fantasia
E dura pouco, só dois dias

Mas ela é minha alegria
Ela é minha dor
Ela é meu pensamento
Ela é meu amor

Mas eu sei perder e sei ganhar
Esperarei até o outro carnaval chegar
Para de novo com ela ir brincar
Tentando novamente seu amor conquistar
E se não der certo
Novamente eu vou chorar

Foto de Bernarda Maia. Música de Jorge Ben Jor, mais conhecido como Jorge Ben.

coisas para se fazer no rio no carnaval com uma namorada súbita

Na sexta à tarde, enquanto a cidade parece prender a respiração pra gritar na sua cara antes do começo dos trabalhos, sair do seu trabalho três horas mais cedo e ir para a rodoviária; Esperar pelas próximas três horas pelo ônibus que simplesmente se recusa a aparecer no terminal; Negociar com o calor e o cansaço, apertar a vista e o coração a cada silhueta que poderia ser a dela; Ensaiar frases espirituosas que nunca serão ditas no nervosismo da hora; Abraçá-la quando ela chega, cansada de oito horas “fritando” no ônibus; olhar e olhar mais uma vez para confirmar, abraçar para fixá-la no Rio, seguir para casa

(…)

Acordar tarde; perder todos os blocos matutinos e não dar a mínima. Aproveitar o café tranquilo, fumando, temer pelo calor que se anuncia feroz, imaginar como estarão as ruas, notar o quanto já se gosta do sotaque e das gírias estranhas (e meio palhas, mas adoráveis), usar as mãos quando não se souber o que dizer; ficar com vergonhinha do almoço bestão de shopping mas dar o braço a torcer que pelo menos o ar-condicionado é do caralho. Fumar mais. Tocar violão. Reclamar do calor. Pegar uma carona com conhecidos solícitos e ir para o Jardim Botânico ver um bloco. Observar como o Rio de Janeiro lentamente começa a tirar a namorada súbita do sério (ela vem de uma cidade séria e noiada) com tanto espaço (“aqui é sempre assim?”), verde (“aqui é sempre assim?”), preguiça (“mas aqui é sempre assim?”), e general niceness carioca. Ver muita gente bêbada tostando, fumando, bebendo e namorando na rua – mas um pouco à distância e com nojinho, ambos turistas (uma recém-chegada, o outro nem tanto); Tomar latinhas de cerveja conforme o calor. Fugir do bloco rápido, voltar pra casa de ônibus, reclamar do calor, agradecer por ainda ser Sábado apenas, fumar mais…

(…)

Bed-ins e brigas com mangueira d’água no quintal; chinelice e sacanagem.; Dar um pulo no Arpoador porque ela toca uma música do Cazuza que menciona o lugar mas nunca havia ido lá. Ouvir sorrindo o quanto ela está achando o Rio inacreditável; ouvir termos como “idílio”, “trégua” e “acampamento de férias”; Achar graça da leve neura da namorada súbita em beijar na rua “porque em SP neguinho buzina”. Afirmar peremptoriamente, com toda a segurança de um citadino: “Fica tranquila, madame, aqui ninguém buzina”; Fugir pra casa…

(…)

Ser expulsos da cama pelo telefone, partir pro Jardim Botânico, ficar de bowa’s na cobertura de amigos com Billie Holiday, clérbero, piscina, cerveja e uma vista do Rio (Jóquei, Corcovado, the whole shebang) que deu o nocaute na namorada súbita (foi pras cordas, daí pro chão, contagem até dez, não levantou mais). Eu, que não sou carioca, agradeço discretamente a ajuda da cidade e dos amigos: Foi um massacre, foi covardia; Daí comer no Varandão em Vila Isabel, que é barato e barulhento com a apuração de resultados das escolas e voltar pra casa sentindo um gosto de cinzas. À noite, combater um exército de bodes com vinho, violão, beque, massagem de pé. Ficar mal pra caralho e ainda assim feliz.

Na Quinta: Acabou.

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