O espelho

ônibus 473. Triagem-Leme. 5 ou 6 horas da tarde. Estou sentado à janela no meio do ônibus. Faz calor e faz sol. À frente, dois passageiros se levantam. O banco vaga. Sentam uma senhora negra e gorda, 40 anos, e uma menina magra, 10 anos, também negra. A menina na janela, bem à minha frente. Elas aparentam ser muito pobres. A gorda está irritada. Faça isso. Não faça aquilo. O sol agora está bem à direita de modo que atravessa a janela, ilumina os passageiros e faz do vidro um espelho quase perfeito. Agora eu posso enxergar seu rosto de criança. Ela olha a rua. Descubro que tem enorme hematoma que semicerra seu olho direito. Este olho chora. Teria caído de uma escada? Seria murro de padrasto bêbado? de mãe bêbada? Mas agora a menina tinha descoberto o espelho. E descobrindo-se, achou-se amável e linda e se beijou no vidro. Olhava para sua imagem e se beijava na janela, ignorando a reprovável mãe, ali dentro e a provável paisagem, lá fora. Eram beijos de amor puro. Muitos. Beijos de afeto puro. Não era coisa narcísica. Beijos e mais beijos melados naquele vidro sujo e lindo. E já que tudo ali era ação e reação, como na 3ª Lei de Newton, nem sei ao certo se era a menina que beijava a imagem ou se era a imagem que beijava a menina. Mas a vida segue e a gorda mais irritada ainda. Pára com isso, menina! Inútil. Ela estava descobrindo o amor. Alguém aqui, neste mundo de escadas, afinal, ainda gostava dela.
Imagem: Faux Miroir, de Magritte


Ai, que lindo. Quero saber o resto da história… rsrs
Ilka, a menina e a janela se casaram, tiveram um monte de caquinhos de vidro e viveram felizes para sempre…
me desculpe, mas que nojo… :P
rsrsrs Isso que é final feliz! rs
que bonito, lp!
a menina quis pegar o sol…………..
e conseguiu.