Pretos, brancos e pardos entre esmaltes e acetonas

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Sábado passado, num salão em Copacabana, a conversa era a seguinte:

MANICURE 1 (tinha a pele negra e tirava o fungo verde da unha de uma cliente): Cê viu o homem que a Fulana arrumou? O maior negão!

MANICURE 2 (tinha a pele negra mais clara e ralava o excesso de pele dos meus sofridos pés): Pois eu nunca namorei um negão! Quer dizer, só uma vez. Prefiro branco. Não gosto de namorar homem preto não.

EU: Ué, mas por que não?

MANICURE 2: Ah, é porque eu sou clarinha (risos). A minha certidão de nascimento diz que eu sou parda!

MANICURE 1: Pois ó, sendo homem, não tem essa! Tá dentro! E vem cá: se tu é parda, eu sou o que? Branca?

CLIENTE DA UNHA COM FUNGO: Olha, eu não tenho nada contra preto, mas você é…hmmmm…olha, nada contra mesmo a cor, mas você…Ah, você é…marrom….marrom-chocolate. E ela é marrom-médio!

MANICURE 1: Que diabo marrom o que? Eu sou negra. Preta mesmo.

EU (falando para cada manicure): Olha, gente.. você é negra e você também. Todas se entreolham, constrangidas). Só que uma de fato tem uma tonalidade de pele mais clara que a outra. Eu é que tenho parda na minha certidão de nascimento.

TODAS (praticmente em uníssono): Como assim parda? Você é branca!

EU: Gente, olhem pra minha cor! Meu avô era negão e minha avó era branca. Meu pai nasceu moreno escuro. Minha mãe é branca. Eu sou morena, parda, apesar de achar esta denominação o Ó.

CLIENTE DA UNHA COM FUNGO: E você acha que eu sou o que?

EU (após breves segundos de reflexão, já sentindo a chegada de uma euforia pró-brancura por parte da outra cliente): Você é parda.

CLIENTE DA UNHA COM FUNGO: Olha, me desculpe…nada contra negros…me desculpe mesmo…nada contra, eu não tenho preconceito…mas eu sou branca! Na minha certidão tem que eu sou branca… eu sou branca. Só que eu estou bronzeada.

EU: Bom, discutir raça no Brasil é realmente delicado…

MANICURE 2: Pois lá em casa eu sou a única que nasceu com o cabelo bom!

MANICURE 1: Só se for bom só depois da escova! Olha o cantinho da nuca (risos)!

MANICURE 2: Ah, mas meu cabelo é bonzinho! Minha filha, coitada, nasceu com cabelo de neguinha mesmo, chega dá pena: toim, toim!

MANICURE 1: Pois a minha filha veio me perguntar por que é que algumas amigas têm cabelo liso e o dela é daquele jeito, encarapinhado, igual ao meu. Aí eu respondi que é porque a mãe dela é preta! Aí eu perguntei por que é que ela não botava trancinha no cabelo. Aí ela respondeu que não gosta de cabelo de plástico!

EU: Pois fala pra sua filha gostar do cabelo dela. Cê já não viu cada nega linda com o cabelo black power?

MANICURE 2: Deus me livre! (risos)

MANICURE 1: Pois é, fica bonito sim…Mas tem que ter coragem, né?

EU: Acho que tem que se aceitar e se gostar…parar de querer se embranquecer…Pois eu tenho uma amiga que é branca de olho verde e tem o cabelo de negra. Não tem outra: ela usa o black power e arrasa! O que não falta é homem na porta dela! O que vale é atitude, né?

TODAS OLHAM PARA MIM, INCRÉDULAS.

7 Comments so far

  1. Camila (unregistered) on March 12th, 2007 @ 11:31 pm

    o negócio é o seguinte, exceto descendentes de algum canto-alguém, somos todos negros.

    e raça só existe uma: raça humana.


  2. letícia (unregistered) on March 12th, 2007 @ 11:38 pm

    a trilha de toda mulher é:

    i can’t get no satisfaction…


  3. LP (unregistered) on March 13th, 2007 @ 1:45 am

    Estas definições… se é negro, se é pardo ou branco… são apenas convenções que não servem para nada. A cor de cada um é única e não cabe nestes parâmetros. E ninguém deveria se envergonhar e nem se orgulhar de sua cor porque a cor da gente é apenas uma característica natural adquirida, não é fruto de trabalho, da construção de um desejo, de dedicação em vida, de nada… Imagine se agora eu fosse ter orgulho de ter as pernas tortas… :) Isto não deveria significar nada. Ninguém deveria se orgulhar ou se envergonhar por ser homem, ou mulher, ou por ser brasileiro, argentino, paulista, baiano, jovem, velho ou qualquer outra classificação deste tipo. A meu ver estas questões são sub-produto de teorias politicamente corretas importadas pelo país mais recentemente e que só servem para alimentar novas formas de preconceito.

    JULIANA MOREIRA: LP, concordo em tudo o que você falou: a cor de cada um é única e não cabe em parâmetros, sobretudo aqui no Brasil, onde a mistura de raças é ainda mais notória que em outros países (e que maravilha que por aqui é este caldeirão!). Mas ao mesmo tempo, todas estas denominações de cor disto ou daquilo, todas as nuances de branquidão ou pretidão, refletem não apenas a nossa mistura racial. Refeltem também, e infelizmente, o preconceito que existe dentro de cada pessoa, independente da cor da pele. No Brasil, o preconceito é forte, aparente no comentário mais despretencioso (como num salão de beleza). E é mais forte sobretudo com os não-brancos. E sim, os próprios negros acabam sendo preconceituosos também…E a diminuição vem aos poucos, como no caso da filha da minha manicure, que já sente estranheza por conta do cabelo dela. Vou terminar falando o maior cliché: que de fato no Brazil não existe democracia racial!


  4. Ilka Porto (unregistered) on March 13th, 2007 @ 9:53 am

    O sangue de todas é vermelho. Não dizem que o mais importante é o “interior”? rsrs


  5. marcelojhonas (unregistered) on March 13th, 2007 @ 2:23 pm

    all we need is love.


  6. LP (unregistered) on March 13th, 2007 @ 8:57 pm

    Qualquer dia a gente vai ter que andar com uma escala de cores na carteira para provar que a nossa cor é a Pantone 4800 C :)

    E a cor dos indianos? São quase tão negros quantos alguns africanos mas têm um tom meio diferente, não é igual. E alguns japoneses, mulatos na pele? E as pessoas cor-de-rosa? E os índios norte-americanos? Que loucura, não? Isto, é claro, sem considerar a interferência científica-tecnológica. Você já reparou como as pessoas que fazem bronzeamento artificial ficam cor-de-abóbora?…


  7. J. Menezes (unregistered) on March 14th, 2007 @ 2:02 am

    fiz bronzeamento artificial enquanto ficava com a adriana galisteu, e de fato, fiquei laranja.
    no meu mundo não há abóbora, e sim laranja.



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