for no one – beatles – revolver

Não entendo tua letra no papel que você me deu junto com teu telefone. Teu nome não é. Pois a letra “p” é de fácil reconhecimento. Ela cai além da linha. Fiquei uns etílicos bons minutos tentando decifrar o que poderia estar escrito. Desisti blasé e liguei o carro. Na ponte, não ando nas beiras. No túnel, não ando nas paredes. Nos viadutos, ocupo as duas pistas. Na auto-escola, tinha medo de cair na baía de Guanabara. E ser só mais um corpo por ali, juntamente com os que construíram e morreram. O fascínio pelo meio não é budista. É puro medo. As paredes dos túneis parecem querer me abraçar. Cair por cima de mim. E eu não quero esse abraço. Vou para o meio, que ali ninguém me toca. Na saída do primeiro túnel do Rebouças, sentido zona norte, a floresta do Cosme Velho estala na minha cara assustada. Amanhece. Estou no meio. Preciso dizer em voz alta: “Que lindo” para que eu acredite no que estou vendo. As caligrafias são tão misteriosas, que cogito parar o carro no meio do túnel e tentar, mais uma vez, decifrar. Mas o viaduto já se faz presente. Pelo visto, estou correndo muito. Uma vez, eu não era nem nascida, mas minha mãe tinha uns 18 anos, o viaduto da Paulo de Frontin caiu. Ela tinha acabado de passar e o viaduto caiu. Caiu. Muitas pessoas morreram. Minha mãe não morreu. Se tivesse morrido, eu só seria esperma paterno. Não há nenhum carro atrás de mim. Esse carro só vai até cento e vinte quilômetros por hora. Posso ir pelo meio. A beirada me faz ter arrepios no couro cabeludo. Talvez esteja com febre. Preciso de uma mão materna na testa. Uma vertigem sem explicação, já que sou alta. Diga que é uma péssima explicação. Diga. Tenho medo de uma coisa que me pertence. A Altura. Mas no túnel não é a altura que me causa medo. É a envergadura da parede. Ela quer cair em cima de mim. Esses abraços desconfortáveis. Não pode. Não posso. Chego em casa, bilhetinho amassado na bolsa, tento tirar o vestido de melindrosa que aluguei para o baile à fantasia que estava, e não consigo. O fecho nas costas, anteriormente fechado na casa de uma amiga, não me obedece. Lembro então que moro sozinha. Não há nem porteiro para me ajudar. Lembro também que tenho braços de polvo. Mas não consigo. E ainda dou um jeito no meu pescoço. Desisto e resolvo então, dormir fantasiada. As vestes que cobrem nossos corpos são tão desnecessárias para dormir, que mesmo cansada, quase não durmo. Acordo com um susto às onze da manhã, vou ao banheiro, me olho no espelho, e estou nua. A fantasia foi embora sozinha. Me livrei. Sou tão livre. Mas hoje não há nada maravilhoso nisso. Descobri que sou sonâmbula. Acordo de novo. Agora sou canhota, mas corto bifes e bolas de vôlei com a mão direita. Talvez você seja canhoto e por isso não entendi tua letra. Nem teu abraço túnel. Nem as tuas beiradas. Eu estou na eminência. Eu estou prestes. Nietzsche me contou que quanto mais você olha para o abismo, mais ele olha para você. Esqueci meus óculos escuros. Mas sou tão alta que espero cair como gata.

2 Comments so far

  1. Ângela (unregistered) on February 25th, 2007 @ 4:01 pm

    eu nao estou entendendo nada do que eu digo ;P


  2. Camila (unregistered) on February 26th, 2007 @ 1:32 am

    nossa altura inspira. nossa altura amedronta. mas nossa altura também salva, sometimes.



Terms of use | Privacy Policy | Content: Creative Commons | Site and Design © 2009 | Metroblogging ® and Metblogs ® are registered trademarks of Bode Media, Inc.