acontece o tempo todo:

as pessoas me param para perguntar minha altura, meu nome, o que faço. as pessoas me perguntam se “está quente aqui em cima”, e eu, muito educadamente (ou ironicamente) digo: igual a sua aí embaixo. as pessoas me olham e eu olho para elas. gosto do contato visual. gosto de elucubrar coisas como: ela esta feliz ou ele acabou de trepar ou ainda, acabou de ser demitido, tem verrugas na bunda, deve ter cinco filhos.

eu ando pelas ruas com meus diálogos internos. textos montados, bolados na mente. as vezes narro minha trilha sonora.

eu sempre me disperso com as pessoas.

as velhinhas e velhinhos me contam dos netos, da artrose, da vida que era boa, do clima que já foi ameno, da ditadura, do crochê, e da solidão dos asilos.

os loucos me falam coisas escabrosas; querem me vender bugingangas ou só trocar um “bom dia, boa tarde, boa noite”- como o desdentado que vive sentado na porta de um antigo açougue alí perto da praça São Salvador.

as crianças me narram sonhos e super poderes, teve um guri que disse:

se eu olhar duas vezes para a lua eu viro o Hulk.
e eu: e para as estrelas?
ele: para as estrelas pode.
eu: e o que você faz quando vira Hulk?
ele: eu combato a injustiça.

ploft.

algumas pessoas me calam.

mas tem os dias em que sou eu a tentar diálogos. as vezes parto do clichê – tá calor, hein – noutras tento informações que se transmutam em longas conversas sobre tudo. como foi com a Senhora, que jamais saberei o nome, mas me levou exatamente onde eu deveria descer, qualquer lugar do Leblon, e depois do papo – professora de francês, amigos em Niterói, cores preferidas, comidas, passeios inesquecíveis, primeiro amor, pais, filhos – ela se despediu dizendo o meu nome. e eu só sorri. tinha certeza absoluta de que não havia me apresentado a ela. e desapareceu, caminhando para direção oposta a minha. mas ela me conhecia. eu saquei.

algumas pessoas me captam.

por aqui do meu lado, no bairro, pelas redondezas, sempre vagando ao redor da Alameda, tem um homem – dizem que é gringo, dizem que por baixo da carcaça suja tem um par de olhos azuis, dizem que fala uma língua estranha.
eu acredito que ele alucine um dilúvio próximo. tem pinta de náufrago. e tais equipamentos, acredite.
um dia, vou avisá-lo que vem vindo as águas. tenho certeza que ele me convidará para sobreviver, naquela bóia-pneu que ele carrega atravessada no ombro. talvez eu diga sim. talvez diga que quero Atlântida de novo. que bastou. que as águas limpam. que tudo tem fim. de repente ele acredita.

algumas pessoas me comovem.

só algumas.

3 Comments so far

  1. Gleidson (unregistered) on March 9th, 2007 @ 9:57 am

    Queria ter mais contato com as pessoas…


  2. marcelojhonas (unregistered) on March 9th, 2007 @ 12:06 pm

    Gostei.
    bjs :)


  3. Cláudio (unregistered) on March 11th, 2007 @ 8:27 pm

    Um dia eu disse:
    O corpo dele flácido ao lado dela. Uma perna dela ainda se estende sobre o corpo dele. O suor dele escorre do corpo, molha a pele dela. Fuidos outros ele sente no corpo, ela gosta de molhá-lo quando estão nus. Na morte há o amolecimento das tensões. Um suspiro, a garganta coça, e pergunta: – na morte se chega ao paraíso?



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