Archive for March, 2007

Calendário anual

Às vezes esqueço que o tempo escorre. Meu tempo é meio elástico, entenda. Mas ainda bem – ou não – que existem as Lojas Americanas para me ajudar a entender o tempo em que me encontro.
Faltando quase 1 mês para a Páscoa, lá estavam milhões de ovos de chocolate, todos mezzo derretidos devido ao calor que INSISTE em não ir embora. As Lojas Americanas me alerta(m) das datas chatas & comerciais que eu INSISTO em esquecer. Dia das mães, dos pais e PÁ, lá está algum cartaz com dizeres infames sobre presentear seus pais com algum presente, não com atenção, por exemplo. Atenção é o maior presente que posso dar para alguém hoje em dia. Ando disléxica. Deve ser porque é abril, o mais cruel dos meses. Sempre tive problema com dias estipulados. Namorados, dia do amigo, Natal. Minhas celebrações são diárias, mas convivo com pessoas que acreditam nos “dias”. Logo, devo agradecer à toda praça Saens Peña – principalmente à C&A e as Lojas Americanas, por me ajudarem nesse processo insano que é o calendário gregoriano.
Só pra rimar, minha gente. Só pra rimar.

Gravuras no CCBB

carceri_well.jpg

Se você está no Centro ou vai ficar de bobeira depois do trabalho, não perca. Hoje, sexta, as 18h30, os curadores da exposição “Impressões originais: a gravura desde o século XV”, em cartaz no CCBB, fazem palestra ilustrada, com entrada franca. A exposição fica em cartaz até 29 de abril e abrange seis séculos da gravura, com cerca de 280 gravuras de artistas como Dürer, Rembrandt, Goya, Picasso, Matisse, Warhol e Samico. Atenção especialíssima para as gravuras de Giovanni Piranesi — da série Carceri d’invenzione — uma delas reproduzida acima. As gravuras desta série já justificam a mostra. Não percam.

CCBB > Rua Primeiro de Março 66 – Centro (retirada de senhas a partir das 18h)

Quem nunca roubou um clone desses?

cone2.jpgCientistas americanos anunciaram a pouco a criação da primeira “ovelha-quimera”: um animal com 15% de células humanas e 85% de células animais. Professor na Universidade de Nevada, Esmail Zanjani levou sete anos tabalhando na técnica, diversa da que foi usada na Inglaterra para a criação de Dolly, a ovelha. O objetivo dos cientistas é o desenvolvimento de órgãos que possam ser transplantados para seres humanos. Ao mesmo momento em que isto era noticiado, lá no outro lado do planeta, cientistas da Universidade de Seul, Coréia, afirmaram ter conseguido clonar dois lobos de uma espécie nativa.

O próximo passo será a clonagem de um híbrido de lobo e ovelha, a lobelha, resolvendo de vez a velha hostilidade que tanta dor de cabeça causa aos pastores, desde o início dos tempos. A lobelha será um facilitador nas questões litigiosas entre lobos e ovelhas, buscando atender às demandas de ambas as partes, em nome da tolerância e da boa convivência entre os contrários. A experiência seria “starting point” para a aplicação de novas manipulações, notadamente a introdução dos clones judárabes, dos isralestinos, dos pauliocas e dos flascaínos, entre tantos, cumprindo todos, papel fundamental no irreversível processo da globalização e da paz mundial.

Na foto acima vemos um dos projetos idealizados pelos mestres da engenharia genética. Trata-se de um ser híbrido de ovelha e cone de sinalização. A principal utilidade deste ser é provar que para bom entendedor o cabrito achado não é roubado em terra de cego, já que o telhado de vidro não faz milagre no seu galho.

do Oiapoque ao Chuí:

tropi.jpeg O Tropicalismo veio inspirado de Hélio Oiticica por Caetano Veloso, que cantou Torquato Neto que por sua vez vinha com Rogério Duprat, carregandoTom Zé, que somava (in)consciente Baudelaire e Mallarmé; mas tudo isso vindo de Oswald de Andrade, que criou o Movimento Antropofágico graças a Tarsila do Amaral.

Abaporu. Abaporu.

Salve Salve.

A tropicália caminhou contra o vento, sem lenço sem documento e eclodiu num slogan que denunciava:

SEJA MARGINAL, SEJA HERÓI.

Subversivos, nós todos, à margem- dos que furtam cones aos que expandem mundos.

Neoconcretistas, neoconcretistas.

Sem mais.

Eu vou. Por que não?

A mais carioca das listas

Não que isto seja de especial relevância mas outro dia resolvi recolher na Internet algumas definições sobre o que significaria assim, o conceito “carioca”, definido através do que chamei de “paroxismos cariocas”, e que viriam a ser adjetivações feitas por especialistas e leigos, em meio a matérias diversas, à pessoas ou coisas que em razão de suas características particulares representariam, ao máximo, um “jeito carioca de ser”.

Não é uma lista definitiva e nem há unanimidade nela. Só de escritor mineiro mais carioca encontrei dois (Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos). Tampouco representa a minha opinião. As definições estão como foram encontradas. É somente aquilo que achei na web e, portanto, representa o que uma pequena parte das pessoas pensa. A lista também não pretende elogiar ninguém ou coisa alguma — de fato não há nenhum mérito ou demérito especial em ser carioca assim como não há em ser soteropolitano ou manezinho — e por isto pouco importa se alguém é muito ou pouco carioca. Apenas é o reconhecimento de um conceito, como tal.

Talvez uma das coisas interessantes da lista seja perceber quantos não nativos, aqueles cuja condição de carioca não é um mero acidente biográfico e sim uma opção de vida, acabaram construindo esta identidade urbana, como é de fato: um jeito de ser que se forjou dentro de um tempo e de um espaço geográfico, que diga-se de passagem, não é nada mal.

PS: Perdoem o tamanho da lista mas é que a cidade é grande.

O mais carioca dos sentimentos > Esperança
O mais carioca dos compositores > Tom Jobim
O mais carioca dos mineiros > Otto Lara Resende
A cidade mais carioca fora do Brasil > Nápoles, Italia
O mais carioca dos biscoitos > Biscoito Globo
O mais carioca dos paulistas > Washington Olivetto
A mais carioca cidade das Minas Gerais > Juiz de Fora
O mais carioca dos jornalistas > Stanislaw Ponte Preta
O mais carioca dos malandros do bem > Hugo Carvana
A mais carioca das festas > carnaval
O mais carioca dos santos > São Sebastião
O mais carioca dos escritores > Marques Rebelo
O mais carioca dos estilos instrumentais brasileiros > Chorinho
O baiano mais carioca do mundo > Dorival Caymmi
(esta última a mais espetacular das definições)
(more…)

um olhar crítico sobre a indústria cultural baiana

Difícil lutar contra a impressão de que o mundo se encaminha para um espasmo final de boçalidade à medida que vamos envelhecendo. Isso sem dúvida explica a expressão nos rostos dos velhinhos menos senis, algo como uma resignação de quem sabe que pelo menos não terá que aturar os solavancos do vagão de gado por muito mais tempo.

Cinema me dá muito essa sensação. Nos anos 80 um filme do digamos Batman tinha piadas com obras do Francis Bacon e linhas memoráveis que se tornaram bóias salva-vidas para alguns (“Essa cidade precisa de um purgante” – quanta verdade há nessas palavras, palhaço do crime); a versão dos anos 00 é “relevante para o clima político atual”, com linhas como “It’s not who I am underneath, but what I do that defines me”.

Mas tudo isso mesmo só pra dizer que ontem eu vi um spot num programa de auditório em que uma pobre coitada engajada lia num cartãozinho sobre um, ahm, filme cuja essência e propósito enquanto obra de arte era lançar “um olhar crítico sobre a indústria cultural baiana”.

Vamos saborear isso de novo:

“Este filme lança um olhar crítico sobre a indústria cultural baiana”.

Agora, somos todos homens do mundo aqui, temos estado por aí já há algum tempo, temos visto até bastante, e consideramos grosseiras manifestações ostensivas de qualquer coisa, inclusive de world-weary cynicism, de ironia descolada, mas eu estou falando basicamente de um ambiente mental em que um adulto pode ir na televisão zurrar um troço desse calibre com uma candura e um comprometimento que só se costuma encontrar nas expressões de santos mártires em folhinhas católicas, sem suscitar o mais brando franzir de sobrancelhas entre os presentes1. A mulher diz aquilo e olha pro apresentador de programa com intensidade. A indústria cultural baiana, rapaz.

O filme estréia dia 30 agora, e a maior preocupação dos realizadores é “300”, de Zack Snyder, que estréia no Brasil no mesmo dia.

Ou seja, de um lado você tem um filme que lança um olhar crítico sobe a indústria cultural baiana, e do outro você tem um filme sobre 300 espartanos que combateram durante três dias e até o último homem o vastamente superior exército Persa, numa das mais famosas passagens militares da História.

All together now: Mmmmm…
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1 – Só me faz pensar que tem muita gente por aí com dinheiro (dos outros) na mão e sem a menor idéia do que fazer com ele (ou com muito espírito de porco). Só isso explica “Antônia”, o fracasso de bilheteria mais legal do ano. Sério, façamos uma experiência aqui: Fechem os olhos e imaginem o tamanho do público-alvo potencial para um filme sobre garotas do subúrbio que viram estrelas superando obstáculos sociais e discutindo problemas femininos.

Vamos lá, de com força agora. Quantos dos seus conhecidos você consegue realisticamente imaginar dizendo “Putz, tou muito a fim de ver ‘Antônia’, parece que as meninas cantam pra caralho”. É, e elas dançam, também. Elas têm uns passos assim, tal.

Na boa, cineastinhas de esquerda (como se houvesse outro tipo) do meu Brasil: Vamos fazer cursinho por correspondência de eletrotécnico, chaveiro ou de mecânica de automóveis? Nunca é tarde para experimentar a sensação de realização de um trabalho bem-feito, de ser um cidadão que efetivamente colabora de alguma forma mensurável para o bem-estar da sociedade (E Deus sabe como é difícil achar um chaveiro de confiança quando a gente precisa…)

“Beija que sara”

capimba.JPG Metrô. Sexta-feira. 18 horas. Largo do Machado. Consigo me posicionar em frente àquelas cadeiras para idosos, gestantes e deficientes. Apesar da superlotação e da minha claustrofobia, principalmente pela falta de ventilação e da fusão louca de cheiros, muitos cheiros, consigo me concentrar para acabar de ler o último conto do livro de tais, da Katherine Mansfield. Sentada à minha frente, uma menina com uniforme de escola pública, arrisco uns 7 anos. Lê a revista do Cascão, e em seu colo mais 6 revistinhas. Magali, Mônica, Cebolinha e meu favorito, Chico Bento. O metrô é silencioso quando não há um grupo de 3 amigos que conversam sem se incomodar em ser o rádio da viagem. Pois é impossível não prestar atenção na conversa alheia dentro do metrô. No ônibus, a vista ainda te salva, mas no metrô, todos se olham, todos se escutam. Acabei de ler KM, o livro gordo, pesado na minha mão, a menina ali, lendo balançando as pernas – saudade da época que pernas balançavam para leitura. Resolvi assassinar o silêncio do vagão e perguntei, quase como num susto por coincidência em ver alguém com a mesma blusa que eu: “Qual é o seu personagem favorito?” Nasci com visão panorâmica. Ou seria paranóica? Ao fazer a pergunta, senti o peso dos olhares das dezoito horas. A menina disse que gostava mais da Mônica. Eu disse que amava o Chico Bento. A vó da menina parou de ler O Extra e me olhou sem rir. Calma, senhora, não sou tão estranha. Continuei num universo próprio com a menina, explicando que eu havia aprendido a ler com a turma da Mônica. Foi a primeira coisa que li fora da escola. E lembro até da primeira história que li, em voz alta, para minha orgulhosa genitora. Falamos do gato da Magali, ela contou que tem uma amiga que fala que nem o Cebolinha, eu falo do Penadinho, Papa Capim e muitos et ceteras. A menina, então, diz que vai ler, para mim, uma história “muito engraçada”, que ela acabou de ler. A vó pede silêncio, diz alguma coisa sobre atrapalhar, mas como já esqueci dos outros, acho que ela está falando de mim, e como não acho que ela vai atrapalhar, incentivo a leitura da menina, que começa de maneira brilhante com uma onomatopéia de dor. “Aiiiii”. Crianças falam alto. É maior do que elas. Uns fazem cara de cu e pensam na semana sofrida que tiveram, outros riem da menina fofa que agora lê para um terço do vagão uma história sobre a Mônica dar um beijo em todos os amigos machucados. “Beija que sara” era o nome da história. A menina é uma atriz. Lê interpretando. Uma graça. Eu ali, em pé, com Katherine Mansfield no suvaco, e uma guria fofa toda vida lendo tura da Mônica em voz alta para mim, em pleno metrô – a essa altura já estávamos na Uruguaiana. No final, o Cascão se machucava, a Mônica olhava para o braço dele, sentia nojo da sujeira e fazia um curativo. Ela gargalhava, eu gargalhei, a vó já ria, as pessoas já riam também, uma felicidade foi tomando conta das 7 ou 8 pessoas que presenciavam a cena. A menina perguntou o que eu estava lendo, crianças sempre nos dão susto sendo óbvias. Disse que era um livro que ela com certeza leria no futuro. A vó disse: “Essa aí vai ser atriz, menina”. Achei de bom grado perguntar o nome. Vitória. O nome dela era Vitória. Ela disse que em casa tinha mais de 100 revistas. Cem é um número grande para uma criança. Ri e disse que esperava que um dia ela tivesse mil. Ela riu. Nos despedimos. Fui sorrindo para casa, parei na banca que costumo comprar revistas e já sou até amiga do dono, comprei 2 almanaques do Chico Bento, como às vezes faço, e li gargalhando e interpretando cada CABUM, TIBUF, SMACK que encontrava pela frente. Agora já é domingo, quase segunda, não lembro mais do rosto da Vitória. Mas lembro da risada. Balanço as pernas.

Praia Vermelha

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Todo coração é uma célula revolucionária.

Apologio ao crime?
Meu cu!

Só estou querendo dizer que:

Todo_espaco_mal_utilizado___.jpg

Um beijo para Henry David Thoreau e para todos vocês que ficaram muito indgnados com o meu furto.
Pois é, gente, é isso mesmo. O Brasil não vai pra frente porque existem pessoas como eu.
Que coisa, né menina!

pequeno léxico das coisas sentidas:

ccbb.JPG

toda vez que encaro o teto do CCBB, um verso de Jean Boëchat me salta:

a clarabóia é um pouco de luz.

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